quinta-feira, 30 de maio de 2019

Mais uma sessão


Sr. José Carlos, pode entrar, por favor.
Às vezes ele se esquecia de seu nome de batismo e se lembrava apenas nesses momentos onde ele, o nome, se fazia necessário em ambiente formal ou burocrático. Era comum ser tratado por apelido desde a tenra idade. O primeiro que se lembra é “Papagaio”, nome dado, além da ave, ao brinquedo onde se encapa com papel fino, uma armação feita com varetas de bambu, amarrando na extremidade inferior, uma rabiola de plástico, papel ou pano. Mas não sei por que estou explicando isso! Pois acho que esse brinquedo ainda existe, escasso, mas existe, resistindo ao vídeo game e toda tecnologia no geral. Se bem que talvez você não tenha ligado o nome ao brinquedo num primeiro momento, devido ao fato de que esse nome é dado ao objeto, no Rio de Janeiro. Em São Paulo por exemplo, é “Pipa”. Pois é, então, como ia dizendo... José Carlos vive no Rio, nasceu e foi criado num subúrbio da cidade maravilhosa. Ele tinha talento! Confeccionava os papagaios (ou pipas) como ninguém. Começou fazendo para o próprio uso e depois, descoberto o talento pelos amigos, fazia os deles também. Os que ele fazia, atados a uma linha, deslizavam no céu como pássaros e ao mais leve toque na linha, realizavam acrobacias inimagináveis para um ser aparentemente inanimado. Então, por isso o apelido de papagaio. Até que um dia, um gênio fez a associação entre papagaio, Rio de Janeiro e o fato de José Carlos ter a fama de preguiçoso, e começou a chama-lo de “Zé Carioca”. Evolução do apelido que coincidiu com a transição da fase infantil para a adolescente.
Feita a devida apresentação, voltemos ao consultório. José Carlos, ou Papagaio, ou Zé Carioca entrou na sala onde seria feita mais uma sessão de sua terapia de regressão. O terapeuta o cumprimentou com um sorriso no rosto e o indicou o divã. José Carlos se deitou e sem perda de tempo, apagaram-se as luzes e acenderam-se os incensos. Joca (como sua mãe o chamava), já de olhos fechados, ouviu os três toques no pequeno sino e as orientações do terapeuta. Num instante estava vagando por mundos desconhecidos, tão alto quanto seus papagaios, ou ainda mais.
_ O que você vê? Questionou o terapeuta.
_ Uma mulher linda, vestida toda de branco e sorrindo, me orienta a entrar e vivenciar um momento importante da minha infância. Eu pergunto qual. Ela só diz que esse é um momento chave que pode esclarecer meu repúdio pelo trabalho.
_ Mas você nunca me disse que não gostava de trabalhar!
_ Você nunca me perguntou! E pra falar a verdade, eu achava que isso era normal. Achava que ninguém gostava disso!
_ Tudo bem, continue.
_ Já me vejo criança, uns dez anos de idade. Fui chamar um amigo, vizinho meu para brincar e ele diz que precisa ir trabalhar. Esse meu amigo já tem seus quinze anos e trabalha numa quitanda perto de nossas casas. Fui com ele até o local. Os homens que ali trabalhavam nos cumprimentaram: E aí Guina (meu amigo se chama Aguinaldo)! E aí Papagaio! Meu amigo começou a trabalhar e eu o acompanhei, carregando caixas de frutas de legumes, descarregando e recarregando o caminhão, limpando o chão e o tempo todo brincando com meus colegas de trabalho. Eu estava feliz e num determinado momento pensei: Acho que meus pais ficariam orgulhosos de me ver trabalhando assim tão novo! Tudo bem que eu já vendo sorvete nas ruas pra ajudar a comprar meu material escolar, mas isso aqui é outra coisa! É trabalho duro! É trabalho de homem! Quando o expediente terminou, umas quatro da tarde, veio o pagamento: Uma dúzia de bananas. Meu amigo recebia salário, mas eu só trabalhei naquele dia e pra mim aquela dúzia de bananas era mais valiosa que ouro. Na verdade, digo isso como adulto, porque na época não tinha a mínima ideia do valor do dinheiro e muito menos do ouro. Fecharam a quitanda. Eu e meu amigo fomos embora com nosso cacho de bananas. Começou a chover e um pouco antes de chegar em casa, nos escondemos da chuva embaixo da cobertura de uma loja, também fechada. Ficamos um tempão ali, conversando e comendo as bananas. Não consigo me lembrar nem ver sobre o que conversamos. Só sei que eu estava feliz! Com a sensação de missão cumprida.
Parou de chover, nos despedimos e fomos pra casa. Chegando lá, minha surpresa. Meu pai me recebeu na porta com cara de bravo e decepção:
_ Ta vendo o que você fez?! Apontando para minha mãe chorando sentada numa cadeira da cozinha.
_ Mas o que eu fiz?
_ A Lurdinha (nossa vizinha) disse que você estava na rua comendo banana, parecendo um mendigo! E ainda perguntou se era essa educação que nós tínhamos dado a você!
Me fechei! Dá um desconto! Eu era criança, não sabia argumentar! Não sabia me defender de gente malvada, hipócrita e fofoqueira!
Voltando ao consultório: O terapeuta achou que era suficiente e tirou José Carlos do transe. Após algum tempo, com José Carlos já aparentemente recuperado, o terapeuta perguntou:
_ Você acha que esse episódio moldou sua visão para com o trabalho?
_ Acho que sim! Foi tudo muito nítido! Eu nunca quis decepcionar meus pais! Isso até pode acontecer às vezes, a gente está sujeito a isso. Não somos perfeitos. Mas quando esse tipo de coisa acontece enquanto adultos, é diferente. Nós pensamos sobre o assunto e com consciência podemos mudar a situação. Mas quando crianças, não temos a bagagem necessária para transformar o ruim no bom. Daí vem o trauma; Pelo que já li sobre o assunto, até os sete anos ou um pouco mais, estamos vulneráveis a todos os tipos de situações, sejam boas ou ruins.
No dia seguinte, José Carlos resolveu regressar à infância e fez um papagaio. Foi até a praia da Urca, assistiu a um show de rock gratuito e foi empinar seu papagaio. Levantou, descarregou, empinou, desbicou, enfim, dançou no céu do Rio de Janeiro. Céu limpo e azul, mulheres lindas tomando banho de sol, vendedores ambulantes e vagabundos. Descarregou seu papagaio até o fim da linha na lata. Chegou até o Cristo Redentor. Desbicou mais uma vez e bateu o bico aos pés do Cristo. A linha arrebentou.
Se ajoelhou e rezou: Senhor, se você quiser, nesse momento, posso me libertar de todos os traumas. Todas as terapias que já fiz, foram degraus para chegar até Ti. Diga uma só Palavra e eu estarei Livre.
Amém.
Chupa Disney! Chupa Trump! Chupa USA!
Putz, estraguei tudo!

sábado, 25 de maio de 2019

É nisso que dá ficar sem internet no sábado


Minha superstição me diz: Escreva algo, senão a conexão não volta. Desde ontem à noite a conexão com a internet caiu e ainda não voltou! Já liguei lá várias vezes e nada. Porém, eu não estava a fins de escrever hoje! Afinal é sábado! E quando eu for (se for) um escritor profissional, acho que jamais trabalharei finais de semana! É pecado, de acordo com minha religião. Mas tudo bem, o DSL do modem ainda está apagado. Pelo jeito vou ter que escrever mesmo. Se bem que dizem que todo escritor que está começando, tem que se foder mesmo! Tem que ralar pra caralho até conseguir ficar de boas nos fins de semana, ou quando assim lhe... me fugiu a palavra. Lembra que estou sem internet?! Nem dá pra pesquisar no Google. Então já me desculpo antecipadamente pelos erros! (e pelos palavrões) Se bem que eu posso deixar pra postar isso depois, revisado, quando a Net voltar. Tanto faz! Mas continuando, já que não tem outro jeito... Essa porra ainda não voltou! Quer saber?! Vou lá fora fumar um cigarro! Quem sabe quando eu voltar a net já voltou?! Seria lindo! Mas parece o capeta essa poha! Justo no sábado?! A gente trabalha a semana inteira e quando chega fim de semana não tem o direito de falar merda nas redes sociais? Quem aguenta isso?! Greve geral!  Fora Bolsonaro! Eu livre já! ♫ Você me ligou naquela tarde vazia. Na mente fantasiaaa ♫ Ta tocando na rádio. A cara do meu dia! Tarde vazia! Mentira! Na verdade eu to curtindo porque minha mente ta livre. Pelo menos parece. Peraí porque ta acontecendo algumas coisas estranhas aqui. Sem novidade! Vou tentar deixar rolar e tentar entender depois, como sempre acontece! Na hora que ta acontecendo não entendo poha nenhuma! Caramba! A pessoa do rádio ta me zoando! Pode zoar, eu mereço! Pelo jeito eu sou um aqui encarnado, e outro no plano espiritual. Sou gente boa aqui, pelo menos me esforço ao máximo pra ser. Mas no plano espiritual sou pretensioso e folgado! Talvez seja esse o motivo pela qual eu ainda não consegui sair da escuridão. Se for isso, paciência! Eu simplesmente não sei o que fazer! Mas repetindo: Justo no sábado?! E se eu trabalhasse? Será que a poha do estagiário do telemarketing da operadora, sabe que eu não trabalho?! Carai mano, deixa pra sacanear na segunda-feira! Ta de boa! Mas lembra que eu ia fumar lá fora?! To indo! Não fumo dentro de casa porque fica um cheiro ruim da poha! Já volto! O cara entrou ao vivo na rádio pra falar não sei do que e o áudio dele ficou picotando! E tudo indica que fui eu que assim o fiz! Só pode ser masoquista essa poha! Por quê? Porque sempre as pessoas respondem! Me zoando ainda mais! Afinal eles têm a visão e eu não! Ah! Já sei! Faço isso de raiva por ainda não ter a visão! Depois de dez mil anos, ainda to tateando no escuro! Mas eu aqui consciente, sei que com raiva não se consegue nada, ou quase nada! Ou nada nesse caso! Não sei se tem alguma coisa a ver! Mas só sei que eu escrevi e a conexão voltou! Graças a Deus! Porque ficar sem internet bêbado no sábado, é motivo pra suicídio! Brincadeira! A Vida é Bela!

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Eu gostaria que esse fosse meu último texto na escuridão


Eu gostaria que esse fosse meu último texto escrito na escuridão! Mas não sei, aliás, nunca sei. É raro um dia em que eu não pense: Acho que vai acontecer hoje, durante o sono e quando eu acordar, serei um ser Iluminado. E até esse momento, nada aconteceu nesse sentido. Mas sei lá, parece que hoje tem alguma coisa diferente. Minha intuição está pulsando forte em todo o meu ser, dizendo que de hoje não passa. Acho que para a maioria das pessoas, essa tal Iluminação acontece bruscamente, de uma hora para outra. E acho também que esse não será (se for) o meu caso. No meu caso parece que tudo é gradual e suave. Talvez (quero muito sair da escuridão, e um dos motivos, é que assim paro de escrever tanto “talvez”) devido ao que eu disse a um amigo uma vez, quando ele argumentou que é muito difícil, talvez impossível, conseguir se dar bem com seu pai, quando ele pensa tão diferente de você. Só sei que respondi com minha mania de ser otimista: Acho que é sim perfeitamente possível, porém, isso é um processo. É gradual. Na Vida real não é como nos filmes, onde em uma ou duas horas tudo se resolve, até o mais cabeludo dos problemas. Nós tínhamos esse mesmo problema com nossos respectivos pais. Na verdade, eu sempre amei meu pai e minha mãe, mas com meu pai rolou um atrito. E tudo indica que isso foi ao fato de ele ter me dado uma surra quando eu tinha treze anos de idade. Se a surra foi merecida ou não, só os Deuses sabem. Só sei que isso me deixou traumatizado. Hoje tenho 47 anos de idade, e me recordo como se fosse hoje, que naquele momento da surra, algo se rompeu dentro de mim, algo se quebrou, não, algo se despedaçou, algo se desintegrou. E o tempo me diz que o que se rompeu, foi meu amor por meu pai. Inconscientemente, eu quis recuperar esse Amor! E a trajetória foi ou está sendo dura, mas espero que tenha sucesso. Mas você pode estar se perguntando: Por que uma simples surra, arrebentou (não só quebrou) seu espírito? Afinal, no passado, todos os pais davam surras nos seus filhos! Respondo: Por que naquele momento, meu pai era meu herói! Naquele momento, pra mim ele era o cara mais incrível do mundo! Acho que me senti traído, decepcionado ou sei lá o quê! Acho, acho, acho e só acho, que estamos passando por um momento de transição nesse assunto. No passado era normal bater nos filhos, e os filhos não cresciam traumatizados, eu acho, afinal o trauma pode se transformar, além de revolta, como no meu caso, podem se transformar em relacionamentos ruins, com a esposa, com o marido, com a sociedade, etc. Mas tem muita gente ainda, hoje em dia, 22 de Maio de 2019, que acha que a melhor forma de educar um filho é dando surras. Talvez já tenha sido assim um dia, mas hoje, as coisas são diferentes, de acordo com minha vivência. A criança e o adolescente, sempre vão ser sapecas, traquinas e difícil de lidar. Pra mim, os pais que não sabem lidar com isso, são burros. E os pais que sabem lidar com esse tipo de situação, são inteligentes. Talvez uma preparação seja necessária para ser pai e mãe. Só não sei ainda se essa responsabilidade deve ser do Estado ou das religiões. Mas pensando bem, acho que o Estado vai demorar um pouco mais pra sumir do mapa do que as religiões. Então, no momento, que seja uma responsabilidade do Estado. Ou das ONGs. Que tal se a gente crescer juntos?!
Todas as religiões dizem que Deus é Tudo. Então Ele é o Bem, mas também é o Mal. Ele é o Dia, mas também é a Noite. Ele é a Humildade, mas também é a Arrogância, etc, etc, etc. Ele É  todos os Opostos que na verdade, são Complementares. Porque tanta violência, tanta doença, tanta corrupção, tanta maldade no Mundo?! Porque Tudo isso é Deus! Mas a gente pode escolher viver em Harmonia, a gente pode escolher o Bem, A Virtude e o Amor, sem abrir mão da Liberdade! Se o mundo acabar hoje, pra Deus, tanto faz! Ele continua existindo! Quem sabe, no futuro, uma nova humanidade possa nascer. Não adianta ficar frequentando igrejas e continuar destruindo a Natureza e destruindo o meio ambiente!
Mais um talvez: Talvez toda essa reflexão seja fruto da minha ignorância devido à escuridão na qual ainda vivo! Se for isso, esquece tudo.