15 de Janeiro de 2219.
Escreveu a data no cabeçalho de seu primeiro relatório
diário, antes de perguntar a seu mestre cientista:
Como vai funcionar?
Metempsicose.
O quê é isso?
Transmigração da alma, de um corpo para o outro, seja
este do mesmo tipo de ser vivo ou não.
Então não é o corpo que viaja no tempo?
Não nesta máquina. Aqui, além de trocar de corpo, a alma
também viaja no tempo.
Agora pedirei sua
ajuda. Imagine que este é realmente o ano de 2219 e que uma tragédia aconteceu
(talvez a terceira guerra mundial). Ou seja, um verdadeiro apocalipse. Ou
talvez mudanças climáticas drásticas causadas pela ação irresponsável do homem
(isso não é tão difícil de imaginar). Enfim, imagine um cenário caótico, desses
que se vê em filmes de ficção científica. Você escolhe: guerra nuclear, zumbis,
robôs, andróides, epidemias, extraterrestres, etc.
Voltando à história:
Alguns meses depois o cientista terminou a construção da
máquina com o auxílio de sua bela ajudante.
Durante a construção, enquanto ela ajudava seu mestre,
estudou bastante o projeto e já entendia bem como funcionava a máquina e o
propósito de sua construção fora revelado a ela quando ainda era aluna de seu
mestre. Eles conversaram e ela aceitou ser além de ajudante, a cobaia. A
primeira viajante do tempo. Ela possuía as qualificações necessárias e também
muita coragem.
Entrou na máquina. Seu corpo deitado em uma espécie de
maca. O jovem senhor cientista perguntou se ela estava pronta, ela sinalizou
que sim com a cabeça. Ele fechou os olhos, respirou fundo e ligou a geringonça.
Em instantes, ela adormeceu e através de um monitor especial, o cientista pôde
ver a alma da moça atravessando dimensões.
De repente ela se viu encarnada no corpo de uma índia.
Malinche, seu nome.
Estava ao lado do grande Imperador Azteca, Montesuma II.
Ano de 1519.
Montesuma II por sua vez, cumprimentava o espanhol Hernán
Cortéz, que chegava a Tenochtitlán (que hoje é a cidade do México).
Montesuma ofereceu presentes aos espanhóis, sendo um bom
anfitrião. Entre esses presentes, muito ouro. O que deixou os espanhóis
completamente melindrados.
Malinche teve um caso com Cortéz. Já disposta a executar
sua missão. Muito inteligente, aprendeu rápido a língua espanhola e servia de
intérprete para os dois lados.
Um tempo depois, antes que a guerra começasse, e o
império Azteca fosse completamente destruído, Malinche inventou recados para
ambos os lados. Disse algo a Cortéz que o fez voltar à Espanha com seus homens.
Com muito ouro, é claro.
A Montezuma ela disse que Hernán Cortéz e os Espanhóis
concordaram em voltar para sua terra e que respeitavam sua cultura, mas o Imperador
Azteca teria que acabar com os sacrifícios humanos e com o canibalismo, se
quisesse impedir seu retorno e a guerra. Afinal, existiam outras formas de se
cultuar o corpo, nosso templo sagrado. Mantendo-o saudável, por exemplo. E que
existiam também outras maneiras de se honrar os deuses.
Assim foi feito. E de alguma forma, essa ação acabou
influenciando aos outros conquistadores nas outras partes do continente.
Quando ela tentou voltar ao ano de 2219, dizendo as
palavras “mágicas” que serviam como uma senha que a conectava à máquina do
tempo, teve problemas. Vagou um tempo pelo espaço / tempo. E quando chegou ao
seu ano, tudo estava diferente. A terra florida, as águas límpidas, o ar
fresco, a temperatura agradável, os pássaros cantando, as pessoas sorrindo.
Procurou o laboratório, não encontrou. Procurou seu
mestre, também não encontrou.
Não encontrou nem seu próprio corpo. Ele não existia mais.
Ao realizar sua missão, mudou o destino de todo o
planeta. Mas não se abalou, muito pelo contrário, se alegrou muito.
Vagou por um tempo pela Terra, ajudando as pessoas. Podia
ser vista pelos clarividentes.
Foi cultuada como uma divindade.
Peço seu auxílio
mais uma vez.
Vamos tentar
juntos, imaginar como seriam as Américas e como seria o mundo, se os Europeus
não tivessem invadido estas terras e assassinado milhões de índios.
Pronto. Agora que
já imaginamos, voltemos à “realidade”.
Em nome de toda a humanidade, peço perdão aos nossos
irmãos peles – vermelhas.
Perdoem-nos pelo
GENOCÍDEO imperdoável, pela nossa ganância, e por ter lhes mostrado tudo o quê
há de pior no ser humano.
Munay!!
