Sessão de música lenta e tocando “Every breath you take” do
Police. O menino ta em sua mesa, penstivo, sem saber se tenta a sorte ou vai
ao banheiro, pra disfarçar. O salão é pequeno, porém aconchegaante. E o cheiro
da fumaça, o escurinho e as luzes coloridas (além da música, é claro), até que quase
o estimulam a se levantar e tomar uma atitude de homem, chamando alguma menina
pra dançar. Ele não sabe que todo o Universo está assistindo “ao vivo”, seu
momento de insegurança. Se soubesse, se afogaria na privada do banheiro de
tanta vergonha. O baile é dos anos oitenta. O menino pensou:
Cara, daqui a pouco essa seleção acaba e eu poderei mostrar
minhas habilidades na pista de dança.
Mas ele não tava feliz. Foi quando num momento quase de um
segundo, ele avistou uma menina olhando para ele.
Será que essa menina tava olhando pra mim? Acho que não! Foi
muito rápido! Só sei que desviei o olhar, e quando olhei de novo ela não estava
mais olhando!
Mas para sua surpresa, depois de alguns segundos, a menina
olhou novamente. E ele instintivamente, olhou profundamente em seus olhos.
Cara, ela ta olhando mesmo pra mim!
O álcool ingerido estava acelerando seus pensamentos de
tartaruga.
Não posso perder tempo! Vou chamar pra dançar antes que a
sessão termine!
Mas sua timidez é mais forte que sua vontade. Ao invés de
levantar e ir chamar a menina pra dançar, começou a pensar, ou melhor ruminar
mentalmente o capim de sua burrice.
E se ela estiver só se divertindo comigo? Ela deve ter me
achado feio o bastante pra saber que ninguém dançaria comigo e ta olhando só
pra me deixar com esperanças e se eu for chamá-la pra dançar, ela vai dar o
maior fora, mandar eu me enxergar e ir dançar com outro! Mas ela não tem cara
de má! Muito pelo contrário! Que rostinho lindo! Parece um anjo! Não que eu já
tenha visto algum anjo ou anja, mas ela parece um bombonzinho! É linda demais!
Agora eu deixo pra você, de acordo com seu gosto, o que seria
um bombonzinho? Loira, morena; gorda, magra; alta, baixa; negra, mulata; bicho
de goiaba, camarão, etc.
Não importa! Você é só o narrador da história! Agora me
deixa ruminar! Me deixa divagar em minha mente! Pois a mosca branca só se acha
o máximo, porque ela sabe viver o momento presente! O passado já foi e não tem
como mudar! Enquanto que o futuro a Deus pertence! Quem é que sabe do futuro?! Então
me amo aqui e agora!
Eu não sei, muito menos a mosca branca! Porque ela vive o
momento presente! Ela pensa assim: No passado minha alto-estima era uma merda!
E eu não sei se vou morrer daqui a pouco! Afinal, essa é a única certeza que eu
tenho! De que vou morrer! Então pra que deixar pra ter uma boa alto-estima pra
outro momento, senão agora?! Aqui e Agora! Ah, já sei minha neura! É porque o
opressor está cortando verbas da educação tanto das universidades quanto do
ensino fundamental. Mas por quê? Porque o opressor sabe que uma pessoa instruída
não aceita ser escrava! Quem estuda, quem lê se torna rebelde! Mas não rebelde
sem causa! Muito pelo contrário! Rebelde com a causa do povo oprimido! As
elites querem que o povo permaneça na ignorância! Pois assim é mais fácil de
manipular! Acho que esse pobre narrador já disse isso, mas repito: Para as
elites, o povo é só mão de obra! E quanto mais barata for essa mão de obra,
melhor!
Saiu um pouco de seus devaneios e viu que a menina foi
dançar com outro mané.
Sabia! Ela tava só brincando comigo! Enquanto eu estava aqui
com meus devaneios, ela foi dançar com outro cara!
Mas pra sua surpresa, ela voltou e continuou olhando.
Putz, não acredito! O que será que essa menina viu em mim?!
Não tenho outra alternativa senão ir até ela e chamar pra dançar, mesmo se
tomar um toco! Afinal, não será o primeiro!
O menino, que nasceu no dia primeiro de Janeiro de dois mil
(o bug do milênio), tinha tudo pra tomar um toco lindo. Ele chegou e sem
delongas, perguntou:
_ Me dá um beijo?
Eu sei, não era de sua natureza ser tão direto! Mas acho que
ele estava inspirado pelo Espírito Santo. E ela respondeu:
_ What?
_ Me dá um beijo?
Ela continuou sem entender e deu a orelha a ele. E ele
percebendo que ela não falava português, mandou o seu inglês macarrônico.
_ Could you please, give me a kiss?
_ Sure!
Se beijaram e ele se sentiu como diz o poeta:
♫
Naquele momento a tristeza sumiu, meu mundo vazio se encheu de Amor ♫
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