sábado, 30 de novembro de 2019

Que fase!


Tem dois amigos sentados na mesa da lanchonete, do lado de fora, porque ali se pode fumar. Conversa vai, conversa vem, bebericando uma gelada... uma não, várias. Quando surge uma morena boa pinta e pede uma informação. O amigo moreno fica em choque, e o amigo louro responde à beldade. O amigo louro convida a morena para sentar e tomar umas com eles. Ela aceita meio depressa demais para o gosto do amigo moreno. O amigo louro que antes estava quase deprimido tentando falar de política, se solta e começa a xavecar a morena, porque percebeu que seu olhar, o da morena, dizia tudo o que ele queria ouvir. E justamente por isso, não pegou pesado no palavriado:
_ Você ta sozinha, ou vai chegar mais alguém?

_ To sozinha, porquê?
_ Como assim por quê? Porque vai que seu namorado chega, como a gente vai explicar?!
_ haha, esquece, não tenho namorado!
Resumindo, o louro xavecou até ficar babando e a morena antes de sair para algum lugar mais tranquilo (sugestão do louro), perguntou de quem era o carro.
_ É dele.
Apontou o amigo louro para o amigo moreno.
_ Tudo bem, vamos... respondeu a morena.
Agora uma pequena pausa para você ir ao banheiro junto com os personagens.
O moreno foi dirigindo, enquanto o louro foi no banco de trás com a morena fazendo tudo o que um cidadão de bem tem direito. Na primeira esquina, encontraram um amigo em comum. O amigo cumprimentou, viu a situação e disse:
_ Coitado!
O moreno, para tentar recuperar o placar adverso, parou em frente a um motel e disse olhando para trás:
_ E aí, vai rolar ou não?
A morena respondeu: Eu dou pra ele, pra você não!
Desceram do carro e foram fazer bebê, à pé.
O moreno indignado, só de raiva não voltou para casa! Foi direto para o centro da cidade tomar mais algumas e tentar reverter a má sorte. Quase deu! Chegou no centro e encontrou um grupo de amigos. Entre eles uma menina linda que ele admirava desde sempre. Sentou ao seu lado mas não disse nada. Sei lá, ou ele se achava o galã, ou era muito tímido. Achava que não precisava falar nada pra ganhar a parada. A menina saiu com outro amigo seu e na saída ainda se virou e mandou um beijo debochado. No mesmo momento, viu seu time tomando um gol na tv do bar. Ele desistiu! E resolveu tomar todas. Pelo menos a loura gelada era fiel. Enquanto tinha dinheiro na carteira. O dinheiro! Ah, o dinheiro! Já deve ter salvo muitas vidas miseráveis como essa! Coitado, voltou pra casa triste, desconsolado e até um pouco deprimido. Mas se você acha que toda essa desgraça é pouco, bobagem! Uma esquina antes de chegar ao aconchego consolador, fora da cidade, quase um sítio, o carro quebrou! Em frente a uma viela frequentada por maconheiros e afins. Deu uma sorte! Estava tudo deserto. Ouviu passos do outro lado da viela, correu na tentativa de pedir ajuda. Quando chegou do outro lado, os passos estavam mais fortes. Se retraiu na noite escura e nebulosa, e tentou colocar um tom formal na voz:
_ Boa noite.
Era um cavalo! Ele deu boa noite a um cavalo! Vocês entenderam o que eu disse? Ele deu boa noite a um cavalo no final dessa noite horrível. Se isso não for engraçado, não sei mais o que é!

sábado, 23 de novembro de 2019

Biografia da ilusão


Branco Rico nasceu no dia tal, do mês tal de tal ano. Ou seja, não importa. Só sei que foi, ou é, ou será no futuro. Parto normal num hospital de primeiro mundo. Quando veio ao mundo, não chorou, gargalhou! Como se ouvindo piada de português nos anos 1980. Sua mãe na época desse futuro tinha ou tem ou terá 25 anos de idade, formada em direito, com uma agência que gerencia os direitos do grupo Silvio Santos. Sim, o patrão ainda está vivo! Seu pai tem 26 e é governador de uma cidade artificial criada onde antes era uma floresta exuberante. Em sua campanha pregava que era necessário que a evolução humana chegasse a tal lugar. Mas o que foi feito dos nativos, da fauna e da flora? Pergunte ao Jornal Nacional. Eles sabem, mas duvido que contem.
Cresceu em meio a computadores, máquinas e robôs. Porém, seu pai se dizia progressista e não quis privar seu primogênito de convivência orgânica. Por isso Branco tinha seus servidores pretos e rubros que é claro, não tinham direito nenhum, a não ser servir seu amo. Os amarelos ainda traumatizados com a última guerra, não se metiam nessa treta. Os negros, fortes, porém minoria, nos raros momentos de rebelião, eram chibatados. Os rubros tinham fama de vagabundos. Na verdade, preferiam a morte do que serem privados da liberdade. Eram utilizados nas artes, contando histórias e fazendo palhaçadas. Assim seguia a vida feliz de Branco, que cresceu em uma escola militar. Aprendeu toda filosofia, psicologia, alquimia, misoginia, etc... Mas não se sabe o porquê; ficou impregnado em sua mente, justo as aulas de educação física, onde o professor capitão, ensinava a formar filas e colunas de pirralhos. Direita volver! Esquerda volver! Descansar! Branco é mestre nas direções! Só não peça pra apontar o Norte! Seria pedir demais.
Perdeu a virgindade aos quinze anos com uma criada Cafuza. Pois é, os criados também se reproduziam entre eles. E só eram tolerados e criados, porque o patriarca os viam como mão de obra futura. Não teve a mesma sorte, sua irmã mais nova que só casou aos quarenta anos com um pastor da igreja onde a família frequentava. Mas a história de Morena, é outra.
Rico casou com uma linda virgem de vinte de cinco anos de idade. Só conseguiu essa façanha porque a menina era filha de um deputado amigo de seu pai. Nas reuniões de família, Rico ria de todas as piadas dos patriarcas. Aliás, ele ria à toa! Que vida maravilhosa! Tinha orgulho de ser alienado. Seus amigos todos o eram! Pra que saber sobre política, luta de classes, miséria, barbárie, guerras, injustiças?! Tudo o que ele queria, ele tinha! Enfim, Rico era muito feliz.
Não se formou em nada, odiava estudar! Mas seu pai lhe concedeu a embaixada do país mais rico daquele momento! Era só festa, jantares e mordomias! No cargo, viajava somente para países ricos, e quando pobres, não saía do hotel cinco estrelas. Pra que arranjar problemas?! Ele dizia na piscina do hotel para sua esposa: “Tá vendo como a vida pode ser boa?!"
Até que um dia, uma vereadora negra e lésbica, peitou seu pai na assembleia, dizendo que seu povo não suportaria mais sua ditadura! Rico estava presente. Ela deu o seguinte discurso:
"Boa tarde à todas e todos,
O Brasil  (país imaginário) é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.
Os números são assustadores: em 2096, foi registrada uma violência contra mulher a cada 5 horas no Estado do Rio de Janeiro (cidade imaginária).
Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres que conseguiram, de algum modo, buscar auxílio e denunciar.
E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade de gênero? Até quando?
O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no município do Rio de Janeiro!
Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso avanço civilizatório.
Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar pela vida daquelas que não puderam ainda se defender da violência. E são muito mais das 50.377 registradas em 2096, aqui, no Rio.
Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em Casas Legislativas, como esta, não somos a minoria. Somos a maior parte da população, ainda que sejamos pouco representadas na política.
Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjugadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!
No Brasil, segundo o IPEA (2096). As mulheres negras brasileiras ainda não conseguiram alcançar nem 40% do rendimento total recebido por homens brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos violências diariamente.
Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e o racismo estrutural. Quem acha que isso não merece ser debatido na nossa educação é porque se beneficia das desigualdades.
Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos “gênero”, “sexualidade” e “geração”, fortalece a continuidade de desigualdades e violências dos mais diversos tipos.
Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso município: o Plano Municipal de Educação. Este plano merece que tenhamos compromisso e responsabilidade.
O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a partir de 1970 com o objetivo de dar visibilidade às desigualdades entre homens e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso corrente em debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como finalidade promover a devida atenção e crítica das discriminações sofridas pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e todos possamos juntos enfrentar este cenário.
Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar sobre alguma doutrinação?
Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade de gênero. E só se promove igualdade através de uma educação consciente e do debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.
Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos dessa cidade, devemos defender o debate na educação!

Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o combate à violência e a desigualdade!
É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são interrompidas dia-a-dia neste Município.
Falar de igualdade de gênero é defender a vida!"

Resultado: Branco Rico se doeu e mandou assassinar a Vereadora. A polícia descobriu o crime. Mas nada fez! E pasmem! Branco Rico viveu até os oitenta anos sem culpa e quando morreu, foi para o céu.
Marielle Vive!!


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Braindrizzle


Brainstorm é quando a gente escreve tudo o que vem na mente. Não vou fazer isso agora. Não porque não consigo escrever, mas porque não consigo pensar. Mas vou tentar escrever algo. O que vem na minha mente no início é a falta de pensamento. Putz, to tendo um bloqueio bem no meio de uma brainstorm. Poha nenhuma! Tem tanto assunto! Política, religião, futebol, sexo, drogas, rock’n’roll e amenidades. Acho que meu bloqueio é devido ao excesso de assunto. Mas tudo bem, vou escolher um.  Na verdade o brainstorm é usado pra quem está escrevendo um livro, daí a pessoa escreve tudo o que vem na mente e depois edita. Corta muita coisa. Acho que o meu problema é causado pelo fato de que eu vou postar meu brainstorm. Por isso o título do post. Quando a gente sabe que alguém vai ler o que a gente escreve, não consegue escrever tudo sem pensar. O raciocínio entra sem pedir licença. Mas vou tentar.
Nada do que eu queria fazer vai rolar. Escrever sem pensar e postar tudo. A censura vem sem pedir permissão! E eu só estou me explicando porque vou postar essa merda! Se não, escreveria tudo com genialidade (talvez). O que quero dizer é que nada do que eu disse vale alguma coisa. Mas o que vale? Suspiros, amores, desejos... Na maior parte do tempo estamos pensando na melhor maneira de agradar os outros. E o que fazemos pra agradar a nós mesmos? Já li em algum lugar que se a gente está bem com a gente mesmo, os outros que estão próximos vão ficar bem também. Mano, ainda to pensando no que escrever. Mas dá um desconto, esse é meu primeiro brainstorm, e assim pra todo mundo ver, é phoda. O raciocínio se intromete mesmo. Por isso, não vai achando que você me conhece por causa deste post. Estou sob pressão. Pessoalmente, posso muito bem ganhar seu amor se for fêmea ou sua amizade se for macho. O cachorro ta latindo. Achava que era o meu, mas é do vizinho. Não tem ninguém passando na rua numa hora dessas. Porque será que esse bicho ta latindo? Acho que é pelo mesmo motivo que eu estou escrevendo. Eu podia estar roubando, matando ou politicando agora. Ou fazendo amor com a mulher da minha vida. Mas estou aqui escrevendo pra você ler. Se isso não for amor à escrita não sei mais o que é. Acontece que se eu fosse rico nada disso estaria acontecendo, porque o pensamento é mais rápido que os dedos. To pensando várias coisas, mas na hora de escrever, esqueço tudo. Será que a solução pra parar de passar vergonha nas redes sociais, é achar um emprego?! Se for isso, to fodido. Meu último emprego foi há dez anos atrás. Quem vai dar um emprego pra mim? A primeira pergunta quando veem meu currículo, é porque fiquei tanto tempo parado. E o que eu vou responder? Se for a verdade, será: Porque sou vagabundo!!! É isso mesmo! Três pontos de exclamação!
Esquece, vamos falar de outro assunto. Já estudei sobre metafísica da saúde. Não lembro de quase nada, mas uma coisa lembro: Diabetes é sintoma de tristeza. E o que causa essa tristeza que bate recordes no mundo ocidental? Será que é o capitalismo? Compare os níveis dessa doença nos Estados Unidos e em Cuba. Acho que o capitalismo é autoritário. Não esqueçamos de que o Homem é também um animal. O bicho domesticado, preso, também morre de câncer. Já no seu habitat natural, isso não acontece.
Agora deveria vir algo engraçado, para balancear o assunto pesado. Mas apesar de ser um palhaço, não consigo pensar em nada engraçado no momento. Talvez porque estou com medo, ou aflito, ou bêbado mesmo, diga-se a verdade. Estou escrevendo aqui no meu quarto e com medo de que meu pai venha ver porque estou acordado até essa hora.
Meu pai é viciado em faroeste de hollywood. Eu assisti desde criança e sempre torci pelos índios. Eu tinha uma coisa bem legal pra postar, mas estou sem condição.
O homem vermelho e o homem negro respeitam a vontade do próximo.
O Homem branco não.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Carta a um amigo


Saudações,
Prezado amigo, há quanto tempo! Como vão as coisas? Aqui tudo na mesma. O presidente do país é quem você sabe, a ditadura com a maior cara de pau, está batendo em nossas portas de novo, o desemprego só aumenta, a carestia, os arrochos nos mais necessitados, a ignorância e a intolerância querem fazer morada. O que eu quero te dizer é que a coisa aqui ta preta! Sem a cachaça, ninguém segura esse rojão! Mas deixemos de choramingos! Afinal já vi gente em condições bem piores que a nossa, com um sorriso aparentemente verdadeiro no rosto! Se o sistema não ajuda, paciência! Porém, nós temos a escolha de aceitar a exploração, ou lutar! Um espírito feliz, se exalta em ambas as missões.
Mas antes de recorrer ao verdadeiro motivo do contato, gostaria de te deixar a par do que aconteceu por último em minha vidinha deveras agitada; Fui promovido no trabalho! Agora ao invés de alimentar a máquina de dejetos, alimento a máquina de cacarecos. Não sei o motivo, mas às vezes eu e a máquina somos um. Será que eu alimento a máquina ou será que a máquina me alimenta? Se você escolher a segunda opção, devo dizer-te que estou faminto como se comesse apenas ração (desculpe a rima). Mas olha eu de novo com meus choramingos! Antes de pular ao que interessa, continuo mais um pedaço: Além de ser agraciado em ser o membro de uma nova máquina, agora também posso fazer hora extra! Trabalho de doze a dezesseis horas ao dia! O salário aumenta um pouco no fim do mês e posso transmitir o soldo aos meus filhos adolescentes! Isso tem suas vantagens e desvantagens, vejamos: Com os filhos crescidos e ainda não trabalhando, como deveria ser, tenho que abastecê-los com meus minguados, batalhados a duras penas! Porém, o lado bom é que como eles não são mais crianças, não preciso mais tomar conta nem trocar fraldas! E também cansei de me preocupar com seus instintos suicidas! Lembrei de que já fui quase parecido, lembra? Pode parecer pouco, mas com o tempinho livre, posso ler! É justo dizer que além de querer saber sobre como vais, escrevo-lhe para contar de meu novo passatempo: Estou lendo! Comecei com revistas, assinei uma e pude perceber que conseguia ler e assimilar mais rápido do que todos de minha família! Descobri até uma parte minha que desconhecia: O abusado. Me enveredei pelos caminhos da literatura e entrei de sola! Li “Os Lusíadas” de Camões! Não entendi nada! Mas não desisti. Ao contrário! Isso me deu combustível para tentar ler outras formas e outros estilos! No início, um pouco mais fáceis e agora leio até Machado de Assis! No Machado não entendo algumas (muitas) palavras, talvez pela distância no tempo, mas diferente dos Lusíadas, isso eu entendo! Principalmente sua ironia! Hoje sei que ele é gênio por conseguir escrever Alta Literatura de forma irônica!
Nas horas vagas leio o que posso. E quais são essas horas vagas? Respondo: quatro horas de sono das quais dizem que tenho direito oito! Durmo as outras quatro, acordo sonolento e passo o resto do dia da mesma forma! Mas pensei que isso pode valer a pena, pagando o preço de que ao invés de morrer aos oitenta, posso muito bem bater as botas aos sessenta (se tiver sorte). E isso despertou meus dedos e minhas mãos! Tão acostumadas a alimentar máquinas de dejetos e cacarecos, agora não sei bem a razão, sinto vontade de escrever!
E agora vem a principal razão desta: Gostaria de escrever sobre vossa vida! Ainda estou indeciso se deveria escrever uma biografia completa ou apenas (como se fosse pouco), sua vida a partir desse momento. Por quê? Por que sua vida me fascina! Digamos assim: Minha vida material é agitada, apesar da monotonia. E minha vida espiritual é nula! Nem sei o que é isso! Já sua vida material parece monótona, mas percebo que é ilusão! Porque sua vida espiritual é plena! Pelo que você me contou na última vez que nos vimos, acho que muita coisa acontece no seu espírito! Na época não percebi! Achava até que minha vida fosse mais emocionante! Mas hoje sei, através da literatura, que minha vida de máquina não se compara à sua vida puramente organicamente espiritual! Desculpe os advérbios.
Gostaria de me encontrar contigo para uma breve ou não, entrevista! Sua vida de alguma forma me fascina! (já disse isso). Mas não só pelo fato de que você tem uma vasta experiência espiritual, mas também ou principalmente, porque hoje você não mais pertence a nenhuma instituição humana! Ainda me lembro de algumas fatias de nossa última conversa. A principal: Você disse que apesar de não se achar merecedor, ainda buscava a iluminação espiritual. Você já conseguiu? Se não, tenho fé de que consigas! E tenho paciência o suficiente para esperar que os deuses te abençoem! Quero escrever a história completa! Peraí que minha esposa acabou de entrar no quarto com cara de poucos amigos...
Amigo, acabei de descobrir que serei pai de nosso quinto filho! Deve ser o “super-zóide”! Será que ainda vou conseguir escrever?
Emoções a parte, termino com um axioma (seja lá o que isso for):
Espero que todos estejam com saúde e lhe desejo um belo nervão pra mastigar! (piada interna! Quis dizer no churrasco).
Abraços!
Saudades!
Rogério Rodrigues.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Bloqueio criativo


O aspirante a escritor está tendo um bloqueio criativo e decide buscar ajuda com um profissional psicanalista:
Não sei o que está acontecendo comigo! Eu nunca tive isso! Eu lia sobre o assunto, de que às vezes o escritor pode ter bloqueios criativos, e ria! Achando que era frescura ou incompetência! Mas no momento, não consigo escrever nada! Tudo o que começo não tem fim! Isso quando consigo começar! Às vezes nem isso! E como sou teimoso, às vezes escrevo do começo ao fim me esforçando, forçando a barra mesmo, e fica uma porcaria! Já pensei em tudo: Será que isso é físico? Eu estava sedentário e comecei a praticar esportes. Nada feito! O bloqueio continuou! A sensação de que algo faltava continuava a me perseguir. Daí achei que poderia ser emocional: Minha auto-estima estava baixa porque tinha acabado de terminar um relacionamento. Hoje estou casado com uma menina linda e que acho que me ama! Tudo na mesma! Apelei para o espiritual; Me vendo sem saída rezei, como não fazia há anos: “Por favor Senhor, me devolve minha inspiração! Eu achava que tinha o dom! Mas agora até isso duvido! Me perdoa se alguma vez escrevi coisas que o desagradou!”
Tudo isso, entre outras rezas, inclusive o Pai Nosso e a Ave Maria! A coisa boa disso tudo talvez seja o fato de que voltei a rezar! O bloqueio permanece, mas de alguma forma voltei a rezar com frequência e sentindo uma conexão com o Todo que nunca havia sentido antes!
Tem a história de que muitos escritores, mesmo os ditos da alta literatura, começaram escrevendo coisas ruins, até conseguirem escrever seus clássicos. Pensei nisso também! Na lógica de que hoje escrevo melhor do que escrevia há alguns anos atrás. Não gosto muito de ler minhas coisas antigas, mas fiz esse esforço na esperança disso poder ajudar com meu bloqueio! Resultado: Li um negócio de dez anos atrás e fiquei pasmo! Era muito melhor do que qualquer coisa que eu escrevo hoje! Como pode?! E então? O que você acha que pode ser isso? Você pode me ajudar?
Ainda não sei. Por favor, continue... você está indo bem...
Mas isso é tudo. Não sei mais o que dizer!
Diga qualquer coisa! Nós ainda temos tempo...
Não sei como dizer qualquer coisa pode me ajudar a resolver o problema do bloqueio!
Calma... confia em mim! Ou você prefere sair agora e perder o restante do tempo?
Tudo bem então... deixa eu pensar... (após pensar alguns segundos):
Não sei por que pensei nisso agora, mas tem uma coisa que aconteceu na minha vida quando eu era solteiro, que nunca contei pra ninguém! Nem para meus pais!
Continue...
Eu saí com alguns amigos num fim de semana e fomos beber num bar numa cidade próxima. Na volta, estava todo mundo bêbado, e eu dirigindo. Três amigos no banco traseiro, e meu amigo maluco no banco do carona. Ouvindo música no volume máximo e cantando como loucos. Foi quando meu amigo maluco baixou o volume do rádio e proclamou: “Agora a gente vai ter uma das melhores experiências de nossas vidas!” A gente riu, é claro, achando que ele iria nos levar para alguma zona. Ele continuou sério, esperou o silêncio e me disse: “Tire as mãos do volante. Desengate as marchas, coloque em ponto morto, não pise nos freios e pare de acelerar.” Como a gente já estava a mais ou menos 80 por hora, mesmo tirando o pé do acelerador, a velocidade continuava muito alta para um carro desgovernado. No início relutei. Mas eu vi de alguma forma, talvez pela influência do álcool, um propósito na loucura de meu amigo maluco. Soltei os pedais... e o volante... por incrível que pareça, o carro andou ainda centenas de metros, talvez quilômetros, era como se o tempo tivesse parado... até a próxima curva...
Alguém morreu?
Ninguém! Apesar de ter dado perda total no carro!
Obrigado por compartilhar...
E então, o que eu faço?
Sei lá, se vira!
Como assim?! Eu to pagando a consulta!
Não to nem aí!
Mas por quê? Se eu souber o porquê, eu posso mudar...
Não posso dizer.

sábado, 2 de novembro de 2019

Currículo de um trabalhador anormal


Venho por meio desta, solicitar um emprego vindo de Vossa Senhoria.
Tenho vinte e oito anos de idade e solteiro. Mas pretendo casar aos trinta com uma mulher linda e ter alguns filhos. Portanto, necessito de um bom salário pra sustentar minha família; qualquer coisa ao redor de cinco mil reais. A vida inteira trabalhei como peão. Algumas metalúrgicas como ajudante geral, e uma empresa de comércio como atendente. Mas também já trabalhei na construção civil como ajudante de pedreiro. Porém, meu último emprego foi como coletor de produtos recicláveis (ou não). Nome bonito para lixeiro. Com seu perdão, vou me estender um pouco sobre a nomenclatura “coletor de produtos recicláveis”:
A maioria do lixo que eu e meus colegas coletamos, vão para aterros. Quando na verdade, como diz o nome da função, deveriam ir para empresas especializadas em reciclagem. Mas por que isso acontece? Porque as empresas não estão nem aí pra reciclar esse lixo! Por quê? Porque custa dinheiro, e o que eles querem é ter lucro! Que se phoda o Planeta! Uma das diferenças dessa visão dos empresários atuais com os povos nativos, é que na sabedoria dos povos nativos das Américas, toda decisão era tomada levando em consideração até as próximas sete gerações. O que eu posso fazer hoje para que as próximas sete gerações tenham uma vida tão boa quanto a que eu tenho? Nada egoísta, né?! É isso o que a gente vê no capitalismo?
Pronto, falei da praga moderna que destrói o mundo! Talvez o senhor como bom capitalista, pare de ler aqui.
Mas voltando ao assunto: Sou lixeiro e tenho uma pergunta: E se a gente (quando digo a gente me refiro a todo o povo trabalhador) resolvesse fazer uma greve forte? E ninguém fosse recolher os lixos das residências dos homens de bem e toda empresa capitalista?! Quem iria fazer o trabalho duro? João Dória? Duvido! Sei que esse é um serviço essencial! Por isso exijo salário de cinco mil reais e exijo também trabalhar apenas (é muito) quatro horas por dia, de segunda a sexta. Mas não é só nossa classe que é essencial para o bom funcionamento da sociedade! E se o pedreiro resolvesse cruzar os braços também? Quem construiria todo o concreto pensado por engenheiros que planejam a vida dos homens modernos?
Sou brasileiro e o ano em vigência é 2019. A reforma da previdência foi aprovada. Mas todo mundo sabe que o nome certo para essa deformação, é deforma! Quando o cara faz quarenta anos e não tem nenhuma especialização, mesmo tendo alguma ou muita experiência, não consegue mais emprego. Que dirá alguém com sessenta ou setenta anos!
Quero trabalhar no máximo quatro horas por dia, para ter tempo de estudar, me divertir, curtir minha família, mas também para as artes: a música, a pintura, a literatura, o teatro, o cinema. E também para praticar algum esporte, me prevenindo de doenças causadas pelo sedentarismo, tanto do corpo quanto da mente e do espírito! Todo ser humano é uma obra-prima de Deus, com incontáveis talentos e capacidades! Ninguém merece ficar a vida inteira numa linha de produção fazendo sempre a mesma merda de trabalho, inútil para seu próprio desenvolvimento como um ser perfeito!
Daí talvez o senhor argumente: Mas sou eu, o capitalista que te dá o emprego!
Eu respondo: Isso não é motivo para o senhor ficar cada vez mais rico e eu continuar pobre a vida inteira! O que estou tentando dizer é que o meu trabalho vale tanto quanto o de qualquer outro trabalhador, inclusive o seu! Nem todo mundo tem o dom de ser capitalista e ganhar dinheiro! Porque só alguns são privilegiados por esse dom?! É como se só os poetas fossem merecedores da prosperidade! Já pensou se fosse assim? O senhor conhece Pablo Neruda? Não?! Então seria um mendigo nesse mundo utópico, assim como muita gente que não tem o dom da poesia! Todos merecemos ser felizes!
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu