Era verão. Ele chegou até seu amigo e disse:
Nossa, como está quente, né?! Como sua bunda!
Sai fora meu! Minha bunda ninguém come não!
Calma véi, eu estou me referindo ao suor nas nádegas.
Ah tá! É verdade então.
(Piadinha infame pra quebrar o gelo).
Ele curtia o verão o máximo que podia. Gostava de correr
à noite durante a semana e à tarde aos sábados, pra curtir o sol quente.
Descansava aos domingos. Chegava em casa, comia alguma fruta e tomava um belo
banho morno durante a semana e frio aos sábados. Apesar da aparente vida
saudável (no sentido chato da coisa), não deixava de tomar sua cervejinha
gelada com os amigos ou até sozinho, e até fumava. Já havia algum tempo que não
namorava firme, mas usava a criatividade e não passava aperreios. Gostava muito
de ler. Um dia começou a sentir a necessidade de passar para o papel as coisas
que pensava e sentia. Então começou a escrever. Logo que o computador começou a
se tornar algo comum em todos os lares, ou quase todos, ganhou um e começou a digitar suas neuras e
suas paixões (entre outras coisas).
Um dia percebeu que para ser feliz neste mundo, era
necessário, quase imprescindível, ter uma boa auto-estima. Começou a
cultivá-la. E uma das coisas que mudou em si mesmo (nem sempre pensado, mas
intuitivamente) foi: acabar com a pretensão de tentar agradar a todos.
Resultado: Ganhou inimigos.
Um desses, para piorar a situação, disfarçado de amigo,
certa vez disse-lhe:
Você é uma mentira!
Você é uma farsa! Você é falso até o último fio de seu
cabelo!
Você se acha o máximo, mas não passa de um mentiroso!
Se enxerga! Você não é tão bom assim quanto acha que é!
Ele se sentiu muito mal. Nem deveria, mas pensou em tudo
o que foi dito.
Engoliu um pouco e fez algumas caretas horríveis enquanto
praguejava.
Esse foi o limão.
Um tempo depois, no dia de Natal, almoçou com sua família
e à tarde resolveu ir até a casa de um amigo. Amigo este que sempre discutiam
quando o assunto era política. Passaram algumas situações inenarráveis. Mas...
Continuaram sendo amigos.
Chegou. Foi muito bem recebido. Desejou um Feliz Natal ao
dito amigo e à sua esposa. A pessoa (o amigo) já havia tomado duas garrafas de
uísque sozinho. Não conseguia conversar direito, tinha um paralelepípedo na
língua. Mal conseguia ficar de pé (fato que não abalou nem um pouco o respeito
que sentia pelo amigo). Mesmo assim o levou até a cozinha, ofereceu comida (ele
recusou, pois tinha comido muito na noite anterior e no dia de Natal. Essa é
uma das utilidades do Natal: engordar). Seu amigo colocou uma dose de uísque
para cada um e ao brindar, disse: Que Deus o abençoe! Desejo que você seja
muito feliz! Ele disse: A nós todos! Depois disso tomou mais umas três doses e
ao se despedir para ir embora, ao abrir a porta seu amigo, religioso, pediu
licença levando a mão à sua cabeça, perguntando, posso?
Ele disse: Claro.
Foi abençoado. Agradeceu e foi embora.
No caminho para casa teve uma experiência mística (outra
história).
Essa foi a pinga. (benta).
Chegou em casa. Amigos o esperavam. Amigos que não via já
há algum tempo. Não escapou da zoação (pela bebedeira). Nada de mais.
Conversaram. Brincaram. Riram. Choraram.
Tocaram violão. Ele cantou e ouviu elogios sinceros.
Beijou Cláudia.
Esse foi o doce.
No dia seguinte pegou tudo e fez uma caipirinha.
Relaxou. Bebeu e relaxou.
Sabia que algo ainda faltava.
Mas decidiu que não ia se sentir mal por isso.
Sabia que não era
o único nessa situação.
No momento era o que dava pra fazer.
A vida nunca dá só o limão.
