sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mea Culpa


15 de Janeiro de 2219.
Escreveu a data no cabeçalho de seu primeiro relatório diário, antes de perguntar a seu mestre cientista:
Como vai funcionar?
Metempsicose.
O quê é isso?
Transmigração da alma, de um corpo para o outro, seja este do mesmo tipo de ser vivo ou não.
Então não é o corpo que viaja no tempo?
Não nesta máquina. Aqui, além de trocar de corpo, a alma também viaja no tempo.
Agora pedirei sua ajuda. Imagine que este é realmente o ano de 2219 e que uma tragédia aconteceu (talvez a terceira guerra mundial). Ou seja, um verdadeiro apocalipse. Ou talvez mudanças climáticas drásticas causadas pela ação irresponsável do homem (isso não é tão difícil de imaginar). Enfim, imagine um cenário caótico, desses que se vê em filmes de ficção científica. Você escolhe: guerra nuclear, zumbis, robôs, andróides, epidemias, extraterrestres, etc.
Voltando à história:
Alguns meses depois o cientista terminou a construção da máquina com o auxílio de sua bela ajudante.
Durante a construção, enquanto ela ajudava seu mestre, estudou bastante o projeto e já entendia bem como funcionava a máquina e o propósito de sua construção fora revelado a ela quando ainda era aluna de seu mestre. Eles conversaram e ela aceitou ser além de ajudante, a cobaia. A primeira viajante do tempo. Ela possuía as qualificações necessárias e também muita coragem.
Entrou na máquina. Seu corpo deitado em uma espécie de maca. O jovem senhor cientista perguntou se ela estava pronta, ela sinalizou que sim com a cabeça. Ele fechou os olhos, respirou fundo e ligou a geringonça. Em instantes, ela adormeceu e através de um monitor especial, o cientista pôde ver a alma da moça atravessando dimensões.
De repente ela se viu encarnada no corpo de uma índia. Malinche, seu nome.
Estava ao lado do grande Imperador Azteca, Montesuma II. Ano de 1519.
Montesuma II por sua vez, cumprimentava o espanhol Hernán Cortéz, que chegava a Tenochtitlán (que hoje é a cidade do México).
Montesuma ofereceu presentes aos espanhóis, sendo um bom anfitrião. Entre esses presentes, muito ouro. O que deixou os espanhóis completamente melindrados.
Malinche teve um caso com Cortéz. Já disposta a executar sua missão. Muito inteligente, aprendeu rápido a língua espanhola e servia de intérprete para os dois lados.
Um tempo depois, antes que a guerra começasse, e o império Azteca fosse completamente destruído, Malinche inventou recados para ambos os lados. Disse algo a Cortéz que o fez voltar à Espanha com seus homens. Com muito ouro, é claro.
A Montezuma ela disse que Hernán Cortéz e os Espanhóis concordaram em voltar para sua terra e que respeitavam sua cultura, mas o Imperador Azteca teria que acabar com os sacrifícios humanos e com o canibalismo, se quisesse impedir seu retorno e a guerra. Afinal, existiam outras formas de se cultuar o corpo, nosso templo sagrado. Mantendo-o saudável, por exemplo. E que existiam também outras maneiras de se honrar os deuses.
Assim foi feito. E de alguma forma, essa ação acabou influenciando aos outros conquistadores nas outras partes do continente.
Quando ela tentou voltar ao ano de 2219, dizendo as palavras “mágicas” que serviam como uma senha que a conectava à máquina do tempo, teve problemas. Vagou um tempo pelo espaço / tempo. E quando chegou ao seu ano, tudo estava diferente. A terra florida, as águas límpidas, o ar fresco, a temperatura agradável, os pássaros cantando, as pessoas sorrindo.
Procurou o laboratório, não encontrou. Procurou seu mestre, também não encontrou.
Não encontrou nem seu próprio corpo.  Ele não existia mais.
Ao realizar sua missão, mudou o destino de todo o planeta. Mas não se abalou, muito pelo contrário, se alegrou muito.
Vagou por um tempo pela Terra, ajudando as pessoas. Podia ser vista pelos clarividentes.
Foi cultuada como uma divindade.
Peço seu auxílio mais uma vez.
Vamos tentar juntos, imaginar como seriam as Américas e como seria o mundo, se os Europeus não tivessem invadido estas terras e assassinado milhões de índios.
 Pronto. Agora que já imaginamos, voltemos à “realidade”.
Em nome de toda a humanidade, peço perdão aos nossos irmãos peles – vermelhas.
 Perdoem-nos pelo GENOCÍDEO imperdoável, pela nossa ganância, e por ter lhes mostrado tudo o quê há de pior no ser humano.

Munay!!  

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