Domingo de carnaval
Esse padre que vou falar agora, vive e prega o evangelho em
uma paróquia longínqua, no interior do interior de São Paulo. Todo domingo, com
os fiéis já acostumados, reza sua missa com sua voz potente de pintassilgo
mudo, com sua eloqüência de palhaço bêbado e simpatia mais tímida do que virgem
do século XIX na lua de mel. Sempre agradece a Deus por ter lhe dado uma vida
tão pacata! Ele acha que não merece! Porém, um dia tudo isso mudou; e foi
justamente em um carnaval; e o início foi no domingão de festa. Normalmente
ninguém se confessava nesse período, então o padre realizava suas preces dentro
do confessionário; imagina então a surpresa do padre com a presença de um rapaz
do lado de fora do confessionário, querendo contar seus pecados.
“Padre, minha mulher quer se casar, mas acho que não estou
preparado! Já me casei uma vez e não tive uma boa experiência! Eu que sempre fui
um solteiro valente, corajoso e ativo; quando casei fiquei frouxo e maricas! Até
minha voz mudou! Tinha medo de tudo e fiquei até deprimido! Minha namorada de
hoje está me cobrando muito esse casamento! Não agüento mais tanta pressão!
Preciso de ajuda! O que o senhor acha?
O padre resmungou algumas frases em forma de conselho, se
despediu do rapaz e deu a assunto por encerrado. O rapaz não entendeu nada e foi embora num misto de esperança e confusão.
Segunda feira de carnaval
O padre se surpreende de novo, enquanto realizada suas
orações no confessionário; ouviu uma voz estranha e num primeiro momento não
sabia se era um homem ou uma mulher; até que a fiel com voz estranha se
pronunciou:
“Padre, meu namorado é um machista, sexista, racista,
fundamentalista e baixista!
“Baixista?!”
“Isso! Numa banda de forró!”
“Nossa!”
“Pois é, o que devo fazer?”
“Minha filha, por favor, seja mais clara! Não consigo
compreender seu problema!” Resmungou o padre, mas por incrível que pareça, a
mulher entendeu.
“Padre, nem eu me entendo! Eu quero me casar, mas ao mesmo
tempo, eu odeio todos os homens! Por causa que um homem me abusou quando eu era
criança!”
O padre balbuciou algo que a mulher não entendeu; ela
desistiu e foi embora decidida a consultar um psicanalista, já que o homem de
Deus se recusava a dar uma resposta ao seu problema.
Terça feira de carnaval
O padre só foi rezar de novo no confessionário, de teimoso!
Enquanto fazia suas humildes orações, ouviu uma voz de trovão do outro lado da
janela:
“Padre, eu pequei!”
“O que você fez meu filho?”
“Filho não, Pai!”
“Como assim?”
“Sou o pai da menina que veio aqui na segunda feira se confessar.”
“Ah, acho que entendi!”
“Depois você vai entender!”
“Ok, o que lhe traz aqui?”
“Padre, o lance é o seguinte: Minha filha quer se casar! Um
casamento místico, saca?! Mas o noivo é muito medroso! O cara acha que se casar
e tiver filhos, vai perder sua própria vida! Mas eu acho que é o contrário! Na
verdade, ele nunca foi livre; e só será livre no dia em que se render à vida e
suas convenções! Só será livre no dia em que se render à sua própria natureza!
Natureza que eu criei! Digo, que Deus criou!”
Quarta feira de cinzas
No dia seguinte o padre foi rezar a missa de cinzas; e após
todos os rituais costumeiros, realizou a missa; na hora da homilia todos
ficaram surpresos! O padre falou claro, limpo, cheio de razão, emoção e beleza!
E quando terminou a missa todos os fiéis foram lhe dar os parabéns por tão
sublime homilia e missa!
O padre achou tudo aquilo muito estranho e quando todos os
fiéis saíram, disse ao sacristão:
“Isso ta muito estranho! Não estou entendendo nada!”
“Se o senhor quer saber, eu estou entendendo muito menos!”
“Será que tudo isso tem a ver com as pessoas estranhas que eu
ouvi a confissão neste carnaval?”
“Que pessoas?”
“As pessoas que vieram se confessar no domingo, segunda e
terça! Você não as viu?”
“Não vi ninguém, seu padre! E não vi porque não veio ninguém!
Eu fiquei na igreja o carnaval inteiro! E só vi uma coisa estranha!”
“O que?”
“Vi o senhor usando batom na segunda feira!”
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