quinta-feira, 31 de julho de 2014

Insônia

Sábado retrasado, à noite, meu computador estava super lento e travando toda hora. Resolvi fazer uma limpeza por conta própria. Resultado: apaguei o que não devia e zoei o sistema operacional. Nem abria mais. Mas só fui descobrir a cagada no domingo de manhã. Não tinha onde levar o PC. Estava tudo fechado, é claro. Fiquei o dia inteiro preocupado, achando que tinha perdido todos os meus arquivos. Muita coisa importante e super sigilosa! E a preocupação se estendeu até a noite. Não conseguia dormir. Fiquei um tempão virando de um lado para outro em minha cama. Sentia uma dor aguda no peito, um aperto estranho, até chorei. Mas nem o choro aliviou a dor. Nunca pensei que perder um sistema operacional pudesse ser tão doloroso. E olha que meu Windows XP estava bem longe de ser uma Scarllet Johansson. Até que não agüentei mais a tensão e resolvi dar uma volta. 

Detalhe, já era uma hora da madrugada. Outro detalhe, estava garoando forte e um frio de rachar. Mas troquei de roupa, coloquei duas blusas, peguei o guarda-chuva e saí assim mesmo. Pensei em ir até o centro da cidade, mas no meio do caminho me lembrei de um barzinho de rock que ficava em um bairro vizinho de onde moro. Precisava tomar alguma coisa pra relaxar. As ruas desertas e um vento gelado.
Virando na esquina do bar, pude ver que estava aberto. Fiquei feliz por alguns segundos. Porque quando cheguei mais próximo, vi dois carros da polícia estacionados em frente ao bar. Passando em frente, vi que estava quase vazio. Reconheci o dono e ele estava conversando com dois policiais na porta de entrada, explicando que ali só freqüentava gente de bem. Não sei o que tinha acontecido, fiquei curioso. Não vi nenhum corpo estendido nas proximidades e passei direto. Na intenção de evitar um possível interrogatório. Desisti de ir até o centro e peguei o rumo de casa, apesar de ainda estar triste e dolorido.
Margeando um córrego que passa pelo bairro, vi um vulto em um grande jardim ao lado desse córrego. Fingi que não vi e passei cabisbaixo. Mas quando passei, a pessoa me chamou:
Ei, ei, por favor, você tem fogo?
Era uma mulher. Ou menina, uns vinte e poucos anos. Continuava garoando forte, ela estava embaixo de uma das árvores do grande jardim.
Opa, tenho sim. Me aproximei e quando acendi o isqueiro próximo à sua boca, percebi que era um belo baseado.
Você fuma? Ela perguntou.
Só do que faz mal.
Quer dar uns tragos comigo?
Não sei não. A última vez que fumei isso foi há uns dez anos atrás e tive até taquicardia.
Ah, experimenta aí... Talvez o momento que não tenha sido bom pra você.
Tudo bem então.
Dei uns tragos e vi que ela era muito bonita. Branquinha, cabelos claros, longos e lisos, olhos negros e boca carnuda. O queixo um pouco saliente que talvez tenha feito com que ganhasse alguns apelidos maldosos. Mas eu achei um charme.
Você não tem medo de ficar aqui sozinha numa hora dessas?
Que nada, já to acostumada.
Qual o seu nome?
Fabrícia, e o seu?
O meu é Hilário.
Ela tentou segurar o riso, mas ele escapou.
É sério Fabrícia. Minha mãe escolheu esse nome em homenagem a uma música que marcou muito a vida dela.
Ah, que legal. Disse ela, dessa vez séria.
Mas que música é essa?
Aquela assim:
Hilário, Hilário, Hilário iê, ô ô ô
É a turma da Xuxa que vai dando o seu alô.
Ela riu alto. (Só pode ter sido o efeito da maconha).
Continuamos ali fumando e conversando baixinho com medo de acordar a vizinhança do outro lado da rua.
De repente avistamos uma criatura vindo pela calçada. Era uma mulher. Ela nos viu mesmo na penumbra, atravessou a rua e quando passou uns dois metros, tropeçou e saiu catando cavaco até se esborrachar no chão. Pensei em correr e ajudar, mas ela foi muito mais rápida. Levantou e foi embora como se nada tivesse acontecido. Quando vimos que estava tudo bem, não agüentamos e caímos na risada, tentando não fazer muito barulho, colocando a mão na boca.
Quando já estávamos mais calmos, eu disse:
Vai chegar uma colher.
Ela me olhou sem entender nada.
Como assim?
É porque caiu uma mulher. Se tivesse caído um homem, aí chegaria um garfo.
Nossa... essa foi horrível!
(Essa nem a maconha deu jeito).
Conversamos mais um pouco até que eu resolvi ir embora, já era bem tarde.
Olha Hilário, leva este aqui pra você fumar tranqüilo em sua casa.
Agradeci, peguei o fino e disse:
Nossa, foi um anjo que te colocou em meu caminho.
Ou um demônio... Ela disse.
Dessa vez fui eu quem riu alto (por dentro). Aquela risada no final do clipe da música “Thriller” do Michael Jackson, saca?
E disse:
Que perigo!
Então ela começou a cantarolar baixinho, olhando em meus olhos:
Perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração... Perigo é ver você assim sorrindo, isso é muita tentação...
Adivinha. Foi um beijo delicioso! Um não. Vários.
Cheguei em casa e troquei de roupa. “Native American” pra tocar no celular. Coloquei o fone de ouvido e acendi um incenso e o baseado. Dei uns belos tragos, fechei os olhos e relaxei. Aos poucos, suavemente foi se formando um túnel multicolorido em forma de espiral. As cores iam mudando de acordo com as batidas do meu coração, sincronizadas com as batidas dos tambores. Depois de alguns minutos peguei o celular, tirei os fones de ouvido e liguei para o número 911:

Emergência 911, em que posso ajudá-lo?
Oi, boa noite. É que eu estou aqui fumando um baseado de vocês e está parecendo uma viagem de LSD e não de maconha...
Ok Senhor, qual é o seu plano?
Norma Culta Master Plus.
Ok Senhor, e a senha?
“Moléstia à parte, eu fui muito bem alfa batizado.”
Ok Senhor só um instante que vamos estar redirecionando a sua viagem.
Tudo bem.
Ok Senhor, experimente agora.
Dei uns dois tragos e de repente o túnel multicolorido se desintegrou totalmente e surgiu uma mulher linda com uma aura brilhante, com asas de anjo, uma auréola azul índigo e chifres.
Agora sim moça. Obrigado pela ajuda.
Ok Senhor, agradecemos a preferência. Tenha uma boa noite.
Boa noite.
Quando voltei para a viagem, pude perceber que a mulher era a Fabrícia.
Então ela continuou cantando a música da Zizi Possi:
Nisso tudo mundo é igual... Hummmm.  Anjo do bem, gênio do maaaaaal...
E cantamos juntos o refrão:
Perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração. Perigo é ver você assim sorrindo, isso é muita tentação... Seus olhos, seu sorriso, numa noite...
Apaguei e dormi como uma pedra.
Só uma semana depois levei o computador para arrumar.
Instalei o “Windows of Perception”. E seu nome é Maria Joana, prima da Samantha (do filme Her).

Atenção! Essa é uma “obra” de ficção, etc., etc., etc.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Conflito Israel x Palestina

Pelo que entendi do conflito entre Israel e Palestina, parece que é um conflito por terras, mascarado como conflito religioso. Ou o contrário, um conflito religioso mascarado como um conflito por terras. Pra mim pouco importa, só sei que estão morrendo mulheres e crianças inocentes, principalmente Palestinos. Se é um conflito religioso, é idiota, estúpido e imbecil!! Será que assassinar mulheres e crianças inocentes é vontade de Deus? Se a resposta é sim, esse Deus está mais parecido com um homem também idiota, estúpido e imbecil!! O que aconteceu com o Deus que é Amor e Infinitamente Misericordioso? Eu acho que são homens estúpidos e ignorantes usando o nome de Deus para assassinar inocentes. Mas se o conflito é por terras, essa carta escrita pelo chefe indígena Seattle em 1854, é bem atual:

Carta do cacique Seattle
Há mais de um século e meio, em 1855, o cacique Seattle, dos Suquamish, do Estado de Washington, costa Oeste dos Estados Unidos, enviou esta carta ao presidente Franklin Pierce, em resposta a uma oferta para compra do território indígena. As reflexões do líder Suquamish ainda têm uma surpreendente atualidade.

"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa 

terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e 

benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não 

necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois 

sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e 

tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no 

que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos 

brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é 

como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. 

Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então 

comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda 

esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de 

areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os 

insetos 

a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para 

ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de 

noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua 

amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu 

pai 

sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os 

antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa 

atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem 

vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que 

nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se 

possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos 

insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é 

terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem 

não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à 

noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o 

próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de 

pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos 

respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem 

branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível 

ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar 

os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo 

que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias 

abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou 

um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser 

mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para 

sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os 

animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo 

quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere 

a terra, fere também os filhos da terra.
    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros 

sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em 

ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não 

tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são 

muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos 

das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em 

pequenos 

bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um 

dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o 

nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma 

maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de 

todos. 

E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é 

amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O 

homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras 

raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, 

sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e 

domados 

todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, 

quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão 

então 

os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus 

à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela 

sobrevivência.
    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos 

quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais 

visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de 

amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos 

para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se 

consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá 

talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o 

último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra 

de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a 

viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido 

ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a 

como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça 

como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu 

poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como 

Deus 

nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta 

terra 

é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino 

comum."