quarta-feira, 23 de março de 2022

 O corpo é como um instrumento! São três etapas para conseguir tocar um instrumento; a primeira é inconsciente e sem habilidade. Você vê aquele monte de cordas num violão, por exemplo, e não tem a mínima idéia de pra que servem tantas! E muito menos sabe como tirar um som harmônico disso. Acho que essa fase vai normalmente, se tudo der certo, até os sete anos de idade. E quase sempre as coisas não vão bem normalmente! Essa fase em mim durou até os trinta anos de idade! Completamente ignorante! Só comecei a perceber que dava pra tirar um som nesse instrumento, quando peguei no tranco. Não tinha a menor idéia de que esse negócio fazia música! Vivi nessa fase, a completa escuridão; como um bebum perdido num cemitério no meio da noite; consciente de que aquilo é a casa dos mortos, mas sem ver nenhuma chance de sair dessa condição. Mas então por que você não desiste? Acho que porque você sente lá no fundo (se você tiver sensibilidade suficiente) que existe uma saída e que se você persistir, mais cedo ou mais tarde (normalmente é mais tarde) você vai encontrar uma saída; mais cedo ou mais tarde vai acontecer algo mágico que vai te destravar e as músicas mais lindas vão fluir lindas do seu tão amado bongô. E como conseguir mais sensibilidade? Ah, isso deve ser a parte mais difícil! Por quê? Porque pra viver nesse mundo loco, você tem que ser forte, competir e vencer; nem sempre de forma honesta! Tem que ser durão! Nem que você não almeje nada de especial na sua vida; no mínimo só pra se defender. Então termino essa primeira parte com a frase do nosso querido comandante Chê Guevara: É preciso endurecer, mas sem jamais perder a ternura.

A segunda etapa pra conseguir tocar um instrumento, é consciente e sem habilidade. Você já aprendeu o básico do instrumento, sabe que dá pra tirar um som! Mesmo porque você ouve muita música e se o seu ídolo sabe tocar, você que é um irmão de humanidade, também deve saber tocar! Mas o professor passa as aulas e você não consegue realizar! Hoje você ta consciente de que é possível, mas parece que tu és um aleijado; não sai do básico! Essa fase deve durar normalmente até os quatorze anos de idade, se tudo correr bem! Mas as coisas quase nunca vão bem! Pra mim, durou, ou está durando, até os cinqüenta anos de idade! Porém, já tem um pouco de prazer consciente; na fase anterior também tinha prazer, mas era tudo inconsciente!  Mais um motivo pra gente acreditar que existe algum poder superior no comando dessa poha toda! Como pode tanta coisa ruim dar lugar pra tanta coisa boa?! Desculpa! Me excedi, acontece. Acho que como hoje sou consciente, porém sem habilidade, a gente tem que começar a perceber que o mundo criado por Deus é muito, muito, muito antigo! O ser humano é a criatura mais jovem nesse mundo! Que tal um pouco mais de humildade?! As plantas, as árvores, os animais, enfim, a natureza selvagem veio muito tempo antes de nós! A gente tem muito a aprender com eles! É como se a gente quisesse assassinar nosso mestre! E é o que estamos fazendo! Enfim, já pensei em matar o meu professor de bateria! Principalmente quando ele toca jazz na batera no fim das aulas! Sou eu que peço, mas ele poderia recusar! Metido!

A terceira fase é consciente e com habilidade! Aquela fase em que você tira de ouvido aquele som heavy metal, sem ler partitura e sem esforço. Ainda não cheguei nessa fase! Mas tenho fé de que vou conseguir! E se não conseguir? Paciência, pelo menos tentei; E agora eu poderia terminar com um final feliz dizendo que consigo tocar um instrumento com virtuose; mas ainda não consigo! Mas se cheguei até aqui vivo, ainda tenho fé e esperança. Tenho fé! Por isso não posso dizer a você pra não desistir. Só depende de você! Mas não seja egoísta! Não esqueça das necessidades das pessoas que te amam! E se eu te dissesse: Não desista! Você vai conseguir! Estaria sendo leviano! Não seria Fé! Numa entrevista, Carl Gustav Jung disse após o entrevistador perguntar se ele acreditava em Deus: Eu não preciso mais acreditar! Eu sei que Ele existe.

sábado, 19 de março de 2022

Pastor e meliante na quebrada

 Pastor, o que eu faço pra conseguir a sabedoria?

Filho, pra conseguir a sabedoria, você tem que fazer boas escolhas.

Mas pastor, como fazer boas escolhas? Às vezes é tão difícil!

Filho, faça boas escolhas adquirindo experiência.

Ah, mas pastor, então como adquirir experiência?

Filho, você adquiri experiência, vivendo, crescendo e fazendo más escolhas.

Um pássaro cantou e se misturou com a confusão do menino que sempre se sentava em frente ao pastor no campinho de terra que ficava abaixo da comunidade, em alguma quebrada do subúrbio do Brasil. O pastor sempre ia até o campinho aos domingos após a celebração na igreja, para pregar aos meninos que após o jogo de futebol, o escutavam sedentos de sabedoria, para talvez, fugirem do mau destino.

Correria no morro, helicóptero da PM sobrevoando e pânico na comunidade para aqueles que ainda não estavam acostumados com esse tipo de evento. O pastor tentou continuar com a pregação, mas para sua surpresa, foi abordado de repente por um meliante que ele reconheceu como um menino que brincava naquele campinho no passado e que era até bem participante nas pregações de tempos idos.

Pastor, preciso de grana pra fugir!

Filho, não tenho dinheiro aqui! Ficou tudo na igreja!

Não tenho tempo de ira até a igreja! Tenho certeza que o senhor tem dinheiro aqui! Passa logo se não quiser morrer!

Filho, nem se eu tivesse dinheiro aqui, te daria! Sai dessa vida! Se entrega pra polícia e para Deus! Essa vida que você ta levando não leva a lugar nenhum! Aliás, vai te levar para o inferno! Um inferno muito pior do que esse que você ta vivendo hoje!

Vai dar o dinheiro ou não vai?

Não!

Então o meliante, ex menino que jogava bola no campinho de terra e ouvia a pregação do pastor no passado e tinha milhões de sonhos, deu um tapa na cara do pastor.

No entanto, o pastor não reagiu e deu a outra face:

Filho, isso não leva a nada!

O meliante deu outro tapa na cara do pastor, agora na outra face.

Os meninos assustados também não conseguiram reagir quando o meliante sacou o três oitão e descarregou no pastor.

Foi quando o meliante viu os meganhas dobrarem a esquina, sendo que ele já não tinha a menor chance de escapar. Pegou a bola que estava nas mãos de um dos meninos e começou a fazer embaixadinha. Um dos meninos perguntou tremendo:

Por que você fez isso? Ele é nosso mestre iluminado!

Ah mano, o cara se acha superior! Então vai ser superior lá no paraíso!

sábado, 12 de março de 2022

Um estranho no ninho

 Ontem terminei de ler o livro “Um estranho no ninho”. E hoje assisti a uma resenha do filme com o mesmo nome, baseado no livro. Vou tentar fazer uma resenha.

O livro começa com o “chefe”, um índio norte-americano tendo alucinações com os negros enfermeiros, num hospício em que está internado. Interessante (eu achei pelo menos) que esse índio é o narrador no livro! E ele narra não só a história, mas também suas alucinações. Na verdade ninguém diz isso em nenhum momento do livro, mas tenho quase certeza que esse índio é um xamã! Visto como louco pelos caras pálidas. E ele se passa por surdo e mudo e fica nos cantos quieto, quando não está fazendo o trabalho dos enfermeiros, varrendo e limpando os recintos do “centro de reabilitação”, de tanto que levou tratamento de choque.

Um belo dia chega ao manicômio um ruivo tipo lenhador Irlandês, cantando e fazendo graça pra todos, internos e enfermeiras. A primeira diferença entre o livro e o filme: No filme McMurphy é representado por Jack Nicholson; E como diz o professor, papel eternizado por Jack Nicholson! E todo mundo (ou quase todo mundo) sabe que o Nicholson não é ruivo e nem tem porte de lenhador! Mas tudo bem, liberdade artística.

McMurphy é um espírito livre! E não admite ser domado! E a enfermeira chefe, encarregada de manter a ordem no recinto, é autoritária, reacionária e intransigente! Outra diferença entre o livro e o filme, e essa me doeu! No livro, a Sra. Ratched é uma mulher de 50 anos de idade e tem uma peculiaridade: tem seios enormes! Que ela tenta esconder a qualquer custo. E no filme, a Sra. Ratched é jovem e linda!

MacMurphy percebe que a Sra. Ratched administra o manicômio com mão de ferro! Se um coelho fosse internado, sairia jurando pra todos que era um porco espinho! McMurphy decide democratizar o ambiente! É um revolucionário!

Essa é a treta: MacMurphy livre e Sra. Ratched dominadora.

No início McMurphy diz aos colegas internos com quem faz amizade facilmente, que vai se dar bem e derrubar a Sra. Ratched e como de costume, faz mais uma aposta com os colegas, como costuma fazer quando estão jogando cartas.

Minha leitura da bagaça é a seguinte:

Quando li isso no livro, achei que o McMurphy ia seduzir a Sra. Ratched. Mas pra minha decepção, ele tentou lutar contra ela mano a mano, tipo pra ver quem era mais forte! Ele até teve algumas vitórias, mas o bagulho é loco e o sistema é forte!

Alguns dizem que essa estória é machista! Não sei, e não vou falar nada sobre isso porque não entendo nada de feminismo! E também não vou dar spoilers! Assistam ao filme ou leiam o livro! Recomendo!

quarta-feira, 9 de março de 2022

Mestre e discípulo

 Há muito tempo que o mestre não se sentia tão perturbado; pra ser mais exato, desde que alcançou o Nirvana e deixou de seguir para ser seguido. Resolveu escrever sobre o caso:

“Nesse momento tenho um discípulo que me intriga sempre que participa de nossos trabalhos.”

O mestre trabalhava com seus acólitos, sempre com o auxílio de enteógenos.

“Sempre fui ou tentei ser um mestre alegre, engraçado e acolhedor com todos! Mas há mais ou menos um ano, recebi um iniciante deveras estranho pra mim. Digo, no início parecia só mais um que “eu” ia ajudar a escapar das amarras da mente e voar e cantar alto como o sabiá laranjeira brasileiro. Logo na primeira experiência com um dos enteógenos que trabalho, teve uma crise de choro! Cheguei perto dele no momento e disse:

“Filho, não existe a culpa, só existe o Amor!”

“Ele então começou a rir, rir, rir; Então eu disse, achando que ainda estava no controle:”

“Calma filho, nós sabemos que é difícil, mas negar a situação é pior pra você!”

“Nos mais de vinte anos em que liberto mentes, foi a primeira vez que isso me aconteceu! Normalmente, a pessoa continua a chorar e depois cai em semi sono tendo visões de luzes coloridas e túneis formados por espirais mágicos, que dura até o final dos rituais. Mas esse menino começou a dar gargalhadas que tirou todo o resto do grupo do transe!”

“Sempre fazia consultas com os participantes dos rituais após as experiências; e esse menino nunca demonstrou nenhuma mudança! Continuava o mesmo!”

“Ele era funcionário público, casado e tinha três filhos; pelo que me contou, sempre foi assim, calmo, tranqüilo e fazendo sempre a mesma coisa há vinte anos, desde que entrou para o funcionalismo!”

“Nenhum trauma, nenhuma mágoa, nenhum motivo pra reclamar! Fazendo sempre as mesmas coisas e sendo feliz!”

Sempre quis ser um narrador onisciente! E agora que tenho a oportunidade, vou aproveitar! Nada de deixar coisas implícitas! Quero mais é ser explícito!

O verdadeiro mestre era o menino!

Mas como já disse, aqui não tem nada implícito! Não quer dizer que todo funcionário público é um mestre! Mas talvez queira dizer que existem vários níveis de Iluminação Espiritual.

Sempre li que o máximo da Iluminação Espiritual era Buda, Jesus, Osho, etc.

Mas e se tiver algo superior a isso?!

Desculpa, só to tentando aproveitar ao máximo minha onisciência narrativa.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Quarta feira de cinzas

 

Domingo de carnaval

Esse padre que vou falar agora, vive e prega o evangelho em uma paróquia longínqua, no interior do interior de São Paulo. Todo domingo, com os fiéis já acostumados, reza sua missa com sua voz potente de pintassilgo mudo, com sua eloqüência de palhaço bêbado e simpatia mais tímida do que virgem do século XIX na lua de mel. Sempre agradece a Deus por ter lhe dado uma vida tão pacata! Ele acha que não merece! Porém, um dia tudo isso mudou; e foi justamente em um carnaval; e o início foi no domingão de festa. Normalmente ninguém se confessava nesse período, então o padre realizava suas preces dentro do confessionário; imagina então a surpresa do padre com a presença de um rapaz do lado de fora do confessionário, querendo contar seus pecados.

“Padre, minha mulher quer se casar, mas acho que não estou preparado! Já me casei uma vez e não tive uma boa experiência! Eu que sempre fui um solteiro valente, corajoso e ativo; quando casei fiquei frouxo e maricas! Até minha voz mudou! Tinha medo de tudo e fiquei até deprimido! Minha namorada de hoje está me cobrando muito esse casamento! Não agüento mais tanta pressão! Preciso de ajuda! O que o senhor acha?

O padre resmungou algumas frases em forma de conselho, se despediu do rapaz e deu a assunto por encerrado. O rapaz não entendeu nada e foi embora num misto de esperança e confusão.

Segunda feira de carnaval

O padre se surpreende de novo, enquanto realizada suas orações no confessionário; ouviu uma voz estranha e num primeiro momento não sabia se era um homem ou uma mulher; até que a fiel com voz estranha se pronunciou:

“Padre, meu namorado é um machista, sexista, racista, fundamentalista e baixista!

“Baixista?!”

“Isso! Numa banda de forró!”

“Nossa!”

“Pois é, o que devo fazer?”

“Minha filha, por favor, seja mais clara! Não consigo compreender seu problema!” Resmungou o padre, mas por incrível que pareça, a mulher entendeu.

“Padre, nem eu me entendo! Eu quero me casar, mas ao mesmo tempo, eu odeio todos os homens! Por causa que um homem me abusou quando eu era criança!”

O padre balbuciou algo que a mulher não entendeu; ela desistiu e foi embora decidida a consultar um psicanalista, já que o homem de Deus se recusava a dar uma resposta ao seu problema.

Terça feira de carnaval

O padre só foi rezar de novo no confessionário, de teimoso! Enquanto fazia suas humildes orações, ouviu uma voz de trovão do outro lado da janela:

“Padre, eu pequei!”

“O que você fez meu filho?”

“Filho não, Pai!”

“Como assim?”

“Sou o pai da menina que veio aqui na segunda feira se confessar.”

“Ah, acho que entendi!”

“Depois você vai entender!”

“Ok, o que lhe traz aqui?”

“Padre, o lance é o seguinte: Minha filha quer se casar! Um casamento místico, saca?! Mas o noivo é muito medroso! O cara acha que se casar e tiver filhos, vai perder sua própria vida! Mas eu acho que é o contrário! Na verdade, ele nunca foi livre; e só será livre no dia em que se render à vida e suas convenções! Só será livre no dia em que se render à sua própria natureza! Natureza que eu criei! Digo, que Deus criou!”

Quarta feira de cinzas

No dia seguinte o padre foi rezar a missa de cinzas; e após todos os rituais costumeiros, realizou a missa; na hora da homilia todos ficaram surpresos! O padre falou claro, limpo, cheio de razão, emoção e beleza! E quando terminou a missa todos os fiéis foram lhe dar os parabéns por tão sublime homilia e missa!

O padre achou tudo aquilo muito estranho e quando todos os fiéis saíram, disse ao sacristão:

“Isso ta muito estranho! Não estou entendendo nada!”

“Se o senhor quer saber, eu estou entendendo muito menos!”

“Será que tudo isso tem a ver com as pessoas estranhas que eu ouvi a confissão neste carnaval?”

“Que pessoas?”

“As pessoas que vieram se confessar no domingo, segunda e terça! Você não as viu?”

“Não vi ninguém, seu padre! E não vi porque não veio ninguém! Eu fiquei na igreja o carnaval inteiro! E só vi uma coisa estranha!”

“O que?”

“Vi o senhor usando batom na segunda feira!”