Sentado à mesa de um boteco com sua peixeira sobre a mesa
refletindo o brilho dos olhos da mulher ao seu lado, estava Cícero. Do lado de
fora o deserto às vezes perturbado por uma ou outra alma entediada ou
gananciosa devido à corrida do momento. O dono do boteco serviu duas cachaças e
perguntou se eles queriam comer algo gorduroso; responderam que não e
continuaram com a conversa; na rua poeirenta, rolos de feno que deveriam alimentar
os equinos, bardotos e muares, estavam sendo levados pelo vento.
_ Se você me amasse de verdade, você faria!
_ Oh, minha flor... Como sempre, eu to tentando dizer que te
amo, mas as palavras fogem! Mas eu nunca fiz isso! Tenta se colocar no meu
lugar um pouquinho!
_ Não tem nada disso meu nego! Você é que tem que se colocar
no meu lugar! Se não for desse jeito, nunca terei uma vida digna!
Cícero, acabrunhado, estava se esforçando para conversar,
quando na verdade, queria estar pescando ou caçando codornas. A pinga subiu pra
cabaça e Cícero disse:
_ Você não precisa gostar de rock pra ter uma atitude
rock’n’roll; só precisa ter atitude! E nesse momento, eu não tenho essa
porcaria!
_ Que fuleragem é essa meu nego?! Do que vosmecê ta
falando?!
_ Sei lá minha flor! Acho que já to até delirando! E a culpa
é sua!
_ Como assim a culpa é minha?! A gente fez isso juntos!
Agora temos que fazer alguma coisa juntos, pra arrumar essa situação! Por
favor! Você consegue! É sobre nosso futuro! Se meus pais descobrirem, vão me
expulsar de casa! A gente não tem outra alternativa, senão ficar com você!
O silêncio caiu na mesa, no boteco e no mundo. Incomodada
com isso, a mulher disse qualquer coisa pra acabar com seu incômodo:
_ Se a gente não puder ser feliz aqui em Ouro Verde, podemos
fugir pra São Paulo ou Rio de Janeiro!
Cícero não esboçou nenhuma reação, com a garrafa pela
metade, já estava bêbado. E ela ainda incomodada com seu silêncio, continuou,
vendo a Chapada ao longe, pela janela do boteco:
_ Você não acha que a Chapada se parece com uma mulher? A
Chapada é a Terra grávida de diamantes! Não é à toa que a gente se encontrou! É
muito dinheiro que rola nessa corrida! Vamos tirar proveito disso!
Então Cícero teve uma epifania:
_ Tudo bem, vou fazer, mas só porque eu vejo suas cores
verdadeiras;
Brilhando por dentro,
Eu vejo suas cores verdadeiras;
E é por isso que eu te amo!
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem!
Suas cores verdadeiras!
Cores verdadeiras são lindas,
Como um arco-íris!
O corpo todo da mulher de Cícero estremeceu.
Cícero se levantou, colocou a peixeira na bainha, saiu do
boteco, montou em seu jumento, e cavalgou pela rua. Passando em frente à
igreja, viu e ouviu uma roda de samba; parou por alguns minutos, entorpecido.
Tentou continuar, mas seu jumento empacou. Desceu e respeitou a teimosia de seu
amigo. Continuou seu curso a pé, decidido a encontrar seu destino.
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