terça-feira, 1 de março de 2016

Fábula do papagaio bêbado andando de bicicleta


O Quasímodo torcia para o time dos gambás porque gostava do cheiro deles, pois se assemelhava ao seu próprio cheiro, causado pela falta de banhos. Um dia conheceu uma princesa que de tanto ser tratada como um sapo, acabou acreditando que era realmente um sapo. Mas havia um problema. O pai da princesa-que-achava-que-era-um-sapo, era torcedor fanático dos porcos, arquirrival dos gambás. Após muito insistir, o Quasímodo conseguiu conquistar o coração da princesa-que-achava-que-era-sapo. Mas ela impôs uma condição. Na verdade, essa condição seria imposta indiretamente pelo pai da moça. O pretendente teria que dizer ao pai da moça que ele era torcedor do time dos porcos. Ele aceitou, repetindo para si próprio que o amor era mais importante do que o futebol. E repetia como um mantra, pois sabia que seria difícil abandonar seu time do coração e justamente pelo arquirrival. Assim foi feito. Mas o velho pai era esperto, sabia que tinha algo de errado naquele cara e não gostou do pobre Quasímodo desde a primeira vez que o viu.
A princesa-que-se-achava-um-sapo tinha um primo papagaio que também era torcedor fanático do time dos porcos. Foram apresentados, o Quasímodo e o papagaio. Se deram até bem, mas isso foi só até o Quasímodo talvez por inveja pelo papagaio ter sorte com as papagaias e ser muito papagaiaengo (versão mulherengo do papagaio), começou a chamá-lo de periquita. Sim, o papagaio era muito sensível, mas ele realmente gostava das fêmeas. Mas é que o Quasímodo não aceitava isso, apesar de se achar liberal e moderninho, na verdade era um grande preconceituoso. Para ele o papagaio deveria ser machão à moda antiga, qualquer variação da espécie para ele, era fêmea. E o Quasímodo continuava chamando o papagaio de periquita e insinuando que ele deveria fazer a cirurgia de mudança de sexo. É claro que o papagaio não gostava desse bullying disfarçado de brincadeira. Um dia, após ter sua sexualidade questionada mais uma vez pelo Quasímodo, que o chamava de periquita e falso Don Juan, o papagaio, pra não fazer uma besteira, pegou seu carrão e saiu acelerado, sem rumo. Parou em frente ao boteco do pastor de cervídeos (que era pastor de cervídeos à noite na igreja do bairro e tocava o boteco de dia) e foi abordado pela gangue das sardinhas. Foi roubado, levaram seu carrão. Aquilo já era demais, resolveu chutar o balde. Tomou todas! Ali mesmo no boteco do pastor de cervídeos. Bebeu cerveja de arroz integral até ficar completamente bêbedo. Ao sair, pegou a bicicleta emprestada de seu amigo urubu que também estava ali no boteco comendo um espetinho de carniça. Foi ziguezagueando com a bicicleta pelas ruas da cidade, quase foi atropelado, mas estava determinado a tirar um peso dos ombros. Foi até a casa de sua prima princesa-que-se-achava-um-sapo. Chegando lá, o papagaio abriu o jogo e contou ao pobre pai que seu genro era na verdade um mentiroso e que era falso até o último fio de cabelo. É claro que o pai quis saber porquê. E o papagaio então disse que seu genro na verdade torcia para o time dos gambás, e não para o time dos porcos. E que ele havia descoberto aquilo um dia em que eles estavam jogando cartas enquanto ouviam um jogo de futebol pelo rádio, e saiu um gol do time dos gambás. O Quasímodo não se conteve e deu uma leve comemorada. Disfarçou, mas o papagaio percebeu e teve certeza da traição. O pai da princesa-que-se-achava-um-sapo ficou furioso. Sabia que tinha algo de estranho naquele Quasímodo, além da cara. E ele nunca achou certo o cara morar de favor na casa que ele tinha dado para a filha. Proibiu o namoro da filha com a criatura. O Quasímodo ficou muito triste, mas pelo menos parou de se preocupar com o cisco no olho do papagaio e foi cuidar do travessão que estava no seu próprio olho.

E foram animais para sempre.