Sr. José Carlos, pode entrar, por favor.
Às vezes ele se esquecia de seu nome de batismo e se
lembrava apenas nesses momentos onde ele, o nome, se fazia necessário em
ambiente formal ou burocrático. Era comum ser tratado por apelido desde a tenra
idade. O primeiro que se lembra é “Papagaio”, nome dado, além da ave, ao
brinquedo onde se encapa com papel fino, uma armação feita com varetas de
bambu, amarrando na extremidade inferior, uma rabiola de plástico, papel ou
pano. Mas não sei por que estou explicando isso! Pois acho que esse brinquedo
ainda existe, escasso, mas existe, resistindo ao vídeo game e toda tecnologia
no geral. Se bem que talvez você não tenha ligado o nome ao brinquedo num
primeiro momento, devido ao fato de que esse nome é dado ao objeto, no Rio de
Janeiro. Em São Paulo por exemplo, é “Pipa”. Pois é, então, como ia dizendo...
José Carlos vive no Rio, nasceu e foi criado num subúrbio da cidade maravilhosa.
Ele tinha talento! Confeccionava os papagaios (ou pipas) como ninguém. Começou
fazendo para o próprio uso e depois, descoberto o talento pelos amigos, fazia os deles também. Os que ele fazia, atados a uma linha, deslizavam no céu como
pássaros e ao mais leve toque na linha, realizavam acrobacias inimagináveis
para um ser aparentemente inanimado. Então, por isso o apelido de papagaio. Até
que um dia, um gênio fez a associação entre papagaio, Rio de Janeiro e o fato
de José Carlos ter a fama de preguiçoso, e começou a chama-lo de “Zé Carioca”.
Evolução do apelido que coincidiu com a transição da fase infantil para a
adolescente.
Feita a devida apresentação, voltemos ao consultório. José
Carlos, ou Papagaio, ou Zé Carioca entrou na sala onde seria feita mais uma
sessão de sua terapia de regressão. O terapeuta o cumprimentou com um sorriso no
rosto e o indicou o divã. José Carlos se deitou e sem perda de tempo,
apagaram-se as luzes e acenderam-se os incensos. Joca (como sua mãe o chamava),
já de olhos fechados, ouviu os três toques no pequeno sino e as orientações do
terapeuta. Num instante estava vagando por mundos desconhecidos, tão alto quanto
seus papagaios, ou ainda mais.
_ O que você vê? Questionou o terapeuta.
_ Uma mulher linda, vestida toda de branco e sorrindo, me
orienta a entrar e vivenciar um momento importante da minha infância. Eu
pergunto qual. Ela só diz que esse é um momento chave que pode esclarecer meu
repúdio pelo trabalho.
_ Mas você nunca me disse que não gostava de trabalhar!
_ Você nunca me perguntou! E pra falar a verdade, eu achava
que isso era normal. Achava que ninguém gostava disso!
_ Tudo bem, continue.
_ Já me vejo criança, uns dez anos de idade. Fui chamar um
amigo, vizinho meu para brincar e ele diz que precisa ir trabalhar. Esse meu
amigo já tem seus quinze anos e trabalha numa quitanda perto de nossas casas.
Fui com ele até o local. Os homens que ali trabalhavam nos cumprimentaram: E aí
Guina (meu amigo se chama Aguinaldo)! E aí Papagaio! Meu amigo começou a
trabalhar e eu o acompanhei, carregando caixas de frutas de legumes, descarregando
e recarregando o caminhão, limpando o chão e o tempo todo brincando com meus
colegas de trabalho. Eu estava feliz e num determinado momento pensei: Acho que
meus pais ficariam orgulhosos de me ver trabalhando assim tão novo! Tudo bem
que eu já vendo sorvete nas ruas pra ajudar a comprar meu material escolar, mas
isso aqui é outra coisa! É trabalho duro! É trabalho de homem! Quando o
expediente terminou, umas quatro da tarde, veio o pagamento: Uma dúzia de
bananas. Meu amigo recebia salário, mas eu só trabalhei naquele dia e pra mim
aquela dúzia de bananas era mais valiosa que ouro. Na verdade, digo isso como
adulto, porque na época não tinha a mínima ideia do valor do dinheiro e muito
menos do ouro. Fecharam a quitanda. Eu e meu amigo fomos embora com nosso cacho
de bananas. Começou a chover e um pouco antes de chegar em casa, nos escondemos
da chuva embaixo da cobertura de uma loja, também fechada. Ficamos um tempão
ali, conversando e comendo as bananas. Não consigo me lembrar nem ver sobre o
que conversamos. Só sei que eu estava feliz! Com a sensação de missão cumprida.
Parou de chover, nos despedimos e fomos pra casa. Chegando
lá, minha surpresa. Meu pai me recebeu na porta com cara de bravo e decepção:
_ Ta vendo o que você fez?! Apontando para minha mãe
chorando sentada numa cadeira da cozinha.
_ Mas o que eu fiz?
_ A Lurdinha (nossa vizinha) disse que você estava na rua
comendo banana, parecendo um mendigo! E ainda perguntou se era essa educação
que nós tínhamos dado a você!
Me fechei! Dá um desconto! Eu era criança, não sabia
argumentar! Não sabia me defender de gente malvada, hipócrita e fofoqueira!
Voltando ao consultório: O terapeuta achou que era
suficiente e tirou José Carlos do transe. Após algum tempo, com José Carlos já
aparentemente recuperado, o terapeuta perguntou:
_ Você acha que esse episódio moldou sua visão para com o
trabalho?
_ Acho que sim! Foi tudo muito nítido! Eu nunca quis
decepcionar meus pais! Isso até pode acontecer às vezes, a gente está sujeito a
isso. Não somos perfeitos. Mas quando esse tipo de coisa acontece enquanto
adultos, é diferente. Nós pensamos sobre o assunto e com consciência podemos
mudar a situação. Mas quando crianças, não temos a bagagem necessária para
transformar o ruim no bom. Daí vem o trauma; Pelo que já li sobre o assunto,
até os sete anos ou um pouco mais, estamos vulneráveis a todos os tipos de
situações, sejam boas ou ruins.
No dia seguinte, José Carlos resolveu regressar à infância e
fez um papagaio. Foi até a praia da Urca, assistiu a um show de rock gratuito e
foi empinar seu papagaio. Levantou, descarregou, empinou, desbicou, enfim,
dançou no céu do Rio de Janeiro. Céu limpo e azul, mulheres lindas tomando banho de sol, vendedores ambulantes
e vagabundos. Descarregou seu papagaio até o fim da linha na lata. Chegou
até o Cristo Redentor. Desbicou mais uma vez e bateu o bico aos pés do Cristo.
A linha arrebentou.
Se ajoelhou e rezou: Senhor, se você quiser, nesse momento,
posso me libertar de todos os traumas. Todas as terapias que já fiz, foram
degraus para chegar até Ti. Diga uma só Palavra e eu estarei Livre.
Amém.
Chupa Disney! Chupa Trump! Chupa USA!
Putz, estraguei tudo!