Sem se esforçar, pensava na infância. O amor de pai e mãe o
fazia se sentir livre! Mas ele se perguntava: Por que não posso sentir isso a
vida toda?! É tão bom!
A questão surgiu em sua mente enquanto sua carne era talhada
a chicote. No último golpe, sentiu sua pele se abrindo enquanto sentia uma
ardência insuportável.
Seu nome é Francisco Zumbi Jesus. Sempre foi submisso aos
donos, nunca se estressava e fazia tudo o que seu senhor mandava. Se o
Sinhozinho o mandasse vender milho na fazenda vizinha, vestido apenas com um biquíni,
ele fazia com prazer!
Mas então, porque ele tentou fugir? Culpa de um negro
comunista que vivia na senzala e com quem ele tinha contato às vezes na cozinha
da Casa Grande. Fantasias brotaram em sua mente: Terras abundantes para os
negros, igualdade, comunidade, enfim, Paz.
Nunca mais tentou fugir. Vivia como dava. Ou sobrevivia se
você preferir. Nunca foi de luta, muito menos agora depois da tortura. Nunca
foi rebelde e nunca tinha tentado fugir até aquela noite, e talvez por isso
achou que se fosse pego teria um tratamento diferente daqueles negros que
sempre tentavam a fuga. Estava enganado! Sofreu como um porco ao ser castrado!
Não que eu já tenha sido um porco, mas não deve ser bom, levando em
consideração os gritos que o bicho dá no momento da “cirurgia”, arrancando seu
maior orgulho sem anestesia.
Esqueceu tudo o que o negro comunista plantou em sua cabeça
e agora obedecia todo mundo, seu dono, sua dona, a Sinhá Moça e até outros
escravos. O que ajudou nessa submissão total, foram as leituras que fazia na
biblioteca da fazenda. Estudou a vida de Jesus, pois era seu sobrenome e a vida
de Buda. Ambos ensinando a paz de espírito. Nunca se revoltar, aceitar tudo sem
questionar. Sonhava com uma vida no Paraíso onde estaria na frente de Nosso
Senhor, vivendo a Paz dos Justos. Na frente porque depois que Jesus ocupou o
lado direito do Pai, vieram muitos que aprenderam o Caminho. Já tinha uns
cinquenta de cada lado do Pai. Abriram um auditório para os próximos, ou seja,
tinha agora uma galera sentada no mesmo aposento do Pai. Porém, quando estudou
sobre a vida de Zumbi dos Palmares, de onde veio seu nome, se encontrou num
paradoxo tão insuportável quanto as chicotadas. Quem está certo? Jesus e Buda,
ou Zumbi dos Palmares, que lutou até a morte pela Liberdade?!
Acho que o problema é esse:
To dando voltas e mais voltas para chegar ao lugar de onde
comecei. E o problema é esse também: Não sei onde comecei, ainda. Vai ver sou
um pouco filósofo! Isso me fez lembrar de um vídeo que vi do Monty Python: Era
um jogo de futebol, jogado só por filósofos famosos. A bola estava no meio do
campo, na marca da cal. Porém, estava todo mundo pensando... Ninguém tomava uma
atitude! A torcida enlouquecida gritava: “Chuta no gol, chuta no gol!” Até que
depois de minutos ou horas, um jogador (ou filósofo), talvez Sócrates ou Camus,
teve um “insight”: Gritou: Eureca! Pegou a bola com os pés, “dibrou” todo mundo
facilmente, pois estavam todos parados, pensando, e fez o gol. Nesse momento,
todo mundo inclusive adversários, correram para o abraçar!
Epifania: O que traz a Liberdade não é a Paz interior, essa
que se conquista na solidão! A Liberdade vem com o Amor. Amor aos Pais, Amor ao
Próximo e Amor ao “conje”.
Apenas a Paz interior traz a Sabedoria?
Essa é minha premissa de hoje.
Nesse momento penso o seguinte:
Melhor errar agindo do que por omissão.
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