O Quasímodo torcia para o time dos gambás porque gostava do
cheiro deles, pois se assemelhava ao seu próprio cheiro, causado pela falta de
banhos. Um dia conheceu uma princesa que de tanto ser tratada como um sapo,
acabou acreditando que era realmente um sapo. Mas havia um problema. O pai da
princesa-que-achava-que-era-um-sapo, era torcedor fanático dos porcos, arquirrival
dos gambás. Após muito insistir, o Quasímodo conseguiu conquistar o coração da
princesa-que-achava-que-era-sapo. Mas ela impôs uma condição. Na verdade, essa
condição seria imposta indiretamente pelo pai da moça. O pretendente teria que
dizer ao pai da moça que ele era torcedor do time dos porcos. Ele aceitou,
repetindo para si próprio que o amor era mais importante do que o futebol. E
repetia como um mantra, pois sabia que seria difícil abandonar seu time do
coração e justamente pelo arquirrival. Assim foi feito. Mas o velho pai era
esperto, sabia que tinha algo de errado naquele cara e não gostou do pobre
Quasímodo desde a primeira vez que o viu.
A princesa-que-se-achava-um-sapo tinha um primo papagaio que
também era torcedor fanático do time dos porcos. Foram apresentados, o
Quasímodo e o papagaio. Se deram até bem, mas isso foi só até o Quasímodo
talvez por inveja pelo papagaio ter sorte com as papagaias e ser muito papagaiaengo
(versão mulherengo do papagaio), começou a chamá-lo de periquita. Sim, o
papagaio era muito sensível, mas ele realmente gostava das fêmeas. Mas é que o
Quasímodo não aceitava isso, apesar de se achar liberal e moderninho, na
verdade era um grande preconceituoso. Para ele o papagaio deveria ser machão à
moda antiga, qualquer variação da espécie para ele, era fêmea. E o Quasímodo
continuava chamando o papagaio de periquita e insinuando que ele deveria fazer
a cirurgia de mudança de sexo. É claro que o papagaio não gostava desse bullying
disfarçado de brincadeira. Um dia, após ter sua sexualidade questionada mais
uma vez pelo Quasímodo, que o chamava de periquita e falso Don Juan, o
papagaio, pra não fazer uma besteira, pegou seu carrão e saiu acelerado, sem
rumo. Parou em frente ao boteco do pastor de cervídeos (que era pastor de
cervídeos à noite na igreja do bairro e tocava o boteco de dia) e foi abordado
pela gangue das sardinhas. Foi roubado, levaram seu carrão. Aquilo já era demais,
resolveu chutar o balde. Tomou todas! Ali mesmo no boteco do pastor de
cervídeos. Bebeu cerveja de arroz integral até ficar completamente bêbedo. Ao
sair, pegou a bicicleta emprestada de seu amigo urubu que também estava ali no
boteco comendo um espetinho de carniça. Foi ziguezagueando com a bicicleta
pelas ruas da cidade, quase foi atropelado, mas estava determinado a tirar um
peso dos ombros. Foi até a casa de sua prima princesa-que-se-achava-um-sapo. Chegando
lá, o papagaio abriu o jogo e contou ao pobre pai que seu genro era na verdade
um mentiroso e que era falso até o último fio de cabelo. É claro que o pai quis
saber porquê. E o papagaio então disse que seu genro na verdade torcia para o
time dos gambás, e não para o time dos porcos. E que ele havia descoberto
aquilo um dia em que eles estavam jogando cartas enquanto ouviam um jogo de
futebol pelo rádio, e saiu um gol do time dos gambás. O Quasímodo não se
conteve e deu uma leve comemorada. Disfarçou, mas o papagaio percebeu e teve
certeza da traição. O pai da princesa-que-se-achava-um-sapo ficou furioso.
Sabia que tinha algo de estranho naquele Quasímodo, além da cara. E ele nunca
achou certo o cara morar de favor na casa que ele tinha dado para a filha. Proibiu
o namoro da filha com a criatura. O Quasímodo ficou muito triste, mas pelo
menos parou de se preocupar com o cisco no olho do papagaio e foi cuidar do
travessão que estava no seu próprio olho.
E foram animais para sempre.
