segunda-feira, 25 de maio de 2015

Choque-Rei

Ele saiu de casa de carro com sua irmã para assistir ao jogo entre Palmeiras e São Paulo. Sem camisas do time, tinham medo. Tem muito fanático por aí. Sua mãe, como sempre, disse para eles levarem agasalho e guarda-chuva. “Não mãe, não precisa! A gente vai de carro!” “Mas e se chover lá no estádio?!” “Que isso mãe?! Tá o maior sol!” Riram e saíram.
Um clássico paulista, ou clássico brasileiro, ou clássico mundial, afinal de contas o futebol brasileiro ainda é o melhor do mundo!! (apesar dos sete a um). Chegaram ao Pacaembú e ele estacionou o carro no primeiro espaço que achou fora da linha de alcance dos flanelinhas. Era uma casa, provavelmente alugada... por flanelinhas profissionais. Mas na hora não se deu conta disso. Tudo bem. Foram andando até o estádio, pois era perto da casa. Já tinham os ingressos, chegaram até a entrada e os apresentaram. O rapaz que estava recebendo os ingressos, que por coincidência era um polícia, só olhou pra cara deles e devolveu os ingressos. Ele não entendeu nada e tentou dar os ingressos novamente. E novamente o gambé devolveu. Então ele teve um lapso de consciência e percebeu que ali era a entrada da torcida do São Paulo! O time adversário!
Saíram disfarçadamente e passado o susto, foram para a entrada principal, que era a entrada para a torcida do Palmeiras naquele dia. Até hoje ele abençoa aquele gambé.
Logo no primeiro tempo, o São Paulo fez um a zero. Quando terminou o primeiro tempo, estavam tranqüilos. O time do Palmeiras estava ruim, mas sabiam que em clássico, nem sempre o time que está melhor vence. Um dia se ganha, outro se perde. E a vida continua.
Antes de continuar, devo dizer quem sou eu, entende?! Além de ser o Deus do futebol, sou o narrador da história, entende?! E agora vou fazer uma breve descrição dos dois personagens até aqui envolvidos na história.  Ele era lindo, alto, moreno, magro, mas não muito, olhos e cabelos castanhos, charmoso e sensual. Ela, como era sua irmã mais nova, possuía algumas características semelhantes a ele. Também linda e também sensual. A diferença era que ela era uma pessoa mais legal do que ele. Pelo menos era o que o povo dizia. Mas na verdade, não eram tão lindos assim! Acho que estou sendo influenciado pelo autor.
Mas agora que já me identifiquei, voltemos à história.
No intervalo do primeiro para o segundo tempo, ele ligou o walkman e colocou os fones de ouvido. Sintonizou na rádio FM que costumava transmitir jogos de futebol. Começou o segundo tempo. Jogo equilibrado, nenhum dos dois times estava lá essas coisas. No rádio, aquela coisa, os caras achando que eram comediantes ao invés de comentaristas. Pior que era só piada sem graça.
Ele se entediou e decidiu mudar de estação. Mas quando foi apertar o botão, houve uma interferência no sinal e de repente começou a tocar uma música estranha, com tambores, um órgão e violinos dissonantes. Ficou curioso e não mudou de estação. Imaginou que fosse uma rádio pirata, ou que ele havia entrado em outra dimensão. Então uma voz cavernosa e distorcida, começou a dizer coisas também estranhas em cima do instrumental caótico:
“Alguns jogadores de futebol, senão muitos! Ganham milhares ou milhões de reais pra chegar em campo e não jogarem nada! Quanto ganha um professor em nosso país? Todos sabem, uma miséria! E quando fazem greve para reivindicar, com méritos, um salário melhor, são tratados como bandidos! Outro dia um amigo meu me disse que para pagar esses salários milionários dos jogadores de futebol, os dirigentes, poderosos que são, fazem entre outras coisas, lavagem de dinheiro com tráfico de drogas e tráfico de armas. Aí eu pergunto: Porque eu tenho que me adaptar a essa sociedade de merda?! Já me disseram que eu não tenho o direito de reclamar, porque tem gente em situação muito pior que vive sorrindo. Sei lá, de repente estão esperando o paraíso no outro mundo! Afinal não é isso que prega a sociedade, através da religião?! Não que eu seja contra a alegria, mas enquanto o povo sorri, passando necessidade com um pau enfiado no rabo, os poderosos, ricos, que muitas vezes enriquecem através da corrupção, dinheiro roubado do próprio povo, riem da nossa cara e pregam que é preciso ser humilde e aceitar a situação precária com simplicidade, pois é disso que Deus gosta.”
Enquanto ouvia aquele desabafo revoltado, assistia ao jogo chato. A transmissão voltou ao normal e voltaram também, as piadas sem graça. Desligou o rádio e ficou pensando naquelas palavras. Já quase no final do jogo, perguntou se sua irmã queria alguma coisa, uma cerveja, um amendoim. E enquanto ele perguntava, o Palmeiras empatou o jogo. Comemoraram muito! Não podia ser diferente.
O jogo terminou um a um. Saíram do estádio, satisfeitos. Empate com gosto de vitória. Ele resolveu cortar caminho até o estacionamento para não encontrar com a torcida do São Paulo. Subiram um escadão e lá em cima viram um sãopaulino sendo espancado covardemente por dois palmeirenses. No meio da rua, o trânsito parou e os dois palmeirenses apoiaram o sãopaulino no capô de um carro parado e socaram até tirar sangue. Continuaram andando sem falar nada, afinal estavam assustados com a situação. Aquilo não era rotina para eles. Mas lá na frente, antes da esquina, já perto do estacionamento, surgiu uma multidão de torcedores do São Paulo. Ele não tremeu. Nem ela. Acho que não tinham consciência do tamanho do perigo. Ele pegou na mão dela e continuaram caminhando como se fossem namorados dando um inocente passeio. No meio da multidão, que tomava toda a rua, alguém gritou: “ E aí, palmeirense!” Ele quase olhou! E nisso que ele quase olhou, alguns perceberam que eles realmente eram palmeirenses. Através da linguagem corporal, talvez.
E é aí que eu, o Deus do futebol, entro. Soprei no ouvido dos mais exaltados e eles pensaram: “Deixa pra lá, eles são muito lindos pra morrer tão cedo!”
Chegaram ao estacionamento, entraram no carro e se olharam. Nenhuma palavra. Apenas um sorriso nervoso. Só iriam se dar conta do perigo que passaram, algum tempo depois. Ele ligou o carro e saíram.

E choveu torrencialmente.

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