sábado, 31 de dezembro de 2016

Feliz 2017

Enquanto você está aí bêbado e se divertindo, eu to aqui pensando e escrevendo. Mas pasme! Também to bêbado! Será que só eu penso nessas coisas?
2016 foi um ano bem estranho! Mas não posso reclamar! Ou posso? Não sei, só sei que às vezes essa vontade de reclamar é mais forte que eu, e tenho os meus motivos que não vêm ao caso agora. Aliás, há tempos que não tenho um ano normal. Mas dizem que cada um cria sua Realidade. Eu criei a minha, e apesar da abundância de momentos de sofrimento intenso, não me arrependo de nada, pois os bons momentos superam toda dor. Na verdade, queria deixar aqui uma mensagem de Amor. Mas uma mensagem dita de uma forma que não deixe brecha para escárnios. Porque percebi que sempre que um homem tenta espalhar uma mensagem de Amor, logo é taxado de afeminado. Não que eu ache isso ruim! Como dizia o Osho, Jesus e Buda e tantos outros mestres, eram afeminados. Essa é uma característica da Sabedoria. O masculino ataca e conquista, e o feminino conquista através da sedução do Amor. Graças a Deus, tenho as duas coisas. Mas como eu ia dizendo, como deixar uma mensagem de Amor nesse mundo doido, sem sofrer escárnios e sem ser rotulado de hipócrita? É o que estou tentado fazer! A resposta ainda não veio e espero que venha até o final do texto. Mas enquanto essa resposta não vem, gostaria de agradecer às pessoas que fazem parte da minha vida; tanto as que estão presentes fisicamente, quanto aos amigos virtuais. E quando digo virtual, não estou falando apenas da internet, mas também aos amigos da televisão e do rádio. Agradeço inclusive aos inimigos! Vocês me deram a oportunidade de amadurecer com as brigas e atritos. Mas a vida é generosa comigo, e desconfio que seja com todos, mas nem todo mundo percebe isso. Até agora consegui suportar todas as críticas e ataques (que muitas vezes foram muito violentos). Mas sei lá, sou bastante intuitivo, e desconfio que se a vida quisesse me derrubar definitivamente, ela assim o faria, pois é muito mais poderosa que eu, um grão de areia no oceano do Universo (ou será Multiverso?). Agradeço especialmente meus pais, como já disse em outras oportunidades; sem eles eu acho que não conseguiria chegar até aqui. E digo que acho, porque realmente não tenho certeza. O ser humano é extremamente adaptável. Talvez se eu não tivesse os meus pais, poderia conseguir a longevidade de outras formas. Enfim, agradeço a tudo e a todos! E dessa forma, agradeço a Deus, porque se Ele É Tudo, Ele é tudo isso que acontece em nossas vidas. Alguns vão estranhar essa minha veneração a Deus, mas devo explicar que isso se deve ao fato de que eu faço o máximo para viver espontaneamente. Cada momento é mágico! Se ontem eu estava revoltado, expresso essa minha revolta sem medo, porque sei que se hoje eu estiver bem e com vontade de ser crente, assim serei. O momento é tudo o que a gente tem. Mas não estou dizendo que devemos esquecer o passado e não pensar no futuro. Isso também faz parte da vida. Mas se a gente consegue estar atento ao momento, as coisas talvez não fiquem mais fáceis, mas com certeza a vida fica mais prazerosa. Não sei se o ser humano já nasceu pronto e consciente como dizem algumas religiões, ou se evoluiu a partir de uma única célula e com o tempo adquiriu consciência, chegando ao que somos hoje, como diz a ciência. Mas independente disso, acho que sempre houve a competição entre nós. Sempre houve ideias diferentes e o atrito e às vezes, as vias de fato: a briga. De acordo com a Bíblia, Caim matou Abel por inveja. Mas será que em algum momento, Abel não tirou uma onda com Caim porque era o preferido de Deus? O que quero dizer é que se agora ninguém é totalmente bom e ninguém é totalmente mau, “naquele tempo” não devia ser diferente. E se naquele tempo já existia esse negócio de preferido de Deus, será que hoje ainda não existe? Quem será o preferido de Deus hoje? O coxinha ou o pão com mortadela? Não sei, só sei que tudo isso é poeira. Pra terminar, peço desculpas aos que ofendi e agradeço a todos os vivos e a todos os mortos também por fazerem parte do meu caminho nessa vida. Mas penso demais, e não sei se isso é por causa do meu mapa astral, ou se é porque fiquei influenciado pelo mapa quando o li; Sol em libra e ascendente em gêmeos (pra quem se interessa no assunto). Ambos signos do Ar (pensamento).
E desejo a todos muito Amor! Ninguém pensa igual a ninguém. Para uns desejar Amor é piegas, e para outros, desejar muito dinheiro no bolso, é muito materialista. Mas tanto faz, não vou deixar de escrever por causa dos inevitáveis julgamentos. Amor, Saúde e Liberdade pra todos! E desejo também tudo isso de bom que você está pensando agora.

FELIZ 2017!!!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Zorba, O Buda


Existe uma antiga história...
Numa floresta perto de uma cidade viviam dois mendigos. Eram inimigos, naturalmente, como são todos os profissionais – dois médicos, dois professores, dois santos. Um ladrão era cego e o outro era aleijado, e eles eram muito competitivos; ficavam o dia inteiro competindo na cidade.
Mas uma noite a choça onde moravam pegou fogo, quando um grande incêndio assolou a floresta. O cego podia correr, mas não sabia para onde ir. Não podia ver em que lugares o fogo não se espalhara ainda. O aleijado podia ver onde ainda havia possibilidade de se escapar do fogo, mas não podia correr. O incêndio se espalhava rápido e o aleijado via que a sua morte estava próxima.
Eles se deram conta de que precisavam um do outro. O aleijado de repente chegou a uma constatação: “Esse homem, esse cego, pode correr e eu posso enxergar”. Eles deixaram de lado toda competição. Num momento tão crítico, quando ambos estavam diante da morte, tinham que esquecer qualquer tola inimizade. Eles fizeram uma grande síntese; concordaram que o cego carregaria o aleijado nos ombros e eles sairiam dali como se fossem uma só pessoa – o aleijado enxergava e o cego corria, desse jeito eles se salvariam. E como um salvou a vida do outro, eles ficaram amigos; pela primeira vez esqueceram o antagonismo que existia entre eles.
Zorba é cego – ele não enxerga, mas pode dançar, pode cantar, pode se alegrar. O Buda enxerga, mas só pode enxergar. Ele é puramente olhos, só lucidez e percepção – mas não pode dançar. Ele é aleijado, não pode cantar nem pode se alegrar.

Chegou a hora! O mundo está em chamas e a vida de todo mundo está em perigo. O encontro entre Zorba e Buda pode salvar toda a humanidade. O encontro entre eles é a única esperança. Buda pode contribuir com a consciência, com a lucidez, com os olhos que veem mais longe, que podem ver o que é quase invisível. Zorba pode oferecer todo o seu ser à visão de Buda – e a sua participação garantirá que isso não resulte apenas numa visão empedernida, mas num modo de vida que dança, se alegra, se extasia.
OSHO.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Toca Raul!


Dizem que o brasileiro não pode ver uma fila que já vai entrando. Seja fila de banco, fila do pão na padaria, fila do INSS, fila do cinema, fila para entrar em algum show (nessa levam até barracas para acampar dias antes do show), etc.
Mas essa fila de que vou falar é uma fila diferente. Acho que já foi uma fila tradicional algum dia, alguma época; mas hoje se não é rara, já não existe mesmo. É a fila do Realejo. Sei que muitos nem sabem do que se trata. O Realejo é um instrumento musical, se não me engano, parente da sanfona. Emite o som ao ser girada sua manivela. Podiam-se ver muitos desses nos antigos parques de diversões ou circos. O consulente chegava até o instrumento, que era manipulado por um senhor que recebia o dinheiro e girava a manivela, tocando a música. Enquanto um periquito tirava com o bico, um pedaço de papel de dentro de uma caixa/arquivo. E nesse pedaço de papel estaria escrito a sorte do consulente.
Bom, não falarei especificamente da fila, mas das pessoas que nela se encontram, não por serem viciadas em filas, mas porque precisavam de uma orientação e não sabiam mais onde procurar. São sete pessoas. O Realejo está em um parque de diversões, no interior do Brasil, em uma Sociedade Alternativa.

Faixa 1
João é o primeiro da fila. Paga ao senhor e diz as palavras mágicas “ Toca Raul! ”, para que o periquito faça seu trabalho. O senhor gira a manivela e o Realejo começa a tocar uma versão instrumental de “Metamorfose Ambulante”.
João é um jovem recém-casado, que assim como muitos, se casou muito cedo e sentia que havia atropelado fases da vida. Após o casamento começou a perceber algo estranho. Ouvia vozes dentro de sua cabeça, tinha a impressão de que as pessoas ouviam seus pensamentos e às vezes sentia presenças espirituais por perto. Não tem religião e não pretende ter. Tem até certa curiosidade a respeito do plano espiritual. Mas é pobre, precisa trabalhar muito para pagar as contas e acredita não ter tempo a perder com bobagens. Acha que isso é só uma fase e decidiu mergulhar ainda mais no trabalho. Porém há coisas de que não se pode escapar. Sente muito a pressão e como ganha muito pouco, tem dificuldades para pagar as contas. Só se matar de trabalhar não estava resolvendo nada. Então começou a beber aos fins de semana para tentar relaxar um pouco. Só conseguiu arranjar briga com sua esposa. Ela odiava que ele bebesse porque tinha más recordações de seu padrasto alcoólatra. Ele dizia que precisava daquilo pelo menos aos finais de semana, senão explodiria. Ela estava intransigente e como sabia da existência de Universos paralelos (não por ser sábia, mas porque os “vê” desde que nasceu), sabia também do trabalho espiritual que João deveria buscar para acabar com a ansiedade. Mas ela não podia falar nada a respeito e mesmo se pudesse falar sobre o assunto, não saberia como. Só sabia que sabia naturalmente que o homem completo é espírito e matéria.
João pegou o papel tirado pelo periquito e leu:
Música: Eu também vou reclamar
Dois problemas se misturam
A verdade do Universo
A prestação que vai vencer
Entro com a garrafa
De bebida enrustida
Porque minha mulher
Não pode ver
João decidiu pedir ajuda espiritual a uma curandeira da vila. Continuava trabalhando bastante e bebendo aos finais de semana (escondido da esposa), as duas coisas com moderação. Viva Raul!

Faixa 2
José é o segundo da fila.
José, ao contrário de João, era um homem resolvido e que se dava bem com todo mundo. Em casa, no bar ou em qualquer lugar que frequentava, era o centro das atenções. Sempre simpático com todos, sabia como fazer amizades e mantê-las. O que o levou àquela fila foi uma coisa que aconteceu há muito tempo atrás.
Ele estava no trabalho quando chegou um menino avisando que dois bandidos haviam invadido sua casa e faziam sua esposa e filhos de refém. Saiu desesperado do trabalho e chegou na sua casa a tempo de ver os policiais escoltando os bandidos que levavam junto sua esposa. Ficou uma semana angustiado com aquela situação, até que a polícia conseguiu localizar sua esposa sã e salva. Os bandidos conseguiram escapar.
José, apesar de aliviado com o retorno de sua esposa, estava revoltado. Não podia admitir que ninguém invadisse sua própria casa e fizesse aquilo com sua família. Foi então que com a ajuda de alguns amigos, conseguiu descobrir a identidade dos bandidos. Os buscou, os localizou e os matou. Porém, a raiva deu lugar à culpa. Não conseguia viver com aquelas mortes nas costas.
José disse as palavras mágicas ao periquito e a ave tirou o pedaço de papel, enquanto seu senhor girava a manivela do Realejo. Antes de pegar o pedaço de papel, José sentiu que pisou em alguma coisa e se abaixou para ver o que era. Era uma chave e nela estava gravado a palavra AMOR. José perguntou ao senhor do Realejo se a chave era dele, e o velho disse que não, que tinha certeza que aquela chave era dele, José. Agradeceu, guardou a chave no bolso e abriu o pedaço de papel com sua sorte.
Música: Que luz é essa?
É a chave que abre a porta
Lá do quarto dos segredos
Vem mostrar que nunca é tarde
Vem provar que é sempre cedo
E que pra todo pecado sempre existe um perdão
Não tem certo nem errado
Todo mundo tem razão
E que o ponto de vista
É que é o ponto da questão

Faixa 3
Maria é a terceira da fila. Como todo ser humano, Maria tem suas preocupações. Mas está ali apenas porque estava passeando pelo parque e achou bonita a música do Realejo. Enquanto esperava sua vez de tirar a sorte, avistou um fiel da igreja que frequentava e se lembrou de uma conversa que teve com o pastor da mesma igreja:
_ Pastor, espero que Deus me perdoe, mas não aguento mais sofrer! Como o senhor sabe, perdi entes queridos e descobri que eles eram o meu chão. Estou completamente perdida, e não sei mais o que fazer!
_ Maria, Deus sempre perdoa seus filhos. Mas você não pode se entregar para a tristeza. Seus entes queridos estão agora com Deus. Sentir dor é coisa do inimigo. Deus quer nos ver sempre felizes. Você acha que não tem mais nada na vida, nem amigos, nem amores, nem dinheiro, mas na verdade, você precisa permanecer alegre assim mesmo só pelo fato de estar viva.
_ Mas pastor, se Deus criou tudo, Ele também deve ter criado a dor. E ela deve ter algum motivo!
_ De jeito nenhum, minha filha, a dor vem do inferno, Deus é só alegria!
Maria ficou para assistir o culto e deixar todo seu mísero dinheiro para o dízimo.
Despertou com o senhor do Realejo pegando em seu ombro com um grande sorriso enquanto girava a manivela. Ela voltou a si e pegou o pedaço de papel com sua sorte.
Música: Sim
A dor é uma coisa real
Que a gente está aprendendo a abraçar
E não temer
A velha história do mal
Tão conhecida
Que já nem pode mais nos assustar
Maria guardou aquele pedaço de papel para o resto de sua vida e sempre que estava se sentido mal, lia, respirava fundo e adquiria a paciência necessária para atravessar momentos difíceis, sabendo que tudo passa; os maus e os bons momentos. Viva Raul!

Faixa 4
Lucas é o quarto da fila. Antes de entrar na fila do Realejo para tirar a sorte, Lucas estava dando uma volta pelo parque, tropeçou em um rapaz que estava na barraca da pescaria e pediu desculpas. O rapaz o mandou para aquele lugar, Lucas baixou a cabeça e continuou andando. Mais à frente, ele ouviu o que uma mulher estava dizendo ao seu filho que acabara de apanhar de um coleguinha:
_ Seu pamonha! Você precisa aprender a se defender! Que menino mole!
Lucas agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele e se sentiu muito mal com sua covardia.
Continuou andando, deu uma volta inteira no parque e quando chegou na mesma barraca da pescaria, tropeçou novamente no mesmo rapaz que estava jogando. Pediu desculpas novamente, o rapaz o mandou praquele lugar de novo. Lucas se lembrou do momento anterior e achando que se ficasse quieto seria chamado de pamonha, deu um soco no rapaz, que fugiu correndo e chorando. Lucas ficou orgulhoso de si mesmo e foi em direção à saída do parque, quando passou por ele um vendedor de cordel que gritava o seguinte:
_ Olha o Cordel! Quem vai querer?! Não seja apenas mais um ignorante! A Paz e o Amor devem reinar! Como dizia o Pai, “Se lhe baterem na face, dê a outra”! Lucas ainda agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele também, sentiu-se mal de novo, e pensou confuso como poderia saber qual seria o momento de ficar quieto e qual era o momento de reagir. Quando viu o Realejo e decidiu entrar na fila. Enquanto estava na fila, começou a sentir uma dor aguda no peito. Há algumas semanas vinha sentindo aquela dor estranha, mas não falava sobre o assunto com ninguém pois tinha pavor de hospitais e igrejas. Sentia a dor calado. E como costumava fazer nesses momentos, divagou: Será que as plantas sentem dor? Algo me diz que essa dor que sinto no peito é um processo de amadurecimento. Acho que sim! Que as plantas sentem dor. Quando ela começa a quebrar a casca da semente e buscar a luz do sol. Mas até alcançar seu tamanho maior e pleno, deve haver fases. Acho que ela não cresce o tempo todo. Devem haver momentos de prazer para contrastar com a dor. Esses momentos podem ser quando ela está sendo regada, e quando está recebendo o carinho de seu criador, ou de um pássaro, ou de uma borboleta, ou uma abelha. E após o pequeno momento de alívio, se inicia novamente a busca pela iluminação do sol e das estrelas. Enquanto divagava, levou um esbarrão de um homem e ficou em dúvida, se ficava quieto ou se brigava. Na dúvida, como chegou sua vez de pegar o papel da sorte no Realejo, ficou quieto e disse as palavras mágicas: “Toca Raul”!
Música: O segredo do Universo
Você está no mundo, só tem uma opção
O caminho é longo, homem
Ser feliz ou não
Queimando a consciência e a sequência que ela traz
Momentos diferentes que confundem a tua paz

Faixa 5
Sofia é a quinta da fila. Naquela tarde, antes de ir ao parque, Sofia foi ao psiquiatra:
_ Sofia, você precisa tomar esse remédio! Senão você não vai melhorar!
_ Mas doutor, eu odeio tomar remédios! Eu já tomo um e a depressão está controlada! Essas dores que sinto são esporádicas e não creio que seja necessário tomar esse remédio! Ele é muito forte! Eu pesquisei sobre ele! Não quero ficar andando por aí como uma morta-viva!
_ Tudo bem então Sofia, eu só quero que você tenha uma vida normal. Você precisa arrumar um emprego e namorar, essas coisas normais como eu disse.
_ Mas doutor, emprego está difícil!
_ Eu sei, mas você tem que pegar aquilo que aparece! Não dá pra fazer só o que a gente gosta!
_ Eu discordo doutor! Acho que é perfeitamente possível viver fazendo o que se gosta pra não precisar trabalhar. Como já dizia o querido Dalai Lama, eu acho. Só quero ser feliz doutor!
_ Tudo bem, é você quem escolhe! Depois não diga que eu não avisei!
Sofia saiu do consultório pensativa como sempre. Aquela não era a primeira vez que eles tinham aquele tipo de conversa. Na verdade, ela não entendia por que o psiquiatra sempre saía pela tangente quando ela puxava o assunto para temas mais profundos, como sentido da vida, por que morremos; por que existe a dor; por que todos são obrigados a ter um emprego de dez horar diárias enquanto poderiam aproveitar mais o tempo estudando, praticando alguma atividade física, namorando, enfim, vivendo plenamente.
Sofia disse as palavras mágicas e tirou sua sorte:
Música: É fim de mês
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é que você vive alegremente
Acomodado e conformado de pagar tudo calado
Ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer
Ele só quer, só pensa em adaptar
Na profissão seu dever é adaptar

Faixa 6
Jacinto é o sexto da fila. Jacinto estava com a família no parque. É um homem que se considera justo. Sempre faz de tudo para viver de acordo com os preceitos cristãos. Jacinto é um bom homem, honesto e trabalhador. Mas não foi sempre assim, quando jovem fez muita coisa que hoje considera muito errado. Apanhou muito de seu pai, mesmo depois de adulto. E só entrou na linha quando conheceu a mulher que viria a ser sua esposa. Jacinto ama muito sua família e faz de tudo para fazê-los felizes. Enquanto Jacinto esperava na fila do Realejo, sua esposa chegou trazendo seus dois filhos pelos braços. Eles haviam brigado e um deles estava com a camiseta rasgada. Jacinto perguntou o que havia acontecido e sua esposa contou que o mais velho havia batido no mais novo por causa de algodão doce. Jacinto não pensou duas vezes e deu uma surra no menino ali mesmo na frente de todo mundo. Ainda batia no menino quando chegou sua vez de dizer as palavras mágicas para tirar sua sorte. O velho senhor do Realejo olhando sério para Jacinto, disse enquanto dava a ele seu pedaço de papel:
_ Às vezes a resposta é imediata.
Música: Novo Aeon
Já não há mais culpado, nem inocente
Cada pessoa ou coisa é diferente
Já que é assim, baseado em que
Você pune quem não é você?

Faixa 7
Frederico é o sétimo da fila. Frederico tem uma vida no mínimo exótica. Passou dez anos nas montanhas do agreste nordestino, jejuando e contemplando a natureza. Ele é um espírito amante da liberdade, mas talvez por carma, veio a esse mundo preso; destinado a ter uma vida comum. Deveria crescer, casar, ter filhos, trabalhar e morrer como um espírito aprisionado nos grilhões de seu carma. Mas como amante da Liberdade, falhou em aceitar esse destino, mesmo inconscientemente. Com a ajuda de espíritos de Luz, iniciou sua busca por uma vida Livre e Plena. O caminho foi longo, tortuoso e cheio de dor. Até o dia em que decidiu ir para as montanhas. Foram dez anos de uma vida livre da prisão da sociedade. Mas após dez anos sem conseguir a sonhada Iluminação, desistiu de sua missão e então voltou para casa. Não encontrou amigos nem família. Procurou emprego e também não conseguiu nada. Já estava começando a questionar se a decisão de ir para as montanhas havia sido a melhor coisa a ser feita. Agora estava morando nas ruas, pois estranhos estavam em sua antiga casa.
Estava um dia andando pelas ruas quando um menino lhe deu um panfleto fazendo propaganda do parque de diversões que estava na cidade. Frederico foi ao parque, por que apesar de ter perdido tudo, inclusive a esperança, uma das coisas que aprendeu nas montanhas, foi acreditar nos sinais que a vida dá.
Chegou sua vez de tirar a sorte. O velho senhor do Realejo olhou para Frederico com os olhos brilhantes e sorrindo disse:
_ Como vai a sua banda?
_ Como disse? Questionou Frederico.
_ Sua banda de rock.
_ Senhor, eu adoro rock. Mas infelizmente não tenho nenhuma banda.
_ Ainda não. Disse o senhor. Quais são as palavras mágicas?
_ Toca Raul!
O periquito pegou um dos papéis e passou ao senhor que por sua vez, passou a Frederico que leu:
Música: Loteria da Babilônia
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo
Que você está certo
Você aprendeu tudo
Enquanto estava mudo
Agora é necessário
Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema da vida
E os macetes do xadrez!

Faixa bônus
Cinquenta anos após esse episódio no parque de diversões, a pequena cidade falhou no seu desejo de lutar contra todo tipo de progresso, e inaugurava sua primeira linha férrea. A linha atravessava toda a cidade. O trem percorreu todo o percurso completamente lotado, mas quando chegou na penúltima estação, quase todos desceram, ficando apenas sete passageiros velhinhos, que desceriam na última estação. Eram sete horas da noite e os sete passageiros eram os sete da fila do Realejo: João, José, Maria, Lucas, Sofia, Jacinto e Frederico. O trem fechou as portas e continuou sua viagem em direção à última estação. No meio do percurso Frederico pôde avistar as montanhas que um dia passara dez anos de sua vida procurando a liberdade, e sorriu. João e José estavam sentados lado a lado. Se conheceram em uma festa há alguns anos atrás e se tornaram grandes amigos. Lucas e Sofia também estavam sentados juntos. Se conheceram na escola, e veio nessa sequência: amizade, amor, casamento e filhos. Maria lia um livro, distraída e feliz por ter escolhido a profissão de terapeuta. E Jacinto como se estivesse liderando o grupo, estava de pé na frente do vagão apoiado em sua bengala, admirando a bela paisagem.
De repente o trem parou de fazer barulho e começou a decolar. Os sete passageiros se olharam, mas não se assustaram. Sabiam exatamente o que estava acontecendo. Olharam para o céu o viram uma luz muito forte que iluminava todo o interior do vagão. Se extasiaram quando viram Deus deslizando no céu entre brumas de mil megatons. E viram o mal, vindo de braços e abraços com o bem, num Romance Astral.

Toca Raul!

sábado, 15 de outubro de 2016

Professor


Estamos aqui direto da Academia Brasileira de letras, onde está sendo realizada a cerimônia de premiação do famoso escritor Pedro Tartaruga.
_ Olá Pedro. Primeiramente, parabéns pelo prêmio!
_ Obrigado! É um prazer estar aqui conversando com você.
_ O prazer é nosso! Mas começando, como você se sente sendo um dos escritores que mais vende livros no mundo?
_ Me sinto realizado! Mesmo porque, no princípio não era minha intenção ser um best-seller. As coisas aconteceram naturalmente. Escrevo porque gosto, é um ofício como qualquer outro. Infelizmente não muito reconhecido aqui no Brasil! E não estou sendo ingrato. Sei que sou reconhecido, mas há muitos bons escritores no Brasil que não o são. Mas o que esperar de um país onde a principal profissão não é reconhecida?!
_ Que profissão é essa?
_ A profissão que ensina todos os ofícios que existem! O professor.
_ ok, a profissão de professor é importante, mas a de escritor também é, como você começou a escrever?
_ Comecei a escrever no pré-primário, com a professora Roseli, onde comecei a juntar as letras pra formar algumas palavras. Mas na verdade, quem me ensinou os primeiros passos da escrita foi minha mãe. Então, meus primeiros professores foram meu pai e minha mãe. Pra tudo na vida, a gente precisa do professor. E não estou falando só dos profissionais, os que ganham a vida ensinando. Estou falando da própria vida, na verdade desde que nascemos, a gente está o tempo todo aprendendo alguma coisa, mesmo que seja por osmose. Na primeira série minha professora se chamava Satie, não sei se Nissei ou Sansei. Essa professora me ensinou a ter disciplina, entre outras coisas. E a outra professora que me marcou bastante foi a professora Márcia, da quarta série, porque ela me deu de presente um livro da Cecília Meireles com dedicatória. Sei lá, acho que ela pode ter visto em mim um potencial escritor no futuro. Seja como for, como eu disse, isso marcou bastante, e acho que acabou influenciando na minha escolha de uma carreira.
_ Mas você não acha que independente do professor, a pessoa não precisa ter talento pra se tornar um bom escritor?
_ Eu acho que para qualquer profissão, inclusive a de professor, a pessoa só precisa ter apenas um talento.
_ E que talento seria esse?
_ Acreditar em si próprio. Se você conseguir descobrir aquilo que você realmente gosta de fazer, e isso não é tão difícil de descobrir, se as coisas na sua vida aconteceram naturalmente. Mas é claro que se você teve uma infância e adolescência traumáticas, isso pode ser um pouco mais difícil. Depende da força do seu espírito. Força essa, que também pode ser conquistada durante a caminhada.
_ Obrigado pela entrevista e mais uma vez parabéns! Alguma mensagem final?

_ Sim, a mensagem é para todos os brasileiros. Valorizem os professores! E não só os técnicos de futebol, que também são professores e o esporte é fundamental para a formação do cidadão. E não só também o professor universitário, mas sim também o professor primário, o ginasial e o do ensino médio. Acho que a principal educação vem desses professores que formam crianças e adolescentes. Essas coisas ficam para o resto da vida. Obrigado.

sábado, 4 de junho de 2016

Esquisitice Espacial


Como todos sabem, o Universo é bem grande! Num canto escuro, depois do infinito, havia um planeta habitado por humanos que migraram da Terra há muito tempo atrás. Avisados por Noé que Deus ia acabar com tudo no Planeta Terra, viajaram pra lá antes do grande dilúvio. Como viajaram? Não sei. Mas me parece quase óbvio que tenha sido com naves espaciais, talvez com a ajuda de extraterrestres. O planeta não tinha nome porque seus habitantes se consideravam os únicos abençoados com vida em todo o Universo. Sim, eles saíram do planeta Terra há milênios, mas se esqueceram disso. Mas isso não importa, vou me ater ao que interessa nessa pequena história. Contaremos a história de uma grande fábrica de cerveja que ficava no Sul de um dos continentes daquele pequeno planeta. Pois que a fábrica de cerveja tinha um nome, para não ser confundida com as outras centenas de fábricas de cerveja do país. Se eles fabricavam outros tipos de “alimentos”, também não sei. Mas é bem provável que fabricassem também algum tipo de salgadinho pra acompanhar a cerveja, e talvez televisões para os distrair enquanto ingeriam o “Romeu e Julieta”. Razoável achar que eles se esqueceram que haviam saído do planeta Terra, de tanto encher a cuca de cerveja. O nome da fábrica em questão era Republiqueta de Bananas, afinal, a cerveja era feita da fermentação das bananas. Perfeitamente verossímil, mesmo porque aqui na Terra, há mais ou menos dez mil anos atrás, quem poderia imaginar que da matéria prima do pão pudesse ser feito uma bebida que deixa a gente alcoolizado, falando besteiras, chorando e rindo à toa, ou ficando mais corajosos e alguns brigando até com a própria sombra!? Se bem que nessa época acho que já existia o vinho. Sem problemas, o vinho não é feito de cereais, mas também pode-se dizer que a cerveja é um vinho de cereais. Mas isso são apenas digressões desnecessárias. Voltemos à história. Mas só um momento... Antes de voltar à história devo dizer que daqui onde nós estamos, podemos ver milhares de cidadãos em suas casas. E sim, neste planeta tem sim televisores e salgadinhos para acompanhar a cerveja. Porém, esses cidadãos são marginais, mas não bandidos como veremos mais à frente, e sim porque vivem à margem. Cada um assistindo seu programa preferido na tv. Podemos ver daqui um deles bem à vontade em sua poltrona velha, comendo o tal salgadinho e bebericando sua cerveja barata. No programa sensacionalista que para ele é a pura realidade, temos um repórter entrevistando marginais (que ainda não são os piores dessa história), dentro do presídio federal:
O que você fez e por quê?
Eu torturei e assassinei centenas de pessoas porque pensavam diferente de mim e fiz tudo em nome da moral e dos bons costumes.
O repórter se dirigiu a outro presidiário:
E você, o que fez e por quê?
Eu estuprei várias mulheres em nome da minha religião.
E você?
Eu roubei a merenda das crianças de várias escolas em nome da minha família, em nome da família tradicional e pelo direito de poder estudar datilografia.
E você?
Eu assaltei vários hospitais e matei muita gente indiretamente em nome de Deus.
Me desculpe, voltemos à história porque já está me dando ânsia.
Pois bem, essa fábrica de cerveja, a Republiqueta de Bananas, tinha uma presidenta que estava passando por momentos muito difíceis na administração da fábrica. Crise internacional, recessão, corrupção e perseguição política. Na fábrica também havia um vice-presidente e um encarregado do RH. Certa feita, em meio à já citada crise, esse encarregado do RH, foi acusado pela polícia de manter depósitos de cerveja clandestinos em outros países. Foi quando ele pediu socorro à presidenta para que ela o salvasse dessas acusações. Mas a presidenta não quis defendê-lo, achando que o mesmo deveria pagar pelos crimes.
Furioso, o encarregado do RH, resolveu se vingar. E com a ajuda do vice-presidente traidor, armaram uma enrascada contra a presidenta. Admitamos, esse encarregado do RH era bastante habilidoso. Conseguiu colocar a presidenta no banco dos réus, sem ter nenhuma acusação real de crime algum, ao contrário dele que era réu, mas graças à habilidade política, conseguia até aquele momento, além de estar livre, ainda comandar o processo de impeachment da presidenta.
Estava tudo mais ou menos encaminhado, e o encarregado do RH confiante na sua vitória, quando o deus dos extraterrestres entrou em ação. Ou foi apenas sorte mesmo. Esse pequeno planeta fabricante da melhor cerveja do Universo, foi invadido por extraterrestres do planeta Elite. A presidenta e todo o povo ficaram muito surpresos com a visita, pois como já disse, eles se achavam solitários no Universo. Então a presidenta os recebeu de braços abertos mas descobriu logo que suas intenções não eram amigáveis.
Olá forasteiros, estão vindo de onde e indo pra onde?
Queremos falar com seu líder. (Como eles sempre dizem).
Pode desembuchar, sou eu mesma.
Nosso planeta Elite foi acometido de uma grande peste e estamos aqui para invadir seu misero planetinha cervejeiro para vivermos enquanto não achamos nada melhor.
Mas que peste é essa que atingiu vosso planeta?
A peste se chama ignorância.
Ah tá! Mas por que não falastes antes? Nosso planeta cervejeiro também sofre de tal miséria. Mas para nossa alegria e agora para a sua também, nós conseguimos desenvolver uma vacina contra tal moléstia. E temos bastante aqui, pois muitos dos nossos habitantes preferem a peste.
Mas que boa notícia! E que vacina é essa?
Na verdade, é uma pílula que deve ser tomada diariamente. É uma pílula educadora. E se chama “Livros”.
Mais tarde, quando a presidenta doou milhões de “Livros” para os moradores do planeta Elite, foi descoberto que na verdade eram eles que estavam por trás do impeachment da presidenta e que o encarregado do RH e o vice-presidente traidor eram apenas patinhos amarelos (como eram chamados os vassalos naquele planeta). Agora todos felizes, os habitantes do planeta Elite após terem seu problema resolvido com os “Livros” doados, ajudaram a presidenta a tirar sua cervejaria da crise. E os verdadeiros corruptos, o encarregado do RH e o vice-presidente traidor, foram condenados e presos.
Eu sei, é uma história bem esquisita. Mas o mais esquisito foi no momento em que todos foram fazer um brinde com a melhor cerveja daquele planeta. Primeiro, os habitantes do planeta Elite se recusaram a brindar com cerveja. Tinham trazido sua própria champanha.

E depois surpreenderam a todos quando abaixaram suas calças e tomaram a champanha pelo cu e de canudinho.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

João Brandão adere ao Punk


João Brandão, estudioso de fenômenos sociais, modismos e frivolidades, dedica-se no momento à pesquisa do punk.
- Ainda não cheguei a nenhuma conclusão - disse-me ele. - Mas suspeito que o punk veio atender à necessidades do país nesta conjuntura. E acrescentou:
- Não me refiro, é claro, a modalidade do punk cultivado pelas classes alta e média da zona sul. Este é um punk de espírito e camisetas importados, jaqueta de couro valendo um punhado de dólares. É artigo de importação, que deve figurar na lista de produtos proibidos pelo delfim. Refiro-me ao outro, o de camiseta adquirida na rua Senhor dos Passos e rasgada. O moço não a rasgou para demonstrar maior identificação com o punk: ela está rasgada porque é velha e muito batida. Em suma, o punk pobre.
- Que diferença faz, se esta é uma característica exterior? - perguntei-lhe. - Faz muita diferença, porque o punk dos pobres, suburbano e sofrido, revela no seu despojamento, que para ser punk é necessário enfrentar uma barreira e abrir mão de toda a sociedade de consumo. Ao passo que o leblon é consumista, no esquema clássico.
- O João, e todos dois não estão inseridos nessa tal sociedade burguesa de consumo, que se adverte com seus palhaços, contestadores ou oficialistas?
- Não importa que a sociedade como estamento seria dos dois grupos e os tolere igualmente, enquanto a indústria fabrica objetos sofisticados para o uso do punk de salão. Importa é a atitude deles diante da vida. Um finge contestar, outro contesta mesmo.
- Contesta em verso, em som, em gesticulação, em aparência.
- Mas contesta com convicção, né? Porque os punks malditos sabem que, passada a moda, eles terão de inventar outra forma de lazer que seja protesto, ou outra forma de protesto que seja lazer, ao passo que os ricos não estão ligando para isso, o futuro deles está garantido, na medida em que pode garantir alguma coisa no mercado de vida. Então eu simpatizo com o punk despojado, mau poeta e mau cantor, mas empolgado pela missão que se atribui, de destruir a ordem conservadora por meio da música, do grito, do gesto e do anarquismo primário.
- Eles são inocentes, talvez.
- E daí? A inocência ainda não chegou a ser crime, embora não esteja muito longe disso. Os punks trazem uma receita de aparência ingênua, mas que tem sentido. Se tudo está errado por aí - e todos nós estamos mais ou menos convencidos disso - uma postura punk, descrente dos métodos e processos consagrados para nos salvar do abismo, tem razão de ser. Os garotos dizem as coisas com franqueza selvagem. A arte deles não é mozartiana ou sequer seresteira de diamantina, mas tem função, explica-se pela circunstância.
- Desculpe: são todos uns alienados.
- É possivel, mas os alienados do lado de cá, do meu, do seu lado, curtem uma alienação maior ainda, porque reconhecem o erro e nele perseveram, como se não o reconhecessem. O punk pode não ser novidade, e parece que depois do antigo testamento não apareceu nada de novo sob o sol. Mas ele dá um recado. Não é à toa que o punk de verdade tem seus arraiais em São Paulo, onde outro dia aconteceu aquilo que você sabe. A maioria dos rapazes nem mesmo está desempregada, porque ainda não conseguiu emprego. Vestem-se de preto porque a situação deles está preta, a roupa é rasgada porque não há outra. Os versos são detestáveis, porque a vida ficou detestável para o maior número. O som é infernal, porque o inferno está ai. Os punks não pretendem ser simpáticos, eles querem mesmo é gozar da antipatia geral. Estão divididos, eu sei, e não só entre ricos e pobres. Dividem-se entre pobres e pobres, cada grupo achando que o outro grupo está errado, mas na própria variedade de erros está a marca geral deles, um sinal de inconformismo até consigo mesmos. Não há praticamente duas pessoas no país, neste momento, que tenham opiniões concordantes sobre o que é preciso fazer para consertar o torto social. Todos acham que é urgente aquele milagre que não seja milagre falso, mas ninguém conhece a fórmula ou, se conhece, não conta. O punk é mais sério do que ousamos imaginar. Até seu nome impressiona. Que quer dizer punk? "Madeira podre, isca, mecha, fedelho", segundo os dicionários. Não quer dizer nada de unívoco. Pra mim, punk, londrino, quer dizer pum, em português coloquial. E é isso mesmo: um gás importuno, estrondoso, no salão de festa, na rua, no gabinete da autoridade. É um som altamente contestatório das conveniências, preconceitos e idéias congeladas.
- João, estou te estranhando!
- Eu também estou me estranhando. E estou gostando de me estranhar. Mas sou apenas um observador, desculpe. Como disse, não conclui nada, por enquanto. O que disse são palpites. Talvez eu tenha de descobrir uma velha camiseta rasgada, pregar nela uma estampa de caveira ou de enforcado, e sair por aí, passando para trás roqueiros e newaweiros, e cantando a anarquia como forma de pagamento da dívida externa. Quem sabe? O bom observador tem de infiltrar-se no meio observado e adotar seus códigos.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deixa eu tocar sua alma


Ele começou pela ficha de Anamnese; Entre outras coisas, perguntou o nome de sua cliente, idade, data de nascimento, signo, cor preferida, calor ou frio, dia ou noite, etc.
Como você está se sentindo hoje?
Olha, estou bem cansada! O dia foi corrido, muito trabalho! E eu não estou conseguindo dar conta de tudo!
Ok. Mas, e fisicamente? O que você sente e em que parte do corpo?
Ah, no corpo acho que está tudo bem. Só tive uma inflamação no olho esquerdo!
Então não está tudo bem!
Mas isso foi no mês passado!
Não tem problema! Assim mesmo me ajuda a saber quais pontos trabalhar.
Ok então. Ultimamente ando bem ansiosa, não estou dormindo direito e acho que estou até um pouco deprimida.
Ele não quis realizar o diagnóstico pela “leitura” dos pulsos, pois ainda não dominava a técnica.
Mas não pôde deixar de notar que ela era bem bonita e atraente. Tanto de rosto quanto de corpo. Cabelos castanho claro, compridos, pele clara, olhos negros, uma boca carnuda e sensual e o melhor de tudo, apesar do cansaço que ela havia comentado, ainda conseguia dar um sorriso desconcertante; Estatura média e magra, porém, com seios fartos e quadril muito bem desenvolvido; Ele percebeu que seus cabelos estavam molhados e imaginou que ela morasse perto do consultório e teve tempo de passar em casa depois do trabalho e tomar um banho.
Você mora aqui perto?
Não, eu moro na Zona Sul. Você deve estar perguntando porque meu cabelo está molhado.
Isso mesmo! Mas não quero ser invasivo!
De jeito nenhum! É que trabalho aqui perto. Lá tem um belo chuveiro quente. E você não está sendo invasivo! Afinal para o que a gente vai fazer daqui a pouco, é necessário um mínimo de intimidade para que o efeito seja melhor, não é verdade?
Ele enrubesceu e tentou disfarçar. Sem sucesso.
Calma, não precisa ficar com vergonha! É claro que estou falando da massagem!
Eu sei, eu sei... às vezes não consigo controlar minha mente poluída...
Sem problemas! Já posso tirar a roupa?
Sim, claro!
Posso tirar tudo?
E ele ficou desconsertado mais uma vez. Aquela era sua primeira cliente. Havia começado o curso de massoterapeuta há apenas um mês e aquele era o consultório de sua amiga acupunturista. Na verdade, estava mais nervoso que sua primeira cliente. Quase ligou para ela, desmarcando a consulta de tão apreensivo que estava. Será que já consigo aplicar a terapia de forma correta? Será que é justo com meus clientes? Mas que clientes?! Ela é a primeira! Mas e se ela não gostar? E se ela sair do consultório se sentindo pior do que entrou? E se ela morrer?! Não, não, isso não! Nunca ouvi dizer que alguém tenha morrido recebendo massagem. Enfim, estava bem inseguro. Mas respirou fundo e respondeu à pergunta de sua ousada “virgem” que lhe fora enviada pelos céus (ou infernos), para realizar seu rito de passagem.
Você é quem sabe... do jeito que você se sentir mais à vontade... quanto mais relaxada você estiver, melhor será o efeito da massagem.
Ok. Então vou tirar só a parte de cima. E tirou a camiseta, a calça e o sutiã, que seios lindos! E ficou só de calcinha. Ele pediu que ela se deitasse no colchonete estendido no carpete de lã. Ela se deitou de barriga pra baixo, os braços estendidos ao longo do corpo e a cabeça levemente virada para o lado.
Ele colocou uma música suave pra tocar no aparelho de som que ficava no único móvel da sala, além da maca que sua amiga usava e que tinha sido arrastada para o outro lado. Acendeu um incenso de sândalo, deixou ligada apenas uma das três fileiras de lâmpadas tubulares e tomou um pouco d’água de uma garrafa tirada de dentro do frigobar que se encaixava embaixo do aparelho de som na mesma estante.
Deixou a ficha de Anamnese ao seu lado e começou a massagem pelos pés.
Bom, ela está ansiosa. Vou fazer uma massagem relaxante. Mas não é só isso! Tenho que sedar o meridiano do coração que é do elemento fogo, sedando também o meridiano do fígado que é do elemento madeira, afinal a madeira alimenta o fogo.
E enquanto ia tentando se lembrar o que seda e o que tonifica qual meridiano e através de quais pontos isso deveria ser feito, ia aplicando o óleo nos pés da moça enquanto realizava uma reflexologia. Terminou os pés e foi para as pernas, besuntando ela toda e subindo aos poucos, suavemente e sempre tentando se lembrar da posição dos meridianos e seus respectivos pontos. Chegou nas nádegas e com os cotovelos alongava os nervos ciáticos. Nesse momento, ela sussurrou:
Nossa... que delícia...
Ele simplesmente adorou ouvir aquilo e não conseguiu se controlar... ficou excitado. Subiu mais um pouco e chegou nas costas dela, fazendo movimentos vagarosos, porém firmes em suas escápulas. Ele estava posicionado na altura da cintura dela, com um dos joelhos no chão e a outra perna do outro lado. Era uma visão panorâmica do paraíso. Ainda nas escápulas, pegou um dos braços dela e colocou-o para trás, penetrando com vigor no vão que se formou quase no centro das costas. Ela sussurrou mais uma vez:
Meus Deus... Isso é bom demais...
Nesse momento ele já não se lembrava dos meridianos e nem de seus respectivos pontos. A música, o incenso, a meia luz, o sussurro dela, tudo aquilo o hipnotizou. Então colocou o braço dela no lugar anterior ao lado do corpo e colocou no chão também seu outro joelho que estava levantado. Ela percebeu, gostou e fez um movimento, como se quisesse se ajeitar um pouco. E nesse movimento, encostou as nádegas em seu membro duro. Mas não se apressaram. Ele continuou massageando suas costas mais algum tempo e como se fosse combinado, a música chegou em seu clímax e ele de repente colocou as mãos para baixo e pegou nos seios dela. Ela deu um gemido prolongado enquanto sorria de êxtase.
Agora ele estava massageando seus seios e esfregando seu pau duro naquela bundinha linda. Ele tirou a camisa, se inclinou e se perdeu, inebriado com o cheiro de seus cabelos. E sem dizer nada, sem sussurrar, e sem gemer, abriu a braguilha da calça, tirou o pau pra fora, puxou a calcinha dela para o lado e penetrou inteiramente, de uma só vez. Ela gritou... de prazer... e ele delirou.
Depois de meia hora fazendo um sexo bem gostoso e se beijando muito, lá estavam eles sentados frente a frente no colchonete, conversando. Após “recobrar a consciência” ele pegou a mão dela e enquanto conversavam, ele massageava sua mão e sedava o ponto perto do pulso, chamado C7, o sétimo ponto do Meridiano do Coração. Ela perguntou:
Que ponto é esse?
Se chama “A porta de Deus”.
Nossa, que bonito! E qual é a porta de Deus?
Você sabe! Aristóteles o chamava de Quintessência, os Alquimistas de Éter, alguns chamam de quinto elemento, os orientais de Prana, A Energia Vital Universal que permeia o Cosmo. E finalizou:
Eu chamo de Amor.
No dia seguinte, ele estava assistindo mais uma aula de Shiatsu, quando seu professor disse para a turma aspirante a terapeuta:
Jamais tenham relações sexuais com seus clientes dentro do consultório. Além de ser antiético, também pode ser considerado crime! E ele pensou:
Putz! Agora que você me diz isso?! E eu que achava que o mais difícil seria decorar todos os Meridianos e seus pontos!

Continuou se encontrando com sua cliente, que agora era também sua namorada. Mas nunca mais transaram no consultório. Ele não sabia muito bem o que era ética, mas na dúvida, preferia não arriscar para evitar problemas desnecessários.

terça-feira, 1 de março de 2016

Fábula do papagaio bêbado andando de bicicleta


O Quasímodo torcia para o time dos gambás porque gostava do cheiro deles, pois se assemelhava ao seu próprio cheiro, causado pela falta de banhos. Um dia conheceu uma princesa que de tanto ser tratada como um sapo, acabou acreditando que era realmente um sapo. Mas havia um problema. O pai da princesa-que-achava-que-era-um-sapo, era torcedor fanático dos porcos, arquirrival dos gambás. Após muito insistir, o Quasímodo conseguiu conquistar o coração da princesa-que-achava-que-era-sapo. Mas ela impôs uma condição. Na verdade, essa condição seria imposta indiretamente pelo pai da moça. O pretendente teria que dizer ao pai da moça que ele era torcedor do time dos porcos. Ele aceitou, repetindo para si próprio que o amor era mais importante do que o futebol. E repetia como um mantra, pois sabia que seria difícil abandonar seu time do coração e justamente pelo arquirrival. Assim foi feito. Mas o velho pai era esperto, sabia que tinha algo de errado naquele cara e não gostou do pobre Quasímodo desde a primeira vez que o viu.
A princesa-que-se-achava-um-sapo tinha um primo papagaio que também era torcedor fanático do time dos porcos. Foram apresentados, o Quasímodo e o papagaio. Se deram até bem, mas isso foi só até o Quasímodo talvez por inveja pelo papagaio ter sorte com as papagaias e ser muito papagaiaengo (versão mulherengo do papagaio), começou a chamá-lo de periquita. Sim, o papagaio era muito sensível, mas ele realmente gostava das fêmeas. Mas é que o Quasímodo não aceitava isso, apesar de se achar liberal e moderninho, na verdade era um grande preconceituoso. Para ele o papagaio deveria ser machão à moda antiga, qualquer variação da espécie para ele, era fêmea. E o Quasímodo continuava chamando o papagaio de periquita e insinuando que ele deveria fazer a cirurgia de mudança de sexo. É claro que o papagaio não gostava desse bullying disfarçado de brincadeira. Um dia, após ter sua sexualidade questionada mais uma vez pelo Quasímodo, que o chamava de periquita e falso Don Juan, o papagaio, pra não fazer uma besteira, pegou seu carrão e saiu acelerado, sem rumo. Parou em frente ao boteco do pastor de cervídeos (que era pastor de cervídeos à noite na igreja do bairro e tocava o boteco de dia) e foi abordado pela gangue das sardinhas. Foi roubado, levaram seu carrão. Aquilo já era demais, resolveu chutar o balde. Tomou todas! Ali mesmo no boteco do pastor de cervídeos. Bebeu cerveja de arroz integral até ficar completamente bêbedo. Ao sair, pegou a bicicleta emprestada de seu amigo urubu que também estava ali no boteco comendo um espetinho de carniça. Foi ziguezagueando com a bicicleta pelas ruas da cidade, quase foi atropelado, mas estava determinado a tirar um peso dos ombros. Foi até a casa de sua prima princesa-que-se-achava-um-sapo. Chegando lá, o papagaio abriu o jogo e contou ao pobre pai que seu genro era na verdade um mentiroso e que era falso até o último fio de cabelo. É claro que o pai quis saber porquê. E o papagaio então disse que seu genro na verdade torcia para o time dos gambás, e não para o time dos porcos. E que ele havia descoberto aquilo um dia em que eles estavam jogando cartas enquanto ouviam um jogo de futebol pelo rádio, e saiu um gol do time dos gambás. O Quasímodo não se conteve e deu uma leve comemorada. Disfarçou, mas o papagaio percebeu e teve certeza da traição. O pai da princesa-que-se-achava-um-sapo ficou furioso. Sabia que tinha algo de estranho naquele Quasímodo, além da cara. E ele nunca achou certo o cara morar de favor na casa que ele tinha dado para a filha. Proibiu o namoro da filha com a criatura. O Quasímodo ficou muito triste, mas pelo menos parou de se preocupar com o cisco no olho do papagaio e foi cuidar do travessão que estava no seu próprio olho.

E foram animais para sempre.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Desculpas para não escrever todos os dias

Gostaria de poder escrever todos os dias! Para treinar e aprender. Mas tenho outras coisas pra fazer. Eu durmo entre oito e dez horas por dia, daí acordo, tomo um café preto, fumo um cigarro e logo depois já almoço. Então vou estudar inglês, coisa que gosto muito. Ultimamente são umas três horas de estudo por dia. Depois vou dar uma corrida ou caminhada, mas não antes de alongar os músculos. Na parte da noite gosto de ler livros em português, porque adoro e porque também ajuda a escrever bem. Falar a verdade, não sobra muito tempo pra escrever, mas vou dar uma otimizada nesse tempo, talvez dormindo menos, ou talvez evitando entrar no facebook e no twitter. Ontem disse que estava sem assunto e acabei falando sobre alguns assuntos. Na verdade, eu quis dizer que estava sem assunto para escrever todos os dias, como sugerem os escritores. Haja criatividade para escrever todos os dias! Mas estava eu cá pensando no assunto e acho que tive uma pequena resposta (as grandes respostas acho que chegam somente através de muito trabalho): Não preciso ter uma grande criatividade, é só narrar as coisas que acontecem, se no plano material não acontecem muitas coisas (esse é meu caso), é só narrar o que se passa na mente! Se a gente prestar atenção ao que acontece o tempo todo em nossa mente, talvez fiquemos loucos! E o antídoto talvez seja expor isso escrevendo. Talvez vocês estejam pensando: “Nossa, que vagabundo”, não os culpo. No momento, é o que sou. Mas já trabalhei bastante em minha vida! Nada do que eu fiz, foi o que gosto, mas já gostei do que fazia, muitas vezes, devido ao ambiente e às pessoas ao redor. Meu primeiro emprego foi em uma metalúrgica, treze anos de idade, só trabalhava e dormia. Porque ia pra escola morrendo de sono! Não assimilava quase nada. Levando isso em consideração, acho que me tornei um mal aluno, quando comecei a trabalhar, antes disso só tirava notas azuis. Mas resumindo o currículo, meu penúltimo emprego até agora foi em um hipermercado, e trabalhava à noite. Só trabalhava à noite, todos os dias da semana, inclusive feriados e dormia o dia inteiro, isso durou uns três anos. Mas chega, isso já está parecendo o BBB (Big Blog Brasil). Se eu quisesse escrever nessa época, como seria? Não dava de jeito nenhum! E se eu estivesse em um emprego desses hoje, também não estaria escrevendo nada disso agora. Devo dizer que estou em busca de minha vocação. Talvez se eu estivesse nessa busca desde que comecei a trabalhar, já tivesse encontrado. Mas essa busca começou tarde em minha vida e sem esquecer que também tem a resistência a sociedade e da família. Antigamente, na adolescência (papo de véio), eu tinha a necessidade de jogar futebol quase todos os dias, e modéstia à parte, eu era bom. Taí meus amigos que não me deixam mentir sozinho. Mas não sei se era minha vocação, porque eu era muito medroso. Sei disso porque joguei campo uma vez de lateral direito e não saía do lugar, tinha medo de me expor. Mas pensando bem, acho que se eu tivesse insistido nessa carreira, seria melhor que o Pelé (exagero). Mas melhor que o Neymar, tenho quase certeza. Talvez se eu tivesse a consciência da Verdade como um todo, teria conseguido. Mas pergunto: Já aconteceu de alguém que não tenha essa consciência, conseguir se destacar? E não questiono só no futebol, mas em qualquer área? Aceito respostas, apesar de achar que esse seja um assunto que não possa ser dito. Ah tá! Então a pessoa é frustrada quando sabe que tem certo talento e mesmo assim não consegue viver disso?! Se for isso, então sou um jogador de futebol frustrado! Mas sei que não estou sozinho! Já vi tanto craque jogando na várzea, nas quadras do bairro e até em terrenos baldios! Na verdade, nesse momento, eu gostaria de trabalhar de peão ou de auxiliar administrativo e ser feliz com isso. Mas infelizmente isso não é o que se passa na minha cabeça no momento. Talvez eu esteja vivendo o que viveu o personagem do livro “O alquimista” do já citado (sem querer) Paulo Coelho no post anterior. O cara que viaja o mundo inteiro buscando um tesouro e só encontra o tal tesouro quando volta para casa. O tesouro estava o tempo todo em sua casa e ele não percebia. Não sei, pode ser, mas ainda não sei se é isso, no meu caso. Como faço pra voltar pra casa? E se no meu caso o tesouro não estiver em casa? Será que isso é uma regra? Gostaria muito de saber! Só não posso suportar a pessoa me dizendo que eu tenho que me aceitar como eu sou. Como se ela soubesse o que sou. Como, se nem eu mesmo sei quem sou? Como ela que está fora pode saber mais do que eu que estou aqui “dentro”? Talvez ela não saiba nem quem ela é de verdade. Aliás, quem no mundo se aceita como realmente é? O assassino que não se aceita está errado? O corrupto que não se aceita está errado? O estuprador que não se aceita está errado? Ou será que tudo isso não é apenas distorções de uma mente doentia? Você que me diz que eu tenho que me aceitar como eu sou, olhe para o seu umbigo e tente transformar sua merda primeiro, pra depois dizer o que devo fazer da minha própria vida! Mas relaxa, isso não tem nada a ver com você que está lendo isso agora. Minha psiquiatra não me deu o diagnóstico de esquizofrenia, mas acho que é porque ela ainda tem a esperança de que eu me torne uma pessoa normal. Foi uma pessoa da televisão que me disse isso, essa parada de que eu tenho que me aceitar como sou. Não sei se você acredita nisso, mas pra mim, foi bem real! Eu realmente acredito que isso possa acontecer. Será mesmo que sou esquizofrênico? Ou será que isso faz parte da Verdade que ainda não posso ver? Mas por hoje chega, afinal já escrevi minha página de hoje.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sem assunto


Hoje o assunto é não ter assunto. Estava lendo em um livro que para ser um escritor, devemos pelo menos tentar escrever todos os dias. Não sei se serei um escritor. Mas acho que vou tentar. Já tentei tanta coisa. Já tentei ser músico, não deu certo. Não que eu seja um músico frustrado. Uma vez ouvi um cara dizer que não era um músico frustrado porque música era a única coisa que não o tinha frustrado nessa vida. Comigo também é assim, não me tornei um músico profissional, mas isso não tem a menor importância, porque eu ainda posso ouvir música e entender um pouco, como o fato de que Dó não é pena, mais sim um acorde. Então seguindo o mesmo raciocínio, não serei também um escritor frustrado, porque amo ler, entrar na cabeça do mundo e entender como algumas coisas funcionam. Sou humano e tenho o mesmo potencial de um Machado de Assis, ou um Dostoievsky, Cervantes, Proust, ou um Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Mas antes que você ache que estou sendo pretensioso, devo dizer que não estou me colocando no mesmo patamar desses gênios. Não como escritor, mas sim como ser humano. Assim como eu, eles também devem ter tido, sentido, experiências humanas. A não ser que eles eram alienígenas, fato que talvez explicasse tanta genialidade. Aposto com vocês que eles também tiveram experiências parecidas, afinal a vida e o mundo são os mesmos para todos, as possiblidades são infinitas dentro uma finitude determinada pela raça (humana). Eles devem ter sentido prazer, dor, amor, raiva, pena, compaixão, vaidade, arrogância, humildade, bondade, caridade, podridão, prepotência, maldade, perversidade, alegria, felicidade, tristeza, etc. Afinal, quando se está vivo de verdade, tudo isso é possível ser sentido, como já disse, as possibilidades são grandes. Mas aprendemos desde crianças que essas coisas devem ser reprimidas. Devemos ser bons, ponto. Mas acho que isso não é possível, infelizmente. Tudo faz parte de um mesmo pacote, se reprimimos a tristeza e a prepotência, reprimimos também a alegria e a humildade. Podemos no máximo, fingir que somos alegres e humildes. A verdadeira alegria e a verdadeira humildade, vêm com o tempo, com muito trabalho. Talvez fosse mais fácil, se fôssemos inteiros desde que nascemos. De acordo com aquela antiga metáfora, somos águias ensinadas a ser galinhas desde que nascemos. Acho que por isso existem tantas doenças, é nossa natureza tentando avisar de que há algo errado. É tentar evitar a erupção de um vulcão tapando o mesmo com uma laje, uma hora tudo explode. Veja bem, antes da chegada do “homem branco”, muitas doenças simplesmente não existiam entre os nativos, porque eles viviam mais de acordo com a própria natureza e viviam mais conectados com a natureza no geral. Mas isso é um texto sem assunto, não sei porque comecei a falar dessas coisas. Talvez seja verdade o que os escritores dizem, que para escrever, basta começar, o assunto acaba vindo. Mas do que eu estava falando antes desse assunto mesmo? Ah, sim, já tentei algumas coisas. Ser músico, agora escritor, já tentei também ser ator. Ok, acho que nada disso tem importância. Eu pelo menos, não dou a mínima importância para isso. Acho que a gente pode ser o que quiser. A gente é tudo, a gente é músico quando canta no banheiro, a gente é escritor quando escreve uma carta para um amigo ou para um amor, a gente é ator quando é “obrigado” a ir em alguma festa onde não temos a menor afinidade com as pessoas ali presentes, a gente é arquiteto e engenheiro quando fazemos um puxadinho no fundo ou na frente da casa. Ah, vocês entenderam, e às vezes fazemos essas coisas melhor do que muito profissional. Um diploma não garante um bom trabalho. Sim, o conhecimento é importante, tanto que acho que ele deveria ser para todos! Mas o talento acho que é de nascença. Mas sei lá, acho que o talento também tem níveis. Hemingway tinha muito talento, mas não dá pra dizer que Dan Brown também não o tenha. Dan Brown é autor de “O código Da Vinci”, não quis dar um exemplo brasileiro, tentando, treinando a diplomacia patriótica. Mas é isso, vou terminando por aqui porque já está dando uma página escrita e acho que estou mais pra Paulo Coelho, Ops! (versão melancólica!), do que pra Ernest Hemingway. (Olha eu sendo galinha! Culpa da sociedade! Mas hei de me libertar disso!). Abraço!