sábado, 25 de março de 2023

Apologia

 “Bilú, bilú, bilú, bilú” – Tocou o telefone.

- Alô?

- Pai, fui assaltada! Me ajuda pelo amor de deus! (chorando).

- Filha, aonde você ta? O que aconteceu?

- To aqui no centro pai! Eles querem dinheiro! Se o senhor não der cem mil reais eles vão me matar!

- Meu Deus! Não é possível! A gente não tem esse dinheiro!

- Pai, me dá o número da sua conta e a senha, senão eles me matam!

O senhor foi logrado: passou os números, os bandidos sacaram a grana e ele ficou na saudade. A “boa notícia” é que ele só tinha três mil reais na conta de aposentado.

Após o acontecido o senhor teve o insight atrasado e ligou pra filha. Ficou sabendo – é claro – que tava tudo bem; ela estava em casa de boas. (mora sozinha com o cachorrinho).

Todo mundo em casa ficou esperto e duro (sem grana)! Foi um mês difícil pois o banco antes de ressarcir o dinheiro exigiu boletim de ocorrência e algumas burocracias. Mas não sem antes avisar: Hoje nós ressarcimos, mas tenha cuidado! Da próxima vez não arcaremos com os prejuízos! Afinal o dono do banco e os acionistas precisam ficar, ou continuar, muito ricos e sem preocupações! Pensa bem plebeu! Ninguém merece!

Um ano depois o telefone toca:

“Bilú, bilú, bilú, bilú” O filho mais novo do casal atende:

- Alô?

- Pai, fui seqüestrada e os caras querem dinheiro!

O filho: - VSF! FDP! VTNC! E desligou.

No dia seguinte o telefone toca novamente:

“Bilú, bilú, bilú, bilú”

- Alô? A esposa atendeu.

- Tia?! Tudo bem?

- Quem ta falando?

- Sou eu tia, seu sobrinho preferido! Não ta conhecendo minha voz?

A tia ficou esperta:

- Ah, é meu sobrinho? Onde você ta sobrinho?

- Eu tava indo aí, mas meu carro quebrou!

- É mesmo?! E como é seu nome, sobrinho?

Desligou.

Três dias depois o telefone tocou novamente! Os caras são chatos!

“Bilú, bilú, bilú, bilú”

- Alô?

Dessa vez quem atendeu foi o filho bêbado e drogado da família; tava sumido e apareceu pedindo grana; porém, tava interado dos golpes e das tentativas de golpe sofridas.

- Oi tio, tudo bem?

- Para com isso abestado! Eu sei que foi meu amigo que mandou você passar um trote pra mim!

- Que amigo?

- O Dunha!

- Que Dunha!

- Aquele que arrancou seu cú a unha!

O golpista riu até mijar nas calças.

E nunca mais ligaram pra essa família humilde! Começaram a roubar bancos, que é onde está o dinheiro dos verdadeiros ladrões.

sábado, 4 de março de 2023

O boçal e a patricinha fútil

Ouvi dizer que existiu um casal bem estranho num passado recente; até aí nenhuma novidade! Casal é tudo estranho! De perto. De longe, é filme ou novela.

O cara era um boçal; já vou dizendo de cara, pra ninguém criar expectativas falsas quanto a essa criatura abominável.

A mina era uma patricinha que se achava só porque lia os russos e curtia Metállica.

Uma dia, num bar, o boçal ouviu indignado de um “amigo”:

- Esse governo não vale nada! Cheio de gente passando fome, e o cara só quer saber de andar de moto com seus seguidores zumbis!

Mas o boçal não se reprimiu:

- Querido, as pessoas passam fome porque querem! O mundo é cheio de possibilidades! E acho que esse negócio de bolsa família do antigo governo, só piora a situação! A gente precisa ensinar o povo a pescar, e não dar o peixe de mão beijada!

O “amigo” do boçal ficou quieto e deu um gole na cerveja, odiando o boçal pro resto de sua vida, mesmo sabendo que isso era ruim pra ele mesmo. Num futuro não muito distante, o “amigo” encontrou o boçal na rua e só não deu um murro na cara dele –após a costumeira piadinha ofensiva do boçal – porque pensou:

“Mano, esse cara deve ter algum problema! Mas a vida conserta ele! Vou ficar na minha.”

A patricinha fútil, um dia em um chá de bebê com as “amigas”, também teve seu momento: “Cala a boca, porra!”

Alguém disse que estava desempregada e que estava difícil de conseguir um emprego nessa cidade tão desigual. A patricinha:

Ah, mas eu estou trabalhando e ganho muito bem! Você precisa ler aquele livro que fala da meritocracia! Cada um tem aquilo que merece! O que eu consegui até hoje, foi porque eu mereci!

A “amiga” avermelhou, cuspiu por dentro e ficou quieta, curtindo um ódio gigante da patricinha. E talvez o mesmo anjo que soprou no ouvido do “amigo” do boçal, tenha sussurrado no ouvido da “amiga”: Calma, a vida dá um jeito.

Mas como esse humilde narrador já deve ter dito em alguma ocasião: Essas coisas do Amor, ninguém explica! O boçal e a patricinha fútil se conheceram... Pintou um clima, namoraram, noivaram e se casaram. Ele continuou sendo boçal e ela fútil. No início foi só paixão! Muito sexo todos os dias! Depois vieram os filhos e a paixão se acalmou; mas restou a paz do amor e a amizade; foram felizes para o resto da vida.

Não consigo entender! Por que tem tanta gente do bem que se ama no início como se fossem almas gêmeas e depois se separam porque não se suportam mais?!

Não importa isso agora, aqui nesse texto sem noção! O que importa é que apesar de todos os defeitos, um dia o boçal e sua querida esposa fútil, compraram uma sementinha e plantaram no quintal.

Anos depois, tinham em seu quintal uma árvore frondosa, cheirosa e cheia de frutos. E num dia ensolarado, a esposa saiu na varanda e presenciou o marido deitado na grama aos pés da árvore e se surpreendeu com a visão de um dos pássaros que faziam ninho na anciã; ao lado da cabeça do marido, cantando, alegre como um pinto no lixo e o marido impassível, com os olhos fechados e um sorriso no rosto. E então ela pensou:

“Nossa!”

E depois de toda essa viagem, o casal – já transformado e todo trabalhado no amor -foi conhecer um espaço esotérico onde ouviram falar que um mestre dava suas palestras comoventes. Chegando lá, se acomodaram felizes, pensando: Que oportunidade única nós temos! Vamos evoluir ao máximo que um ser humano jamais sonhou!

Todos esperavam ansiosos para ouvir as sábias palavras do mestre, em busca de uma epifania e até quem sabe, a iluminação espiritual através das sábias palavras do santo. O mestre tomou fôlego, inspirou profundamente, segurou a respiração por alguns segundos e expirou lentamente. Então disse: (mentira, não disse nada!) Deu uma sonora bufa que empesteou todo o ambiente! Ninguém entendeu nada! Um rapaz desavisado que tinha comido uma feijuca saiu correndo com a mão na boca, mas não resistiu: vomitou no meio do caminho, tentando chegar ao banheiro! E disseram:

- Mano, isso é carniça pura!

- Credo!

- Cruz, credo, Ave Maria!

- Mestre, o que você comeu?! Um urubu?!

E após a poeira, digo, a bufa passar, uma discípula tomou coragem:

Mas mestre – questionou a discípula, após o futum estar um pouco mais resistível – a gente achou que o senhor daria no final, uma palavra de sabedoria!

E o mestre, satisfeito como se tivesse tirado um tronco do meio da raba, disse:

O que vocês acham mais sábio do que o “pum do palhaço??”

Relaxa, qualquer semelhança, é mera coincidência! O alvo sou eu mesmo! Tenho dentro de mim – entre outras coisas – um babaca, uma patricinha fútil, um palhaço que se acha sábio e um mestre que se faz de palhaço pra tentar conseguir ser entendido.