O professor explicava
para as crianças como havia sido maravilhosa a descoberta do Brasil. Os índios
(eu sei, estou repetitivo) que aqui habitavam receberam muito bem os
colonizadores, com muitos presentes. E os colonizadores ajudaram os índios e os
negros, dando-lhes trabalho e transformando-os em Cristãos, tirando-os assim da
vida de pecado. Na lousa estava escrito: São Paulo, 18 de Março de 2015, 6º ano
(ou antiga quinta série ginasial). As
crianças ouviam atentas. Era apenas sua primeira aula naquele colégio
particular, como professor substituto. Deu uma pincelada em toda matéria que ia
passar durante o semestre. Quase no final da aula abordou o tema corrupção. Explicou
o que era e como isso era nocivo para a democracia de nosso belo país. E como
esse problema vinha se alastrando em vários setores. E para finalizar, passou
um trabalho para as crianças fazerem em casa. Recortar de algum jornal atual,
alguma matéria que falava sobre o assunto corrupção. Colar a matéria no caderno
e escrever sobre o assunto. E podiam pedir o auxílio dos pais ou responsáveis.
Juquinha chegou em casa
e foi correndo pedir ajuda a seu avô: Vovô, vovô, o senhor pode me ajudar com a
lição de casa?
Claro meu filho! Mas
sobre o que seria esse trabalho?
Sobre a corrupção atual
no Brasil.
Legal filho. Claro que
eu posso ajudar! Mas agora o vovô está ocupado. Pode ser amanhã cedo?
Claro vô! Combinado!
No dia seguinte
Juquinha acordou bem cedo e foi tomar café com seu avô.
Bom dia vovô! O senhor
dormiu bem?
Bom dia Juquinha! Sim,
dormi muito bem e você?
Também dormi bem,
obrigado.
O avô mostrou a
Juquinha um pequeno caderno e disse: Escrevi uma pequena história para te
ajudar. É simples, aí você pega os tópicos e faz uma pesquisa na internet, ok?
Tudo bem vovô! Estou curioso.
O senhor quer ler para mim a história?
Sim, claro. Só espero
não estar subestimando sua inteligência.
O senhor não faria
isso! Já o nosso professor substituto de história...
Ah é? Por quê?
Deixa pra lá vovô.
Vamos à história.
Ok.
Era uma vez...
Juquinha interrompeu
seu avô: Era um vez, vovô?! Isso é um conto de fadas? Eu já tenho onze anos de
idade! Não sou mais criança!
Silêncio, preste
atenção. E para nós, eu e sua avó, você será sempre nosso bebê.
Tudo bem então.
Continuando. Era uma
vez um país tropical, bonito por natureza. Lá viviam nativos felizes e em
completa sintonia com a natureza (repetitivo). Até que um dia chegaram
colonizadores e escravizaram ou mataram toda essa gente. Após um tempo, para
não perder espaço, que freqüentemente era invadido por pessoas de outros
países, esses colonizadores mandaram trazer de seu país de origem muita gente
ruim, só para ocupar os espaços. Trouxeram criminosos de todas as espécies.
Alguns dizem que hoje em dia, algumas pessoas (ou muitas), ainda trazem em si
essa herança genética. Mas apesar disso a maioria do povo é honesta e
trabalhadora.
Depois de um bom tempo,
houve um golpe militar e a ditadura durou vinte e um anos. Houve censura,
torturas, assassinatos e, é claro, muita corrupção. Se alguém denunciasse algum
tipo de corrupção dos militares, era preso, torturado e assassinado. Aliás,
tudo que era dito, passava pelo censor antes de se tornar público.
Veio o fim da ditadura
e recomeço da democratização. O quarto presidente eleito era do partido do
passarinho bicudo. Estabilizou a moeda e
privatizou várias empresas nacionais. Vendeu empresas a preços bem abaixo do
valor que elas realmente valiam. Usou um banco de um Estado conhecido por sua
terra roxa, para lavar todo o dinheiro desviado (R$124.000.000.000,00). O
dinheiro viajava por vários outros bancos no exterior para despistar uma
possível investigação. Abriram uma conta no país mais rico do mundo e tiveram a
cara de pau de nomear essa conta com o apelido do partido. Por exemplo, uma grande
empresa (a maior mineradora do mundo) era avaliada em R$ 92 bilhões. Foi
vendida por R$ 3,3 bilhões. Para onde será que foi todo esse troco? Na época
ficou a sensação de que foi um jogo de cartas marcadas. Resultado: Circulam na
justiça mais de 107 ações que questionam a legalidade do leilão.
O governo do presidente
três letras do partido do passarinho bicudo ia de mal a pior. O povo resolveu
mudar o voto, tentar algo novo. Elegeu o molusco. Não lembro se as CPIs contra
a corrupção do presidente anterior chegaram a ser abertas. Mas sei que o
presidente eleito, o molusco, deve ter feito algum tipo de acordo com o
presidente anterior, e os casos foram todos arquivados. Talvez em nome da
governabilidade. O molusco fez um bom governo, priorizando os mais pobres, com
políticas públicas que ajudavam os mais necessitados. O país cresceu. E deu
também mais autonomia à polícia federal, que era engessada no antigo governo. Mas
infelizmente fez algumas coligações no mínimo estranhas. Quero acreditar que
fez isso também em nome da governabilidade. Mas o resultado não foi muito
bom. Os partidos coligados, corruptos,
também queriam o seu osso. Assim como as empresas que financiam campanhas
eleitorais (na verdade não é um financiamento, e sim, um empréstimo a juros
altíssimos). Veio sua sucessora, a primeira mulher presidente do país. Veio
também à tona muitos casos de corrupção. E ainda bem que vieram à tona! Agora
essa doença pode ser tratada e curada. Ou pelo menos controlada. Tomara. Isso
se o partido do vice-presidente deixar. Aquele partido que se diz aliado do
governo, mas sempre vota contra no congresso e no senado.
E para finalizar,
recentemente surgiu o caso do banco das quatro letras. Esse é bem grande! É
enorme! Pois envolve pessoas de vários países, inclusive desse que estou lhe
falando. Sonegação de impostos, lavagem
de dinheiro de corrupção, caixa dois, e até dinheiro de tráfico de drogas e
tráfico de armas. Tem muita gente desse país envolvida, e muita gente poderosa.
Mas para nossa surpresa, a grande mídia não está dando muita importância ao
caso. Ou será que têm culpa no cartório e estão tentando acobertar alguns
possíveis acusados? E também para nossa quase surpresa, políticos do partido do
passarinho bicudo, não assinaram o pedido de abertura da CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito). Por que será? Atualmente surgiram várias acusações
de corrupção contra o partido do passarinho bicudo em alguns Estados onde eles
são governo. Cartel, má gestão de dinheiro público, etc. Mas eles devem ser
protegidos por gente bem poderosa. Mexem os pauzinhos e todos os processos são
arquivados.
Juquinha pegou o
caderno de seu avô e foi ao computador, pesquisar sobre os assuntos. Fez seu
trabalho e não poupou ninguém. Deu nome aos bois. E deu detalhes dos esquemas
de corrupção. De acordo com sites que ele considerou confiáveis. Levou o
trabalho para a escola e o entregou ao professor.
No dia seguinte o professor
chamou Juquinha até sua mesa: Juquinha, quem te ajudou com esse trabalho?
Meu avô.
Seu avô é comunista?
Não, ele é humanista.
Sei. Vá até a
diretoria. O diretor quer falar com você.
Foi até a diretoria,
bateu na porta e entrou.
O diretor lhe entregou
uma carta e disse para entregá-la a seu avô.
Na carta o aluno
Juquinha era convidado a se retirar do colégio.
Motivo: Rebelde,
insubordinado e subversivo.
Leu a carta antes de
levá-la a seu avô e pensou:
Ué, mas não tinha
acabado a ditadura?
