domingo, 29 de setembro de 2019

Barriga de diamantes (No Velho Nordeste)


Sentado à mesa de um boteco com sua peixeira sobre a mesa refletindo o brilho dos olhos da mulher ao seu lado, estava Cícero. Do lado de fora o deserto às vezes perturbado por uma ou outra alma entediada ou gananciosa devido à corrida do momento. O dono do boteco serviu duas cachaças e perguntou se eles queriam comer algo gorduroso; responderam que não e continuaram com a conversa; na rua poeirenta, rolos de feno que deveriam alimentar os equinos, bardotos e muares, estavam sendo levados pelo vento.
_ Se você me amasse de verdade, você faria!
_ Oh, minha flor... Como sempre, eu to tentando dizer que te amo, mas as palavras fogem! Mas eu nunca fiz isso! Tenta se colocar no meu lugar um pouquinho!
_ Não tem nada disso meu nego! Você é que tem que se colocar no meu lugar! Se não for desse jeito, nunca terei uma vida digna!
Cícero, acabrunhado, estava se esforçando para conversar, quando na verdade, queria estar pescando ou caçando codornas. A pinga subiu pra cabaça e Cícero disse:
_ Você não precisa gostar de rock pra ter uma atitude rock’n’roll; só precisa ter atitude! E nesse momento, eu não tenho essa porcaria!
_ Que fuleragem é essa meu nego?! Do que vosmecê ta falando?!
_ Sei lá minha flor! Acho que já to até delirando! E a culpa é sua!
_ Como assim a culpa é minha?! A gente fez isso juntos! Agora temos que fazer alguma coisa juntos, pra arrumar essa situação! Por favor! Você consegue! É sobre nosso futuro! Se meus pais descobrirem, vão me expulsar de casa! A gente não tem outra alternativa, senão ficar com você!
O silêncio caiu na mesa, no boteco e no mundo. Incomodada com isso, a mulher disse qualquer coisa pra acabar com seu incômodo:
_ Se a gente não puder ser feliz aqui em Ouro Verde, podemos fugir pra São Paulo ou Rio de Janeiro!
Cícero não esboçou nenhuma reação, com a garrafa pela metade, já estava bêbado. E ela ainda incomodada com seu silêncio, continuou, vendo a Chapada ao longe, pela janela do boteco:
_ Você não acha que a Chapada se parece com uma mulher? A Chapada é a Terra grávida de diamantes! Não é à toa que a gente se encontrou! É muito dinheiro que rola nessa corrida! Vamos tirar proveito disso!
Então Cícero teve uma epifania:
_ Tudo bem, vou fazer, mas só porque eu vejo suas cores verdadeiras;
Brilhando por dentro,
Eu vejo suas cores verdadeiras;
E é por isso que eu te amo!
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem!
Suas cores verdadeiras!
Cores verdadeiras são lindas,
Como um arco-íris!
O corpo todo da mulher de Cícero estremeceu.
Cícero se levantou, colocou a peixeira na bainha, saiu do boteco, montou em seu jumento, e cavalgou pela rua. Passando em frente à igreja, viu e ouviu uma roda de samba; parou por alguns minutos, entorpecido. Tentou continuar, mas seu jumento empacou. Desceu e respeitou a teimosia de seu amigo. Continuou seu curso a pé, decidido a encontrar seu destino.

domingo, 22 de setembro de 2019

A cobrança


Não sei o nome da música nem a banda que está tocando! Só sei que é um rap dos Estados Unidos. Ben Johnson está bem louco no seu quarto. (desculpa a redundância). Ele fumou uns troço estranho, colocou a música no talo e ta dançando como se estivesse num rito de passagem de uma tribo do norte da África. Seu quarto se encontra em um burgo e seu burgo se encontra em uma comunidade no Bronx. Apesar da música alta, Ben escutou algo estranho se passando do lado de fora, mas não ligou, continuou em seu transe. Porém, no intervalo entre as músicas, pôde ouvir que duas pessoas estavam discutindo. Ficou curioso, baixou o volume e saiu do quarto para ver o que estava acontecendo. Chegando ao portão, viu um homem apontando uma arma para a cabeça de seu pai. E disse: (em inglês, é lógico)
Que porra é essa?!
Apareceu né seu babaca!? Disse o tal homem.
Daí com muita dificuldade, Ben respondeu: Desculpa, mas to com uma pedra na língua! Tenha paciência! Pelo amor de Deus, calma, meu pai não tem nada a ver com isso! Vamos conversar amanhã! Hoje não estou em condições! Eu te pago mano! Pai, você ta bem?
E antes que seu pai respondesse, o homem com a arma soltou o velho e apontou a arma para Ben. Ok, vamos deixar para amanhã em homenagem aos velhos tempos! Pelo jeito você continua ficando bem louco! Eu parei, graças a Deus! Essa merda não leva a lugar nenhum!
Porra mano, como assim?! E as viagens que a gente teve juntos?! Pelo menos pra mim, aquilo foi bem louco! Foi uma puta de uma experiência do caralho!
Esquece brother! Nem vem tentar me iludir! Bem que o pastor me disse que você tentaria me levar de volta para a perdição!
Porra bro, você vende drogas e diz que a perdição sou eu?!
Vendo porque dá dinheiro! Porque preciso!
Mas será que Deus gosta disso?
Não sei! Só sei que minha carteira de trabalho está em branco e ninguém quer me dar emprego! Faço o que posso!
Pois é! Mas isso não te dá o direito de apontar uma arma pra cabeça de meu pai! Afinal, estamos no mesmo barco! Porque você não cobra essa poha do governador ou do presidente?! Vem cobrar de mim?! Seu brother?!
Mano, você é pior que o capeta! Ta me iludindo! Tudo bem! Vou embora, tem um culto daqui a pouco! Mas amanhã eu volto! E se não tiver a grana, já sabe!
Combinado!
Mas antes que o traficante colocasse a arma na cinta, Ben ouviu um som de tiro e viu a cabeça do seu amigo traficante explodir bem na sua frente. O tiro veio de trás de um muro de um terreno baldio. Quem atirou foi o irmão de Ben, que é policial.
Por que você fez isso cara?!
Ele estava te ameaçando! E colocou uma arma na cabeça do nosso pai! Sei que vocês eram amigos de infância, mas ficar ameaçando minha família, eu não admito!
Se essa merda fosse descriminalizada, nada disso precisaria acontecer.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ensaio coloquial sobre a meritocracia


Era pra eu ta escrevendo um conto cabuloso agora! Mas veio um anjo e disse no meu ouvido: Dependendo do que você escrever, esse será seu destino. Acho que era realmente um anjo porque eu realmente estava em dúvida se escrevia um conto ou um ensaio. Não sei qual destino seria o meu se escrevesse o conto, mas decidi escrever o ensaio.
Essa porra de meritocracia não existe! E o cara que rala a vida inteira no escritório pra conseguir uma vaga na gerência e nunca consegue? Mesmo tendo talento? Passa a vida inteira como escriturário, enquanto um idiota toma seu lugar? E o muleque que joga muita bola na quadra da escola ou no campo do bairro e vai para a peneira do time grande e não passa? E o muleque que aprendeu a gostar de ler e gostou? Desejando ser escritor? E ele realmente tinha talento! Escreveu e nada do que escreveu foi publicado! Conheci um menino que tocava guitarra como ninguém. Eu até disse a ele: Mano, você toca mais que o Jimi Hendrix! Esse menino hoje ta tentando ganhar na loteria pra tentar dar uma vida um pouco mais digna pra sua mãe.
Mas porque to falando disso? Porque se existisse mesmo essa merda de meritocracia, só o Palmeiras seria campeão! A gente passou por duas segundas! Com vários times medíocres! Construímos um puta de um estádio de primeiro mundo! E sempre economizando com os jogadores. Passamos muita vergonha! Até que chegou o Paulo Nobre, que só formava times ruins! Mas hoje sei que foi pra conseguir ajustar as contas. Daí aos poucos o time começou a conseguir ganhar uns jogos e depois de muito sofrimento, conseguiu ser campeão da copa do Brasil de 2015!
Mas porque to falando disso também? Porque to com uma espinha de peixe entalada na garganta com aquele jogo contra os urubu! Se existisse mesmo meritocracia, o Palmeiras nunca perderia aquele jogo! Por quê? Porque o Palmeiras construiu seu palácio na rocha firme! E os mulambos, na areia da praia!
Um cara que foi deputado por dezessete anos e não fez nada! O que pode fazer como presidente? Ignorante, racista, homofóbico, sexista e ignorante (já falei isso)! O que essa pessoa pode fazer pelo país? Acho que ele nasceu pra mostrar para o mundo como NÃO se governar um país.