segunda-feira, 25 de maio de 2015

Choque-Rei

Ele saiu de casa de carro com sua irmã para assistir ao jogo entre Palmeiras e São Paulo. Sem camisas do time, tinham medo. Tem muito fanático por aí. Sua mãe, como sempre, disse para eles levarem agasalho e guarda-chuva. “Não mãe, não precisa! A gente vai de carro!” “Mas e se chover lá no estádio?!” “Que isso mãe?! Tá o maior sol!” Riram e saíram.
Um clássico paulista, ou clássico brasileiro, ou clássico mundial, afinal de contas o futebol brasileiro ainda é o melhor do mundo!! (apesar dos sete a um). Chegaram ao Pacaembú e ele estacionou o carro no primeiro espaço que achou fora da linha de alcance dos flanelinhas. Era uma casa, provavelmente alugada... por flanelinhas profissionais. Mas na hora não se deu conta disso. Tudo bem. Foram andando até o estádio, pois era perto da casa. Já tinham os ingressos, chegaram até a entrada e os apresentaram. O rapaz que estava recebendo os ingressos, que por coincidência era um polícia, só olhou pra cara deles e devolveu os ingressos. Ele não entendeu nada e tentou dar os ingressos novamente. E novamente o gambé devolveu. Então ele teve um lapso de consciência e percebeu que ali era a entrada da torcida do São Paulo! O time adversário!
Saíram disfarçadamente e passado o susto, foram para a entrada principal, que era a entrada para a torcida do Palmeiras naquele dia. Até hoje ele abençoa aquele gambé.
Logo no primeiro tempo, o São Paulo fez um a zero. Quando terminou o primeiro tempo, estavam tranqüilos. O time do Palmeiras estava ruim, mas sabiam que em clássico, nem sempre o time que está melhor vence. Um dia se ganha, outro se perde. E a vida continua.
Antes de continuar, devo dizer quem sou eu, entende?! Além de ser o Deus do futebol, sou o narrador da história, entende?! E agora vou fazer uma breve descrição dos dois personagens até aqui envolvidos na história.  Ele era lindo, alto, moreno, magro, mas não muito, olhos e cabelos castanhos, charmoso e sensual. Ela, como era sua irmã mais nova, possuía algumas características semelhantes a ele. Também linda e também sensual. A diferença era que ela era uma pessoa mais legal do que ele. Pelo menos era o que o povo dizia. Mas na verdade, não eram tão lindos assim! Acho que estou sendo influenciado pelo autor.
Mas agora que já me identifiquei, voltemos à história.
No intervalo do primeiro para o segundo tempo, ele ligou o walkman e colocou os fones de ouvido. Sintonizou na rádio FM que costumava transmitir jogos de futebol. Começou o segundo tempo. Jogo equilibrado, nenhum dos dois times estava lá essas coisas. No rádio, aquela coisa, os caras achando que eram comediantes ao invés de comentaristas. Pior que era só piada sem graça.
Ele se entediou e decidiu mudar de estação. Mas quando foi apertar o botão, houve uma interferência no sinal e de repente começou a tocar uma música estranha, com tambores, um órgão e violinos dissonantes. Ficou curioso e não mudou de estação. Imaginou que fosse uma rádio pirata, ou que ele havia entrado em outra dimensão. Então uma voz cavernosa e distorcida, começou a dizer coisas também estranhas em cima do instrumental caótico:
“Alguns jogadores de futebol, senão muitos! Ganham milhares ou milhões de reais pra chegar em campo e não jogarem nada! Quanto ganha um professor em nosso país? Todos sabem, uma miséria! E quando fazem greve para reivindicar, com méritos, um salário melhor, são tratados como bandidos! Outro dia um amigo meu me disse que para pagar esses salários milionários dos jogadores de futebol, os dirigentes, poderosos que são, fazem entre outras coisas, lavagem de dinheiro com tráfico de drogas e tráfico de armas. Aí eu pergunto: Porque eu tenho que me adaptar a essa sociedade de merda?! Já me disseram que eu não tenho o direito de reclamar, porque tem gente em situação muito pior que vive sorrindo. Sei lá, de repente estão esperando o paraíso no outro mundo! Afinal não é isso que prega a sociedade, através da religião?! Não que eu seja contra a alegria, mas enquanto o povo sorri, passando necessidade com um pau enfiado no rabo, os poderosos, ricos, que muitas vezes enriquecem através da corrupção, dinheiro roubado do próprio povo, riem da nossa cara e pregam que é preciso ser humilde e aceitar a situação precária com simplicidade, pois é disso que Deus gosta.”
Enquanto ouvia aquele desabafo revoltado, assistia ao jogo chato. A transmissão voltou ao normal e voltaram também, as piadas sem graça. Desligou o rádio e ficou pensando naquelas palavras. Já quase no final do jogo, perguntou se sua irmã queria alguma coisa, uma cerveja, um amendoim. E enquanto ele perguntava, o Palmeiras empatou o jogo. Comemoraram muito! Não podia ser diferente.
O jogo terminou um a um. Saíram do estádio, satisfeitos. Empate com gosto de vitória. Ele resolveu cortar caminho até o estacionamento para não encontrar com a torcida do São Paulo. Subiram um escadão e lá em cima viram um sãopaulino sendo espancado covardemente por dois palmeirenses. No meio da rua, o trânsito parou e os dois palmeirenses apoiaram o sãopaulino no capô de um carro parado e socaram até tirar sangue. Continuaram andando sem falar nada, afinal estavam assustados com a situação. Aquilo não era rotina para eles. Mas lá na frente, antes da esquina, já perto do estacionamento, surgiu uma multidão de torcedores do São Paulo. Ele não tremeu. Nem ela. Acho que não tinham consciência do tamanho do perigo. Ele pegou na mão dela e continuaram caminhando como se fossem namorados dando um inocente passeio. No meio da multidão, que tomava toda a rua, alguém gritou: “ E aí, palmeirense!” Ele quase olhou! E nisso que ele quase olhou, alguns perceberam que eles realmente eram palmeirenses. Através da linguagem corporal, talvez.
E é aí que eu, o Deus do futebol, entro. Soprei no ouvido dos mais exaltados e eles pensaram: “Deixa pra lá, eles são muito lindos pra morrer tão cedo!”
Chegaram ao estacionamento, entraram no carro e se olharam. Nenhuma palavra. Apenas um sorriso nervoso. Só iriam se dar conta do perigo que passaram, algum tempo depois. Ele ligou o carro e saíram.

E choveu torrencialmente.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Neurose

Ele estava se sentindo muito mal aquele dia, e não sabia o motivo nem a razão. Fez de tudo durante o dia para tentar se sentir melhor. Sem sucesso. À noite foi até o banheiro e usou o próprio ouvido para desabafar, através de sua imagem no espelho:

“Não sei por que estou me sentindo assim! Sinto um imenso vazio! É como se faltasse uma parte de mim mesmo. Como se meu espírito estivesse preso. Não sei mais o que fazer. Vou falar...
Sobre a redução da maioridade penal:
Dúvidas: Se aprovada, a lei vai valer também para as meninas? Ou só para os meninos? Se valer também para as meninas, e por um acaso eu sair com uma menina de dezesseis anos de idade, ela que estará errada?
Resposta: Na situação que me encontro hoje, se uma menina sair comigo, estará errada independente da idade!
Certa vez, uma pessoa religiosa me disse que eu estava errado por gostar de ler, principalmente sobre filosofia e psicologia. Disse também que eu deveria ler apenas a Bíblia. Mas eu gosto muito de ler, e de pensar, e de questionar. Não foi Deus quem nos deu o cérebro? (entre outras coisas). Não faz sentido nos dar uma máquina tão poderosa se não podemos usá-la. Seria como dar uma Ferrari de presente e proibir o uso da máquina. E antes que me chamem de pretensioso, por comparar o cérebro com uma Ferrari, devo esclarecer que considero como Ferrari, o cérebro de todos, não só o meu. Mas alguns aprendem a pilotar, outros não. Aliás, acho que comparado com o cérebro humano, qualquer máquina é só um brinquedo.
Eu estou no mundo, mas não sou desse mundo.
Vocês sabem quem disse essa frase. Ou a quem atribuem essa frase. Digo isso sem aspas, porque quem está dizendo agora, sou eu. Será que o Cristo, quando disse essa frase estava querendo dizer o mesmo que eu neste momento? Será que Ele, como ser humano que foi, ainda estava sentindo que algo faltava para que pudesse se sentir em paz? Não sei. Mas sei que eu, hoje, não estou em paz. Sei, ou pelo menos sinto, que existe um mundo espiritual (digo espiritual por não ter consciência da coisa), e que muita gente tem a consciência e a visão desse mundo que sinto falta. Eu ainda não tenho. E isso me incomoda muito! Não sei se Jesus , enquanto era só um homem, tinha essa consciência. E tenho essa dúvida porque dizem que ele sofreu muito. E pelo que percebo, quem tem essa visão, vive em paz. Apesar das adversidades. Acho que muita gente passou e passa pelo sofrimento que ele passou. Mas como ele era o próprio Deus encarnado, soube lidar melhor com a situação.
Outro dia, cheguei  em uma padaria (que mais parece um boteco) e dei boa noite ao atendente (um senhor de meia idade). Ele simplesmente me ignorou. Perguntou o que eu queria. Eu disse, ele me serviu e pronto. Mas não me abalei.
Mas acho que a personalidade é apenas uma roupa para o espírito, que pode ser trocada a qualquer momento.  (me desculpe se uso muito a palavra “acho”, é por pura falta de visão). Digo isso, porque naquele momento, não dei a mínima! Mas hoje, quando cheguei na mesma padaria-boteco, estava apertado e fui direto ao banheiro. Estava trancado. O mesmo atendente, senhor de meia idade, me perguntou: “Pois não senhor?” Eu disse: “O banheiro está trancado”. Ele disse: “Está sim, porquê?” Eu disse: “Tem chave?” Ele me passou a chave resmungando e enquanto eu estava lá dentro urinando, ouvi ele dizendo para um cliente que estava tomando uma cerveja: “ Porra, quer usar o banheiro e nem pede?! Isso aqui não é casa da sogra não!” Uma situação, em determinado dia, me deixa alegre e forte. E a mesma situação, em outro dia, me deixa fraco e achando que está todo mundo rindo da minha cara. Que situação é essa? Adivinha.
A minha falta de visão impede que eu saiba realmente se eu não sou desse mundo, ou se ele é um idiota, ou se ele só não foi com a minha cara. E digo tudo isso, porque hoje, ao contrário da outra vez, me senti mal. Daí minha suspeita que, antes de sair, ou no dia anterior, eu tenha trocado de roupa (personalidade). Às vezes eu tenho a intuição de que eu faço coisas (sem a visão), que só poderiam ser feitas por quem tem essa visão. Ou que pelo menos eu saberia lidar melhor com determinadas situações, se tivesse essa bendita visão. Acredito que troco de personalidade às vezes e hoje tive a sensação de que não deveria fazer isso. Mas não sei como controlar isso conscientemente. E por que não deveria fazer isso? Porque acho que sou hiper-sensível e hoje tenho a impressão de que o mundo é hiper-hostil. Uso máscaras, às vezes, para proteger minha hiper-sensibilidade, dessa hiper-hostilidade. E por que mais uso máscaras? Por algumas razões (mas isso está se tornando consciente agora). Primeiro porque algumas pessoas que tenho contato, acham que por eu ser hiper-sensível, não possa gostar de mulher. Ou seja, que eu tenha que ser hiper-gay. Mais um motivo para que eu não me ache pertencente a este mundo. Eu adoro mulher! Ou eles estão errados, ou eu sou uma aberração da natureza.
Ou talvez isso tudo que eu esteja falando, seja apenas verborragia.
Mas você não tem medo de expor essas coisas? E se você estiver sendo filmado? E se seus inimigos estiverem vendo isso? Vão ter pistas dos seus pontos fracos!
Tanto faz! Entre outras várias impressões que tenho, uma delas é de que a Mão que derruba, é a mesma Mão que levanta.
Coincidências existem sim! Mas não são por acaso.
Agora vou dormir e espero que amanhã eu esteja melhor!”
Fez cara de William Bonner e ainda olhando no espelho, disse:

“Boa noite.”

quarta-feira, 15 de abril de 2015

E-mail do Além


Salomé chegou em casa e seu marido já foi lhe contando: Oi querida, você já sabe o que aconteceu?
Notícia boa ou ruim? Perguntou Salomé.
Horrível! Respondeu seu marido. Nosso vizinho. Aprontou mais uma!
O que foi dessa vez?
Decepou a cabeça de um colega de trabalho porque o mesmo não compartilhava da mesma fé que ele.
Nossa, que absurdo! O pior é que as pessoas começam a olhar torto para nós também, porque seguimos a mesma religião que ele.
Pois é! Isso é um grande problema pra gente.
O vizinho mantinha meninas em cárcere privado há anos. Ele seqüestrou as garotas enquanto elas saíam da escola. Já havia torturado e mutilado vários outros vizinhos porque eles não queriam aderir à sua religião. Decepou a cabeça de alguns e filmava para colocar o vídeo na internet. E todos sabiam sobre tudo isso, inclusive as autoridades. Mas ninguém fazia nada.
Salomé conversou mais um pouco com seu marido; Depois foi tomar um banho e em seguida degustar o jantar que seu marido já havia preparado.
Tomou um café e foi fumar um cigarro. Então entrou em seu quarto e ligou o computador. Quando entrou no facebook, viu que tinha um pedido de amizade. Clicou e viu o perfil cujo nome era nada mais, nada menos que Deus. A foto batia. Era um senhor rechonchudo, com barba e cabelos brancos. Pensou: “Será que é Ele mesmo?”. Deu um sorriso cínico, ignorou e chamou as amigas para conversar no bate-papo. De repente enquanto conversava com uma amiga, recebeu outro chamado no bate-papo: Deus! “Como assim?” Pensou. “Tenho certeza que não adicionei esse engraçadinho!” Ficou curiosa e decidiu conversar com o Senhor:
“quem é vc?”
“como assim quem sou Eu? Sou Deus!”
“OMG!”
“Isso mesmo! Seu Deus e de todos!”
“fala sério cara, vc não tem o q fazer?”
“vc nem imagina o quanto Eu tenho pra fazer! J
“ta bom então, se vc é mesmo Deus, faz um milagre aí...”
“todos pedem isso! Antigamente Eu era mais respeitado!”
“LOL”
“vc ri?! Mas é verdade!”
“ta bom, mas não foge do assunto! Faz um milagre aí pra eu ver!”
“desculpa minha filha, mas vc vai ter que acreditar sem milagre mesmo!”
“ah, fala sério! Assim eu fico confusa e indecisa...”
“mas esse é o meu divertimento favorito! Deixar vcs confusos... J
“tudo bem, digamos q eu acredite q vc é mesmo Deus. O q vc quer comigo?”
“vc é a nova escolhida para disseminar a Minha Palavra.”
“de novo? Mas vc já não fez isso antes?”
“Ah, sim! Mas vcs são estranhos! Deturparam tudo!”
“e como eu vou fazer isso?”
“é simples, vou te mandar um arquivo em PDF pro seu e-mail. Aí vc espalha para todos os seus amigos. Facebook, twitter, youtube, Insta, etc...”
“blz. E o que tem nesse arquivo?”
“dez mandamentos.”
“tmb já mandou isso! Daí com esses vão ser vinte?! É isso mesmo? J
“Ò_Ó”
“Calma, brincadeirinha.”
“ok. Já perdi muito meu Sagrado Tempo com vc! Me passa aí seu e-mail pra eu te mandar o arquivo...”
“ué, mas vc não é Deus? Adivinha meu e-mail então!”
“blz então. Mas amanhã eu mando. Hj vou participar de um hangout com uns seguidores das antigas. Bye bye!”
“valeu Deus! Xau! Abs!”
“S2”
No dia seguinte Salomé abriu seu e-mail e viu que havia lá uma mensagem, enviada por Deus. Ficou surpresa, mas logo imaginou que o cara devia ser um “hacker”. Abriu o e-mail e leu:
OS NOVOS DEZ MANDAMENTOS:
11-      Trate as mulheres com Amor.
22-      Não tente forçar sua fé ou a falta dela, para o seu próximo. O ser humano nasceu para ser livre.
33-      O trabalho pode ser prazeroso se você descobrir sua vocação. Portanto, descubra-a ou morra tentando descobri-la.
44-      Escute o que o outro tem a dizer, mas tire suas próprias conclusões.
55-      Não cortarás a cabeça do próximo. Ou seja, não torturarás e não matarás.
66-      Ditadura e corrupção são pecados mortais! Não os pratique.
77-      Não siga as antigas escrituras e muito menos estes mandamentos. O quero dizer é para ser espontâneo. É da natureza do homem ser flexível. Mas ele só consegue isso quando está relaxado e confiante.  Muitas vezes situações parecidas podem pedir atitudes diferentes.
88-      Não sejas racista.
99-      Não sejas homofóbico.
11-   Eduque suas crianças sem violência.
“Lê, lê, relê, ora, labora e encontrarás.”

Salomé até gostou dos novos dez mandamentos. Mas tinha certeza que aquilo era uma brincadeira. Ou quase certeza.
Mas na dúvida, enviou o arquivo para todos os seus amigos, inclusive a seu vizinho assassino.




quinta-feira, 19 de março de 2015

Lição de casa


O professor explicava para as crianças como havia sido maravilhosa a descoberta do Brasil. Os índios (eu sei, estou repetitivo) que aqui habitavam receberam muito bem os colonizadores, com muitos presentes. E os colonizadores ajudaram os índios e os negros, dando-lhes trabalho e transformando-os em Cristãos, tirando-os assim da vida de pecado. Na lousa estava escrito: São Paulo, 18 de Março de 2015, 6º ano (ou antiga quinta série ginasial).  As crianças ouviam atentas. Era apenas sua primeira aula naquele colégio particular, como professor substituto. Deu uma pincelada em toda matéria que ia passar durante o semestre. Quase no final da aula abordou o tema corrupção. Explicou o que era e como isso era nocivo para a democracia de nosso belo país. E como esse problema vinha se alastrando em vários setores. E para finalizar, passou um trabalho para as crianças fazerem em casa. Recortar de algum jornal atual, alguma matéria que falava sobre o assunto corrupção. Colar a matéria no caderno e escrever sobre o assunto. E podiam pedir o auxílio dos pais ou responsáveis.
Juquinha chegou em casa e foi correndo pedir ajuda a seu avô: Vovô, vovô, o senhor pode me ajudar com a lição de  casa?
Claro meu filho! Mas sobre o que seria esse trabalho?
Sobre a corrupção atual no Brasil.
Legal filho. Claro que eu posso ajudar! Mas agora o vovô está ocupado. Pode ser amanhã cedo?
Claro vô! Combinado!
No dia seguinte Juquinha acordou bem cedo e foi tomar café com seu avô.
Bom dia vovô! O senhor dormiu bem?
Bom dia Juquinha! Sim, dormi muito bem e você?
Também dormi bem, obrigado.
O avô mostrou a Juquinha um pequeno caderno e disse: Escrevi uma pequena história para te ajudar. É simples, aí você pega os tópicos e faz uma pesquisa na internet, ok?
Tudo bem vovô! Estou curioso. O senhor quer ler para mim a história?
Sim, claro. Só espero não estar subestimando sua inteligência.
O senhor não faria isso! Já o nosso professor substituto de história...
Ah é? Por quê?
Deixa pra lá vovô. Vamos à história.
Ok.
Era uma vez...
Juquinha interrompeu seu avô: Era um vez, vovô?! Isso é um conto de fadas? Eu já tenho onze anos de idade! Não sou mais criança!
Silêncio, preste atenção. E para nós, eu e sua avó, você será sempre nosso bebê.
Tudo bem então.
Continuando. Era uma vez um país tropical, bonito por natureza. Lá viviam nativos felizes e em completa sintonia com a natureza (repetitivo). Até que um dia chegaram colonizadores e escravizaram ou mataram toda essa gente. Após um tempo, para não perder espaço, que freqüentemente era invadido por pessoas de outros países, esses colonizadores mandaram trazer de seu país de origem muita gente ruim, só para ocupar os espaços. Trouxeram criminosos de todas as espécies. Alguns dizem que hoje em dia, algumas pessoas (ou muitas), ainda trazem em si essa herança genética. Mas apesar disso a maioria do povo é honesta e trabalhadora.
Depois de um bom tempo, houve um golpe militar e a ditadura durou vinte e um anos. Houve censura, torturas, assassinatos e, é claro, muita corrupção. Se alguém denunciasse algum tipo de corrupção dos militares, era preso, torturado e assassinado. Aliás, tudo que era dito, passava pelo censor antes de se tornar público.
Veio o fim da ditadura e recomeço da democratização. O quarto presidente eleito era do partido do passarinho bicudo.  Estabilizou a moeda e privatizou várias empresas nacionais. Vendeu empresas a preços bem abaixo do valor que elas realmente valiam. Usou um banco de um Estado conhecido por sua terra roxa, para lavar todo o dinheiro desviado (R$124.000.000.000,00). O dinheiro viajava por vários outros bancos no exterior para despistar uma possível investigação. Abriram uma conta no país mais rico do mundo e tiveram a cara de pau de nomear essa conta com o apelido do partido. Por exemplo, uma grande empresa (a maior mineradora do mundo) era avaliada em R$ 92 bilhões. Foi vendida por R$ 3,3 bilhões. Para onde será que foi todo esse troco? Na época ficou a sensação de que foi um jogo de cartas marcadas. Resultado: Circulam na justiça mais de 107 ações que questionam a legalidade do leilão.
O governo do presidente três letras do partido do passarinho bicudo ia de mal a pior. O povo resolveu mudar o voto, tentar algo novo. Elegeu o molusco. Não lembro se as CPIs contra a corrupção do presidente anterior chegaram a ser abertas. Mas sei que o presidente eleito, o molusco, deve ter feito algum tipo de acordo com o presidente anterior, e os casos foram todos arquivados. Talvez em nome da governabilidade. O molusco fez um bom governo, priorizando os mais pobres, com políticas públicas que ajudavam os mais necessitados. O país cresceu. E deu também mais autonomia à polícia federal, que era engessada no antigo governo. Mas infelizmente fez algumas coligações no mínimo estranhas. Quero acreditar que fez isso também em nome da governabilidade. Mas o resultado não foi muito bom.  Os partidos coligados, corruptos, também queriam o seu osso. Assim como as empresas que financiam campanhas eleitorais (na verdade não é um financiamento, e sim, um empréstimo a juros altíssimos). Veio sua sucessora, a primeira mulher presidente do país. Veio também à tona muitos casos de corrupção. E ainda bem que vieram à tona! Agora essa doença pode ser tratada e curada. Ou pelo menos controlada. Tomara. Isso se o partido do vice-presidente deixar. Aquele partido que se diz aliado do governo, mas sempre vota contra no congresso e no senado.
E para finalizar, recentemente surgiu o caso do banco das quatro letras. Esse é bem grande! É enorme! Pois envolve pessoas de vários países, inclusive desse que estou lhe falando.  Sonegação de impostos, lavagem de dinheiro de corrupção, caixa dois, e até dinheiro de tráfico de drogas e tráfico de armas. Tem muita gente desse país envolvida, e muita gente poderosa. Mas para nossa surpresa, a grande mídia não está dando muita importância ao caso. Ou será que têm culpa no cartório e estão tentando acobertar alguns possíveis acusados? E também para nossa quase surpresa, políticos do partido do passarinho bicudo, não assinaram o pedido de abertura da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Por que será? Atualmente surgiram várias acusações de corrupção contra o partido do passarinho bicudo em alguns Estados onde eles são governo. Cartel, má gestão de dinheiro público, etc. Mas eles devem ser protegidos por gente bem poderosa. Mexem os pauzinhos e todos os processos são arquivados.
Juquinha pegou o caderno de seu avô e foi ao computador, pesquisar sobre os assuntos. Fez seu trabalho e não poupou ninguém. Deu nome aos bois. E deu detalhes dos esquemas de corrupção. De acordo com sites que ele considerou confiáveis. Levou o trabalho para a escola e o entregou ao professor.
No dia seguinte o professor chamou Juquinha até sua mesa: Juquinha, quem te ajudou com esse trabalho?
Meu avô.
Seu avô é comunista?
Não, ele é humanista.
Sei. Vá até a diretoria. O diretor quer falar com você.
Foi até a diretoria, bateu na porta e entrou.
O diretor lhe entregou uma carta e disse para entregá-la a seu avô.
Na carta o aluno Juquinha era convidado a se retirar do colégio.
Motivo: Rebelde, insubordinado e subversivo.
Leu a carta antes de levá-la a seu avô e pensou:
Ué, mas não tinha acabado a ditadura?


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mea Culpa


15 de Janeiro de 2219.
Escreveu a data no cabeçalho de seu primeiro relatório diário, antes de perguntar a seu mestre cientista:
Como vai funcionar?
Metempsicose.
O quê é isso?
Transmigração da alma, de um corpo para o outro, seja este do mesmo tipo de ser vivo ou não.
Então não é o corpo que viaja no tempo?
Não nesta máquina. Aqui, além de trocar de corpo, a alma também viaja no tempo.
Agora pedirei sua ajuda. Imagine que este é realmente o ano de 2219 e que uma tragédia aconteceu (talvez a terceira guerra mundial). Ou seja, um verdadeiro apocalipse. Ou talvez mudanças climáticas drásticas causadas pela ação irresponsável do homem (isso não é tão difícil de imaginar). Enfim, imagine um cenário caótico, desses que se vê em filmes de ficção científica. Você escolhe: guerra nuclear, zumbis, robôs, andróides, epidemias, extraterrestres, etc.
Voltando à história:
Alguns meses depois o cientista terminou a construção da máquina com o auxílio de sua bela ajudante.
Durante a construção, enquanto ela ajudava seu mestre, estudou bastante o projeto e já entendia bem como funcionava a máquina e o propósito de sua construção fora revelado a ela quando ainda era aluna de seu mestre. Eles conversaram e ela aceitou ser além de ajudante, a cobaia. A primeira viajante do tempo. Ela possuía as qualificações necessárias e também muita coragem.
Entrou na máquina. Seu corpo deitado em uma espécie de maca. O jovem senhor cientista perguntou se ela estava pronta, ela sinalizou que sim com a cabeça. Ele fechou os olhos, respirou fundo e ligou a geringonça. Em instantes, ela adormeceu e através de um monitor especial, o cientista pôde ver a alma da moça atravessando dimensões.
De repente ela se viu encarnada no corpo de uma índia. Malinche, seu nome.
Estava ao lado do grande Imperador Azteca, Montesuma II. Ano de 1519.
Montesuma II por sua vez, cumprimentava o espanhol Hernán Cortéz, que chegava a Tenochtitlán (que hoje é a cidade do México).
Montesuma ofereceu presentes aos espanhóis, sendo um bom anfitrião. Entre esses presentes, muito ouro. O que deixou os espanhóis completamente melindrados.
Malinche teve um caso com Cortéz. Já disposta a executar sua missão. Muito inteligente, aprendeu rápido a língua espanhola e servia de intérprete para os dois lados.
Um tempo depois, antes que a guerra começasse, e o império Azteca fosse completamente destruído, Malinche inventou recados para ambos os lados. Disse algo a Cortéz que o fez voltar à Espanha com seus homens. Com muito ouro, é claro.
A Montezuma ela disse que Hernán Cortéz e os Espanhóis concordaram em voltar para sua terra e que respeitavam sua cultura, mas o Imperador Azteca teria que acabar com os sacrifícios humanos e com o canibalismo, se quisesse impedir seu retorno e a guerra. Afinal, existiam outras formas de se cultuar o corpo, nosso templo sagrado. Mantendo-o saudável, por exemplo. E que existiam também outras maneiras de se honrar os deuses.
Assim foi feito. E de alguma forma, essa ação acabou influenciando aos outros conquistadores nas outras partes do continente.
Quando ela tentou voltar ao ano de 2219, dizendo as palavras “mágicas” que serviam como uma senha que a conectava à máquina do tempo, teve problemas. Vagou um tempo pelo espaço / tempo. E quando chegou ao seu ano, tudo estava diferente. A terra florida, as águas límpidas, o ar fresco, a temperatura agradável, os pássaros cantando, as pessoas sorrindo.
Procurou o laboratório, não encontrou. Procurou seu mestre, também não encontrou.
Não encontrou nem seu próprio corpo.  Ele não existia mais.
Ao realizar sua missão, mudou o destino de todo o planeta. Mas não se abalou, muito pelo contrário, se alegrou muito.
Vagou por um tempo pela Terra, ajudando as pessoas. Podia ser vista pelos clarividentes.
Foi cultuada como uma divindade.
Peço seu auxílio mais uma vez.
Vamos tentar juntos, imaginar como seriam as Américas e como seria o mundo, se os Europeus não tivessem invadido estas terras e assassinado milhões de índios.
 Pronto. Agora que já imaginamos, voltemos à “realidade”.
Em nome de toda a humanidade, peço perdão aos nossos irmãos peles – vermelhas.
 Perdoem-nos pelo GENOCÍDEO imperdoável, pela nossa ganância, e por ter lhes mostrado tudo o quê há de pior no ser humano.

Munay!!