Ouvi dizer que existiu um casal bem estranho num passado
recente; até aí nenhuma novidade! Casal é tudo estranho! De perto. De longe, é
filme ou novela.
O cara era um boçal; já vou dizendo de cara, pra ninguém
criar expectativas falsas quanto a essa criatura abominável.
A mina era uma patricinha que se achava só porque lia os
russos e curtia Metállica.
Uma dia, num bar, o boçal ouviu indignado de um “amigo”:
- Esse governo não vale nada! Cheio de gente passando fome, e
o cara só quer saber de andar de moto com seus seguidores zumbis!
Mas o boçal não se reprimiu:
- Querido, as pessoas passam fome porque querem! O mundo é
cheio de possibilidades! E acho que esse negócio de bolsa família do antigo
governo, só piora a situação! A gente precisa ensinar o povo a pescar, e não
dar o peixe de mão beijada!
O “amigo” do boçal ficou quieto e deu um gole na cerveja,
odiando o boçal pro resto de sua vida, mesmo sabendo que isso era ruim pra ele
mesmo. Num futuro não muito distante, o “amigo” encontrou o boçal na rua e só
não deu um murro na cara dele –após a costumeira piadinha ofensiva do boçal –
porque pensou:
“Mano, esse cara deve ter algum problema! Mas a vida conserta
ele! Vou ficar na minha.”
A patricinha fútil, um dia em um chá de bebê com as “amigas”,
também teve seu momento: “Cala a boca, porra!”
Alguém disse que estava desempregada e que estava difícil de
conseguir um emprego nessa cidade tão desigual. A patricinha:
Ah, mas eu estou trabalhando e ganho muito bem! Você precisa
ler aquele livro que fala da meritocracia! Cada um tem aquilo que merece! O que
eu consegui até hoje, foi porque eu mereci!
A “amiga” avermelhou, cuspiu por dentro e ficou quieta,
curtindo um ódio gigante da patricinha. E talvez o mesmo anjo que soprou no
ouvido do “amigo” do boçal, tenha sussurrado no ouvido da “amiga”: Calma, a
vida dá um jeito.
Mas como esse humilde narrador já deve ter dito em alguma
ocasião: Essas coisas do Amor, ninguém explica! O boçal e a patricinha fútil se
conheceram... Pintou um clima, namoraram, noivaram e se casaram. Ele continuou
sendo boçal e ela fútil. No início foi só paixão! Muito sexo todos os dias!
Depois vieram os filhos e a paixão se acalmou; mas restou a paz do amor e a
amizade; foram felizes para o resto da vida.
Não consigo entender! Por que tem tanta gente do bem que se
ama no início como se fossem almas gêmeas e depois se separam porque não se
suportam mais?!
Não importa isso agora, aqui nesse texto sem noção! O que
importa é que apesar de todos os defeitos, um dia o boçal e sua querida esposa
fútil, compraram uma sementinha e plantaram no quintal.
Anos depois, tinham em seu quintal uma árvore frondosa,
cheirosa e cheia de frutos. E num dia ensolarado, a esposa saiu na varanda e
presenciou o marido deitado na grama aos pés da árvore e se surpreendeu com a
visão de um dos pássaros que faziam ninho na anciã; ao lado da cabeça do
marido, cantando, alegre como um pinto no lixo e o marido impassível, com os olhos
fechados e um sorriso no rosto. E então ela pensou:
“Nossa!”
E depois de toda essa viagem, o casal – já transformado e
todo trabalhado no amor -foi conhecer um espaço esotérico onde ouviram falar
que um mestre dava suas palestras comoventes. Chegando lá, se acomodaram
felizes, pensando: Que oportunidade única nós temos! Vamos evoluir ao máximo
que um ser humano jamais sonhou!
Todos esperavam ansiosos para ouvir as sábias palavras do
mestre, em busca de uma epifania e até quem sabe, a iluminação espiritual
através das sábias palavras do santo. O mestre tomou fôlego, inspirou
profundamente, segurou a respiração por alguns segundos e expirou lentamente.
Então disse: (mentira, não disse nada!) Deu uma sonora bufa que empesteou todo
o ambiente! Ninguém entendeu nada! Um rapaz desavisado que tinha comido uma
feijuca saiu correndo com a mão na boca, mas não resistiu: vomitou no meio do
caminho, tentando chegar ao banheiro! E disseram:
- Mano, isso é carniça pura!
- Credo!
- Cruz, credo, Ave Maria!
- Mestre, o que você comeu?! Um urubu?!
E após a poeira, digo, a bufa passar, uma discípula tomou
coragem:
Mas mestre – questionou a discípula, após o futum estar um
pouco mais resistível – a gente achou que o senhor daria no final, uma palavra
de sabedoria!
E o mestre, satisfeito como se tivesse tirado um tronco do
meio da raba, disse:
O que vocês acham mais sábio do que o “pum do palhaço??”
Relaxa, qualquer semelhança, é mera coincidência! O alvo sou
eu mesmo! Tenho dentro de mim – entre outras coisas – um babaca, uma patricinha
fútil, um palhaço que se acha sábio e um mestre que se faz de palhaço pra
tentar conseguir ser entendido.