Dizem que o brasileiro não pode ver uma fila que já vai
entrando. Seja fila de banco, fila do pão na padaria, fila do INSS, fila do
cinema, fila para entrar em algum show (nessa levam até barracas para acampar
dias antes do show), etc.
Mas essa fila de que vou falar é uma fila diferente. Acho
que já foi uma fila tradicional algum dia, alguma época; mas hoje se não é
rara, já não existe mesmo. É a fila do Realejo. Sei que muitos nem sabem do que
se trata. O Realejo é um instrumento musical, se não me engano, parente da
sanfona. Emite o som ao ser girada sua manivela. Podiam-se ver muitos desses
nos antigos parques de diversões ou circos. O consulente chegava até o
instrumento, que era manipulado por um senhor que recebia o dinheiro e girava a
manivela, tocando a música. Enquanto um periquito tirava com o bico, um pedaço
de papel de dentro de uma caixa/arquivo. E nesse pedaço de papel estaria
escrito a sorte do consulente.
Bom, não falarei especificamente da fila, mas das pessoas
que nela se encontram, não por serem viciadas em filas, mas porque precisavam
de uma orientação e não sabiam mais onde procurar. São sete pessoas. O Realejo
está em um parque de diversões, no interior do Brasil, em uma Sociedade
Alternativa.
Faixa 1
João é o primeiro da fila. Paga ao senhor e diz as palavras
mágicas “ Toca Raul! ”, para que o periquito faça seu trabalho. O senhor gira a
manivela e o Realejo começa a tocar uma versão instrumental de “Metamorfose
Ambulante”.
João é um jovem recém-casado, que assim como muitos, se
casou muito cedo e sentia que havia atropelado fases da vida. Após o casamento
começou a perceber algo estranho. Ouvia vozes dentro de sua cabeça, tinha a
impressão de que as pessoas ouviam seus pensamentos e às vezes sentia presenças
espirituais por perto. Não tem religião e não pretende ter. Tem até certa
curiosidade a respeito do plano espiritual. Mas é pobre, precisa trabalhar
muito para pagar as contas e acredita não ter tempo a perder com bobagens. Acha
que isso é só uma fase e decidiu mergulhar ainda mais no trabalho. Porém há
coisas de que não se pode escapar. Sente muito a pressão e como ganha muito
pouco, tem dificuldades para pagar as contas. Só se matar de trabalhar não
estava resolvendo nada. Então começou a beber aos fins de semana para tentar
relaxar um pouco. Só conseguiu arranjar briga com sua esposa. Ela odiava que
ele bebesse porque tinha más recordações de seu padrasto alcoólatra. Ele dizia
que precisava daquilo pelo menos aos finais de semana, senão explodiria. Ela
estava intransigente e como sabia da existência de Universos paralelos (não por
ser sábia, mas porque os “vê” desde que nasceu), sabia também do trabalho
espiritual que João deveria buscar para acabar com a ansiedade. Mas ela não
podia falar nada a respeito e mesmo se pudesse falar sobre o assunto, não
saberia como. Só sabia que sabia naturalmente que o homem completo é espírito e
matéria.
João pegou o papel tirado pelo periquito e leu:
Música: Eu também vou reclamar
Dois problemas se
misturam
A verdade do Universo
A prestação que vai
vencer
Entro com a garrafa
De bebida enrustida
Porque minha mulher
Não pode ver
João decidiu pedir ajuda espiritual a uma curandeira da
vila. Continuava trabalhando bastante e bebendo aos finais de semana (escondido
da esposa), as duas coisas com moderação. Viva Raul!
Faixa 2
José é o segundo da fila.
José, ao contrário de João, era um homem resolvido e que se
dava bem com todo mundo. Em casa, no bar ou em qualquer lugar que frequentava,
era o centro das atenções. Sempre simpático com todos, sabia como fazer
amizades e mantê-las. O que o levou àquela fila foi uma coisa que aconteceu há
muito tempo atrás.
Ele estava no trabalho quando chegou um menino avisando que
dois bandidos haviam invadido sua casa e faziam sua esposa e filhos de refém.
Saiu desesperado do trabalho e chegou na sua casa a tempo de ver os policiais
escoltando os bandidos que levavam junto sua esposa. Ficou uma semana
angustiado com aquela situação, até que a polícia conseguiu localizar sua
esposa sã e salva. Os bandidos conseguiram escapar.
José, apesar de aliviado com o retorno de sua esposa, estava
revoltado. Não podia admitir que ninguém invadisse sua própria casa e fizesse
aquilo com sua família. Foi então que com a ajuda de alguns amigos, conseguiu
descobrir a identidade dos bandidos. Os buscou, os localizou e os matou. Porém,
a raiva deu lugar à culpa. Não conseguia viver com aquelas mortes nas costas.
José disse as palavras mágicas ao periquito e a ave tirou o
pedaço de papel, enquanto seu senhor girava a manivela do Realejo. Antes de
pegar o pedaço de papel, José sentiu que pisou em alguma coisa e se abaixou para
ver o que era. Era uma chave e nela estava gravado a palavra AMOR. José
perguntou ao senhor do Realejo se a chave era dele, e o velho disse que não,
que tinha certeza que aquela chave era dele, José. Agradeceu, guardou a chave
no bolso e abriu o pedaço de papel com sua sorte.
Música: Que luz é essa?
É a chave que abre a
porta
Lá do quarto dos
segredos
Vem mostrar que nunca
é tarde
Vem provar que é
sempre cedo
E que pra todo pecado
sempre existe um perdão
Não tem certo nem
errado
Todo mundo tem razão
E que o ponto de vista
É que é o ponto da
questão
Faixa 3
Maria é a terceira da fila. Como todo ser humano, Maria tem
suas preocupações. Mas está ali apenas porque estava passeando pelo parque e
achou bonita a música do Realejo. Enquanto esperava sua vez de tirar a sorte,
avistou um fiel da igreja que frequentava e se lembrou de uma conversa que teve
com o pastor da mesma igreja:
_ Pastor, espero que Deus me perdoe, mas não aguento mais
sofrer! Como o senhor sabe, perdi entes queridos e descobri que eles eram o meu
chão. Estou completamente perdida, e não sei mais o que fazer!
_ Maria, Deus sempre perdoa seus filhos. Mas você não pode
se entregar para a tristeza. Seus entes queridos estão agora com Deus. Sentir
dor é coisa do inimigo. Deus quer nos ver sempre felizes. Você acha que não tem
mais nada na vida, nem amigos, nem amores, nem dinheiro, mas na verdade, você
precisa permanecer alegre assim mesmo só pelo fato de estar viva.
_ Mas pastor, se Deus criou tudo, Ele também deve ter criado
a dor. E ela deve ter algum motivo!
_ De jeito nenhum, minha filha, a dor vem do inferno, Deus é
só alegria!
Maria ficou para assistir o culto e deixar todo seu mísero
dinheiro para o dízimo.
Despertou com o senhor do Realejo pegando em seu ombro com
um grande sorriso enquanto girava a manivela. Ela voltou a si e pegou o pedaço
de papel com sua sorte.
Música: Sim
A dor é uma coisa real
Que a gente está
aprendendo a abraçar
E não temer
A velha história do
mal
Tão conhecida
Que já nem pode mais
nos assustar
Maria guardou aquele pedaço de papel para o resto de sua
vida e sempre que estava se sentido mal, lia, respirava fundo e adquiria a
paciência necessária para atravessar momentos difíceis, sabendo que tudo passa;
os maus e os bons momentos. Viva Raul!
Faixa 4
Lucas é o quarto da fila. Antes de entrar na fila do Realejo
para tirar a sorte, Lucas estava dando uma volta pelo parque, tropeçou em um
rapaz que estava na barraca da pescaria e pediu desculpas. O rapaz o mandou
para aquele lugar, Lucas baixou a cabeça e continuou andando. Mais à frente,
ele ouviu o que uma mulher estava dizendo ao seu filho que acabara de apanhar
de um coleguinha:
_ Seu pamonha! Você precisa aprender a se defender! Que
menino mole!
Lucas agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele e se
sentiu muito mal com sua covardia.
Continuou andando, deu uma volta inteira no parque e quando
chegou na mesma barraca da pescaria, tropeçou novamente no mesmo rapaz que
estava jogando. Pediu desculpas novamente, o rapaz o mandou praquele lugar de
novo. Lucas se lembrou do momento anterior e achando que se ficasse quieto
seria chamado de pamonha, deu um soco no rapaz, que fugiu correndo e chorando.
Lucas ficou orgulhoso de si mesmo e foi em direção à saída do parque, quando
passou por ele um vendedor de cordel que gritava o seguinte:
_ Olha o Cordel! Quem vai querer?! Não seja apenas mais um
ignorante! A Paz e o Amor devem reinar! Como dizia o Pai, “Se lhe baterem na
face, dê a outra”! Lucas ainda agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele
também, sentiu-se mal de novo, e pensou confuso como poderia saber qual seria o
momento de ficar quieto e qual era o momento de reagir. Quando viu o Realejo e
decidiu entrar na fila. Enquanto estava na fila, começou a sentir uma dor aguda
no peito. Há algumas semanas vinha sentindo aquela dor estranha, mas não falava
sobre o assunto com ninguém pois tinha pavor de hospitais e igrejas. Sentia a
dor calado. E como costumava fazer nesses momentos, divagou: Será que as
plantas sentem dor? Algo me diz que essa dor que sinto no peito é um processo
de amadurecimento. Acho que sim! Que as plantas sentem dor. Quando ela começa a
quebrar a casca da semente e buscar a luz do sol. Mas até alcançar seu tamanho
maior e pleno, deve haver fases. Acho que ela não cresce o tempo todo. Devem
haver momentos de prazer para contrastar com a dor. Esses momentos podem ser
quando ela está sendo regada, e quando está recebendo o carinho de seu criador,
ou de um pássaro, ou de uma borboleta, ou uma abelha. E após o pequeno momento
de alívio, se inicia novamente a busca pela iluminação do sol e das estrelas.
Enquanto divagava, levou um esbarrão de um homem e ficou em dúvida, se ficava
quieto ou se brigava. Na dúvida, como chegou sua vez de pegar o papel da sorte
no Realejo, ficou quieto e disse as palavras mágicas: “Toca Raul”!
Música: O segredo do Universo
Você está no mundo, só
tem uma opção
O caminho é longo,
homem
Ser feliz ou não
Queimando a
consciência e a sequência que ela traz
Momentos diferentes
que confundem a tua paz
Faixa 5
Sofia é a quinta da fila. Naquela tarde, antes de ir ao
parque, Sofia foi ao psiquiatra:
_ Sofia, você precisa tomar esse remédio! Senão você não vai
melhorar!
_ Mas doutor, eu odeio tomar remédios! Eu já tomo um e a
depressão está controlada! Essas dores que sinto são esporádicas e não creio
que seja necessário tomar esse remédio! Ele é muito forte! Eu pesquisei sobre
ele! Não quero ficar andando por aí como uma morta-viva!
_ Tudo bem então Sofia, eu só quero que você tenha uma vida
normal. Você precisa arrumar um emprego e namorar, essas coisas normais como eu
disse.
_ Mas doutor, emprego está difícil!
_ Eu sei, mas você tem que pegar aquilo que aparece! Não dá
pra fazer só o que a gente gosta!
_ Eu discordo doutor! Acho que é perfeitamente possível
viver fazendo o que se gosta pra não precisar trabalhar. Como já dizia o
querido Dalai Lama, eu acho. Só quero ser feliz doutor!
_ Tudo bem, é você quem escolhe! Depois não diga que eu não
avisei!
Sofia saiu do consultório pensativa como sempre. Aquela não
era a primeira vez que eles tinham aquele tipo de conversa. Na verdade, ela não
entendia por que o psiquiatra sempre saía pela tangente quando ela puxava o
assunto para temas mais profundos, como sentido da vida, por que morremos; por
que existe a dor; por que todos são obrigados a ter um emprego de dez horar
diárias enquanto poderiam aproveitar mais o tempo estudando, praticando alguma
atividade física, namorando, enfim, vivendo plenamente.
Sofia disse as palavras mágicas e tirou sua sorte:
Música: É fim de mês
Eu consultei e
acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é
que você vive alegremente
Acomodado e conformado
de pagar tudo calado
Ser bancário ou
empregado sem jamais se aborrecer
Ele só quer, só pensa
em adaptar
Na profissão seu dever
é adaptar
Faixa 6
Jacinto é o sexto da fila. Jacinto estava com a família no
parque. É um homem que se considera justo. Sempre faz de tudo para viver de
acordo com os preceitos cristãos. Jacinto é um bom homem, honesto e
trabalhador. Mas não foi sempre assim, quando jovem fez muita coisa que hoje
considera muito errado. Apanhou muito de seu pai, mesmo depois de adulto. E só
entrou na linha quando conheceu a mulher que viria a ser sua esposa. Jacinto
ama muito sua família e faz de tudo para fazê-los felizes. Enquanto Jacinto
esperava na fila do Realejo, sua esposa chegou trazendo seus dois filhos pelos
braços. Eles haviam brigado e um deles estava com a camiseta rasgada. Jacinto
perguntou o que havia acontecido e sua esposa contou que o mais velho havia
batido no mais novo por causa de algodão doce. Jacinto não pensou duas vezes e
deu uma surra no menino ali mesmo na frente de todo mundo. Ainda batia no
menino quando chegou sua vez de dizer as palavras mágicas para tirar sua sorte.
O velho senhor do Realejo olhando sério para Jacinto, disse enquanto dava a ele
seu pedaço de papel:
_ Às vezes a resposta é imediata.
Música: Novo Aeon
Já não há mais
culpado, nem inocente
Cada pessoa ou coisa é
diferente
Já que é assim,
baseado em que
Você pune quem não é
você?
Faixa 7
Frederico é o sétimo da fila. Frederico tem uma vida no
mínimo exótica. Passou dez anos nas montanhas do agreste nordestino, jejuando e
contemplando a natureza. Ele é um espírito amante da liberdade, mas talvez por
carma, veio a esse mundo preso; destinado a ter uma vida comum. Deveria
crescer, casar, ter filhos, trabalhar e morrer como um espírito aprisionado nos
grilhões de seu carma. Mas como amante da Liberdade, falhou em aceitar esse
destino, mesmo inconscientemente. Com a ajuda de espíritos de Luz, iniciou sua
busca por uma vida Livre e Plena. O caminho foi longo, tortuoso e cheio de dor.
Até o dia em que decidiu ir para as montanhas. Foram dez anos de uma vida livre
da prisão da sociedade. Mas após dez anos sem conseguir a sonhada Iluminação,
desistiu de sua missão e então voltou para casa. Não encontrou amigos nem
família. Procurou emprego e também não conseguiu nada. Já estava começando a
questionar se a decisão de ir para as montanhas havia sido a melhor coisa a ser
feita. Agora estava morando nas ruas, pois estranhos estavam em sua antiga
casa.
Estava um dia andando pelas ruas quando um menino lhe deu um
panfleto fazendo propaganda do parque de diversões que estava na cidade.
Frederico foi ao parque, por que apesar de ter perdido tudo, inclusive a
esperança, uma das coisas que aprendeu nas montanhas, foi acreditar nos sinais
que a vida dá.
Chegou sua vez de tirar a sorte. O velho senhor do Realejo
olhou para Frederico com os olhos brilhantes e sorrindo disse:
_ Como vai a sua banda?
_ Como disse? Questionou Frederico.
_ Sua banda de rock.
_ Senhor, eu adoro rock. Mas infelizmente não tenho nenhuma
banda.
_ Ainda não. Disse o senhor. Quais são as palavras mágicas?
_ Toca Raul!
O periquito pegou um dos papéis e passou ao senhor que por
sua vez, passou a Frederico que leu:
Música: Loteria da Babilônia
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo
Que você está certo
Você aprendeu tudo
Enquanto estava mudo
Agora é necessário
Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema
da vida
E os macetes do xadrez!
Faixa bônus
Cinquenta anos após esse episódio no parque de diversões, a
pequena cidade falhou no seu desejo de lutar contra todo tipo de progresso, e
inaugurava sua primeira linha férrea. A linha atravessava toda a cidade. O trem
percorreu todo o percurso completamente lotado, mas quando chegou na penúltima
estação, quase todos desceram, ficando apenas sete passageiros velhinhos, que
desceriam na última estação. Eram sete horas da noite e os sete passageiros
eram os sete da fila do Realejo: João, José, Maria, Lucas, Sofia, Jacinto e
Frederico. O trem fechou as portas e continuou sua viagem em direção à última
estação. No meio do percurso Frederico pôde avistar as montanhas que um dia
passara dez anos de sua vida procurando a liberdade, e sorriu. João e José
estavam sentados lado a lado. Se conheceram em uma festa há alguns anos atrás e
se tornaram grandes amigos. Lucas e Sofia também estavam sentados juntos. Se
conheceram na escola, e veio nessa sequência: amizade, amor, casamento e
filhos. Maria lia um livro, distraída e feliz por ter escolhido a profissão de
terapeuta. E Jacinto como se estivesse liderando o grupo, estava de pé na
frente do vagão apoiado em sua bengala, admirando a bela paisagem.
De repente o trem parou de fazer barulho e começou a
decolar. Os sete passageiros se olharam, mas não se assustaram. Sabiam exatamente
o que estava acontecendo. Olharam para o céu o viram uma luz muito forte que
iluminava todo o interior do vagão. Se extasiaram quando viram Deus deslizando
no céu entre brumas de mil megatons. E viram o mal, vindo de braços e abraços
com o bem, num Romance Astral.
Toca Raul!