Lá no fundo, dentro de mim, tem algo que diz: Calma, essa
barbaridade não vai acontecer. Fique em silêncio e tenha fé. Mas também tem
outra voz que diz: Cara, a gente tem que lutar, senão o fascismo toma conta de
tudo e não vai perdoar ninguém. Daí minha razão (supervalorizada nos dias de
hoje, em detrimento da emoção e intuição), diz: A fé nesse momento, é só medo!
E ficar em silêncio, sendo que sua voz pode chegar a tanta gente, é omissão.
Não sei qual voz estou ouvindo no momento, tá meio confuso! Mas escolho
escrever!
Capitão Finado acabou de ser eleito democraticamente
Presidente do Brasil e está imerso em seus pensamentos:
Se eu soubesse que seria tão fácil ser eleito pelo voto
democrático, não teria ajudado a dar o golpe militar de 1964! Brother, é só a
gente mentir! Não sei se todo presidente eleito no Brasil usou desse artifício,
mas eu usei! E usei com prazer! Com prazer porque eu já mentia em casa, no
trabalho, na rua, aliás, adoro mentir! Só não sei porque esse povo votou em
mim, apesar dos momentos em que não consegui mentir! Dizendo o que penso na realidade!
Tipo que eu odeio os negros, os homossexuais e os pobres! Ou quando disse que
vou mandar esterilizar todo o povo preto e pobre das favelas pra não terem mais
filhos! Ou quando disse que se presidente eleito, vou fechar o Congresso! Ou
quando disse que a Constituição é uma merda! Esse negócio de Direitos Humanos
não vale de nada! Só serve pra defender o direito dos pobres e das minorias! E
disse também que minorias não têm vez, o certo é a maioria mandar, e a minoria
ficar quieta! Talvez porque eu tenha grande habilidade verborrágica! Ou melhor,
porque eu sei que sou espertão! E parte do povo gosta do cara que é espertão!
Acho que eu disse de um jeito minhas maldades que o povo achou que eram coisas
boas! Eu disse até que tem que matar uns trinta mil, mesmo que morram
inocentes! Mas como saber quem é criminoso e quem é inocente? Sei lá! Tanto
faz!
E pensou: Hoje vou matar um comunista qualquer só pra
comemorar a vitória!
Agora mudando de assunto, um dia Wilhelm Reich da Silva,
então no ensino médio, ouviu de seu professor a seguinte pergunta: Quem é
Wilhelm Reich da Silva?
Um aluno levantou a mão e disse em voz alta: Ninguém!
A partir desse dia Wilhelm começou a ser chamado pelos seus
colegas de Zé Ninguém.
Então também o chamarei assim. Zé Ninguém era um cara comum.
Vivia na periferia com seus pais, era pobre como muita gente, ou a maioria das
pessoas na periferia. Gostava de estudar e o conhecimento para ele era um
prazer. Tinha uma bela namorada, se dava bem com seus pais, era querido pelos
amigos, que não eram muitos, gostava de correr aos fins de semana, pois tinha
ouvido informações tanto da escola quanto da tv, de que manter a saúde era uma
coisa legal. Porém, Zé Ninguém, tinha um defeito: Não gostava de trabalhar. Sim,
ele tinha muito amor no coração! Pela namorada, pela família, pelos colegas na
escola e pelos poucos amigos. Mas odiava o fato de ter que perder seu valioso
tempo, preso em uma firma ou escritório, dez ou doze horas por dia fazendo
serviços burocráticos, mesmo sem saber direito o que era burocracia. Por isso
tentou e conseguiu um atestado de invalidez com um médico conhecido do bairro,
e se aposentou.
Um dia, no almoço, Zé Ninguém comeu feijão com arroz como se
fosse um príncipe, porque pra variar, não tinha mistura. E saiu pra dar uma
caminhada.
Foi atropelado e morreu! ♫
Morreu na contramão atrapalhando o
tráfego ♫
Acidente? Não! Quem o atropelou foi o Capitão Finado! O
Capitão achava que todo mundo era comunista, menos ele próprio! Tanto que após
o assassinato, voltou pra casa e dormiu como um anjo, Presidente do Brasil.
Mas ainda na esperança daquele podre imperdoável aparecer!
Será que não tem mais jornalista investigativo nessa país?

