sábado, 24 de setembro de 2022

O processamento

 A reunião foi encarniçada! No princípio, todo mundo querendo falar ao mesmo tempo; depois o chefe meteu o punho na mesa e tentou colocar ordem na bagunça; alguns protestaram, amantes da anarquia; outros mais tímidos riram por dentro satisfeitos que ficavam com qualquer demonstração de autoritarismos. Mas no final deu tudo certo! Resolveram sobre o que seria o assunto do dia: música! Ah, a música! Paixão de todos os presentes. Mas o adolescente da turma com sua mania de fazer tudo com pressa, sua mania de querer tudo pra ontem, questionou:

Tudo bem, a música! Mas e depois? E o resto?

E o poeta da trupe respondeu com sua mania de rimar:

Calma amigo, como diz Drummond, já temos o mote! Não vamos com tanta sede ao pote!

Chefe: Enfim, está decidido Sr. R.: Será a música!

Sr. R.: Como assim?

Chefe: Seu destino! Será a música!

Sr. R.: Mas isso não era um julgamento?

Chefe: Sim, um julgamento pra decidir seu destino!

Sr. R.: Mas o senhor K. me disse que era um julgamento pra me condenar!

Chefe: Cada um interpreta esse absurdo de acordo com seu temperamento!

Sr. R.: Nossa, muito sem noção!

Chefe: Exato!

Sr. R.: Mas como serei músico se o único instrumento que eu sabia tocar era o violão?! E bem basicão?! E já faz uns vinte anos que não encosto num! E sempre que tento cantar, minha garganta dá um treco, e começo a tossir! Como pode?

Chefe: Pra isso temos várias soluções: Tem um cara na internet que dá um curso de violão e canto de trinta dias! Isso mesmo! Apenas trinta dias você já sai tocando e cantando como um artista profissional!

Sr. R.: Isso eu já vi quando quis fazer um curso de inglês! Me matriculei no curso todo esperançoso de atravessar todas adversidades e estou há sete anos tentando entender o verbo “to be”!

Chefe: Tudo bem, esta técnica revolucionária não é pra qualquer um mesmo! Mas você pode aprender o violão tocando bateria! Afinal esse é seu dom! E pra cantar melhor, é só comer um ovo cru todo dia pela manhã durante sete anos!

Sr. R.: Tudo bem, mas já que é meu destino, por que não me foi dito isso desde que nasci? Poderiam me colocar pra ouvir música desde criança e na escola me passar educação musical; leitura de partituras e faculdade de música! Seria tudo tão mais fácil!

Chefe: Nossa, que sem noção!

Sr. R.: Então se essa reunião vai decidir minha vida, por que tem tanta gente brigando pra tentar comandar meu destino?

Chefe: Por que o céu é azul?

Nesse momento, os outros membros da torcida, digo, da reunião não se agüentaram e se manifestaram com palmas, gritos e urros. Como se a pergunta do chefe tivesse algum sentido metafísico.

Sr. R.: Não entendi!

Chefe: Lembra do que seu mestre Osho lhe disse sobre a Iluminação espiritual?

Sr. R.: Sim! Ele me disse que a conseguiu aos vinte e um anos e que eu, talvez, a conseguisse aos poucos, quando já tivesse cabelos brancos!

Chefe: Pois é! E não é o que está acontecendo com você?

Sr. R.: Tudo bem, mas e a música? O que ela tem a ver com isso? Eu sempre amei a música! Não teria que ser um destino mais tranqüilo?

Chefe: Por que você faz tanta pergunta? Do que tem tanto medo?

Sr. R.: Meus heróis morreram de Aids! E meus inimigos estão no poder! Por que tem que ser assim? E não de outra forma?

Chefe: Reunião encerrada! Já ta querendo saber demais!

Nesse momento a torcida, digo, a platéia, digo, os integrantes da reunião bateram palmas, gritaram e urraram.

Sr. R.: Mas e a música?

Chefe: Por que não? Você poderia ser médico, engenheiro, professor, lixeiro, faxineiro, jogador de futebol, marombeiro, etc! Por que não músico? Nesse mundo de lamúrias?! Nada de mais mano! Esquece! O que tens a dizer pra finalizar?

Sr. R.: Lula eleito no primeiro turno!

Chefe: E você Sr. Barrichello?

Fora Collor!

sábado, 3 de setembro de 2022

Faith forever

 O cara era um amigo do amigo do amigo dele. Conheceram-se numa festa na casa do amigo em comum; o amigo do amigo, descolado e com a namorada, era a atenção da festa; tomava todas e fazia piada com todo mundo; mesmo não conhecendo quase ninguém. Já o personagem desse negócio era conhecido da família e tido como um cara engraçado; mas com desconhecidos, ficava tímido. O personagem desse negócio estava com sua namorada também, mas após ver a forma liberal com que o cara tratava a sua, quase sentiu vergonha de estar amarrado. Tanto que viu o cara cobiçando sua namorada e não conseguiu reagir; o cara era um encantador de serpentes! E no final da festa, o cara perguntou a ele, o personagem, se aquela menina era sua namorada:

É sua mina?

Pára fulano! Disse a outra menina que estava com o cara.

Calma, só to perguntando!

E o personagem disse:

Não.

Assim, seco, quase com vergonha.

O cara deu uma babada, disfarçou e só parou quando a menina que o estava acompanhando, deu um breque nele; menos por ciúmes do cara do que por pena do personagem.

Uma semana depois se encontraram de novo; e agora uma dica: Se encontraram na banca de jornal do amigo em comum, que hoje não é o personagem principal, apesar de tê-lo como a um irmão. O engraçado é que o cara também ficou cismado com o personagem; e tanta cisma o fez convidar o personagem para ir até sua casa tomar um uisque, já que o amigo em comum disse ao cara que o personagem era forte pra bebida. Assim foi feito: O cara convidou e o personagem aceitou.

Agora mais uma dica: O personagem chegou no condomínio do cara com o fusca que o cara vendeu para o personagem! Nossa, que confusão! Pois é, isso é um texto hermético que deve ser compreendido por poucos. Kkk

Então o personagem chegou no casarão do cara, se olharam com desconfiança e curiosidade; e a diferença é que o cara estava consciente dessa curiosidade e o personagem estava completamente no escuro! Era um ignorante total. Coitado.

O cara apresentou a mãe para o personagem e ansioso, levou o personagem para tomar umas na sala reservada. O personagem ficou surpreso ao perceber que apenas alguns goles do uísque do cara, o fez falar merda: Deve ter ácido nessa porcaria – pensou o inocente – quero cair fora daqui! O instinto de defesa não se ausenta com a ignorância.

Porém, o encantador de serpentes, vendo que o personagem estava lutando com todas as suas forças para não perder o controle, colocou o aparelho de som pra tocar AC/DC e Joe Satriani, que o maluco sabia que o personagem curtia.

O personagem ficou quase deslumbrado! Mas não se entregou! Antes de que tudo se arruinasse, se despediu e saiu correndo.

Entrou no fusca, ligou o rádio e colocou a fita cassete do AC/DC que o encantador de serpentes o presenteou com a mais bela das intenções.

O personagem se perdeu dentro do condomínio que parecia gigante! Não fazia a mínima idéia de como sair daquele lugar; girou, girou, girou e nada de achar a saída! E o pior era que ele tava curtindo o rolê! Pra ele, era um passeio de fuscão, curtindo AC/DC bêbado! Só alegria!

No dia seguinte acordou sacudido e foi ao trabalho. Lembrava de quase tudo, como sempre; só vários anos mais tarde ficou encucado com o fato de que não se lembrava como havia saído daquele labirinto.

Antes de lembrar, passou por poucas e boas! Tanta coisa ruim que nem vale a pena dizer aqui! Enfim, sofreu como um vilão de desenho animado! Até que perdeu a fé.

Depois de tudo isso, encontrou um amigo de antigamente que disse a ele após uma breve conversa:

O importante é não perder a fé!

Como era um cara esquisito, levou isso como um desafio e perdeu a fé de novo.

Sofreu mais ainda! Mais do que achava que podia suportar.

Um dia, sentindo toda a dor do mundo (pelo menos parecia), dormiu e sonhou.

Sonhou com aquele fatídico dia em que se perdeu bêbado no condomínio do cara; e se lembrou do que aconteceu no intervalo entre estar perdido e acordar em casa no dia seguinte:

Chegou um momento em que ele desistiu de procurar a saída e estacionou o fusca numa curva aleatória; no sonho viu uma luz vinda do céu; envolveu o fusca com ele dentro; e naquele momento em que ele ouvia AC/DC, tudo mudou; começou a ouvir Ode to joy de Bethoven sem saber de onde vinha; a luz e a música tiraram ele de onde estava e o levou até a saída. Nem precisou passar pela portaria.