O cara era um amigo do amigo do amigo dele. Conheceram-se numa festa na casa do amigo em comum; o amigo do amigo, descolado e com a namorada, era a atenção da festa; tomava todas e fazia piada com todo mundo; mesmo não conhecendo quase ninguém. Já o personagem desse negócio era conhecido da família e tido como um cara engraçado; mas com desconhecidos, ficava tímido. O personagem desse negócio estava com sua namorada também, mas após ver a forma liberal com que o cara tratava a sua, quase sentiu vergonha de estar amarrado. Tanto que viu o cara cobiçando sua namorada e não conseguiu reagir; o cara era um encantador de serpentes! E no final da festa, o cara perguntou a ele, o personagem, se aquela menina era sua namorada:
É sua mina?
Pára fulano! Disse a outra menina que estava com o cara.
Calma, só to perguntando!
E o personagem disse:
Não.
Assim, seco, quase com vergonha.
O cara deu uma babada, disfarçou e só parou quando a menina
que o estava acompanhando, deu um breque nele; menos por ciúmes do cara do que
por pena do personagem.
Uma semana depois se encontraram de novo; e agora uma dica:
Se encontraram na banca de jornal do amigo em comum, que hoje não é o
personagem principal, apesar de tê-lo como a um irmão. O engraçado é que o cara
também ficou cismado com o personagem; e tanta cisma o fez convidar o
personagem para ir até sua casa tomar um uisque, já que o amigo em comum disse
ao cara que o personagem era forte pra bebida. Assim foi feito: O cara convidou
e o personagem aceitou.
Agora mais uma dica: O personagem chegou no condomínio do
cara com o fusca que o cara vendeu para o personagem! Nossa, que confusão! Pois
é, isso é um texto hermético que deve ser compreendido por poucos. Kkk
Então o personagem chegou no casarão do cara, se olharam com
desconfiança e curiosidade; e a diferença é que o cara estava consciente dessa
curiosidade e o personagem estava completamente no escuro! Era um ignorante
total. Coitado.
O cara apresentou a mãe para o personagem e ansioso, levou o
personagem para tomar umas na sala reservada. O personagem ficou surpreso ao
perceber que apenas alguns goles do uísque do cara, o fez falar merda: Deve ter
ácido nessa porcaria – pensou o inocente – quero cair fora daqui! O instinto de
defesa não se ausenta com a ignorância.
Porém, o encantador de serpentes, vendo que o personagem
estava lutando com todas as suas forças para não perder o controle, colocou o
aparelho de som pra tocar AC/DC e Joe Satriani, que o maluco sabia que o
personagem curtia.
O personagem ficou quase deslumbrado! Mas não se entregou!
Antes de que tudo se arruinasse, se despediu e saiu correndo.
Entrou no fusca, ligou o rádio e colocou a fita cassete do
AC/DC que o encantador de serpentes o presenteou com a mais bela das intenções.
O personagem se perdeu dentro do condomínio que parecia
gigante! Não fazia a mínima idéia de como sair daquele lugar; girou, girou,
girou e nada de achar a saída! E o pior era que ele tava curtindo o rolê! Pra
ele, era um passeio de fuscão, curtindo AC/DC bêbado! Só alegria!
No dia seguinte acordou sacudido e foi ao trabalho. Lembrava
de quase tudo, como sempre; só vários anos mais tarde ficou encucado com o fato
de que não se lembrava como havia saído daquele labirinto.
Antes de lembrar, passou por poucas e boas! Tanta coisa ruim
que nem vale a pena dizer aqui! Enfim, sofreu como um vilão de desenho animado!
Até que perdeu a fé.
Depois de tudo isso, encontrou um amigo de antigamente que
disse a ele após uma breve conversa:
O importante é não perder a fé!
Como era um cara esquisito, levou isso como um desafio e
perdeu a fé de novo.
Sofreu mais ainda! Mais do que achava que podia suportar.
Um dia, sentindo toda a dor do mundo (pelo menos parecia),
dormiu e sonhou.
Sonhou com aquele fatídico dia em que se perdeu bêbado no
condomínio do cara; e se lembrou do que aconteceu no intervalo entre estar
perdido e acordar em casa no dia seguinte:
Chegou um momento em que ele desistiu de procurar a saída e
estacionou o fusca numa curva aleatória; no sonho viu uma luz vinda do céu;
envolveu o fusca com ele dentro; e naquele momento em que ele ouvia AC/DC, tudo
mudou; começou a ouvir Ode to joy de Bethoven sem saber de onde vinha; a luz e
a música tiraram ele de onde estava e o levou até a saída. Nem precisou passar
pela portaria.
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