sábado, 17 de dezembro de 2016

Toca Raul!


Dizem que o brasileiro não pode ver uma fila que já vai entrando. Seja fila de banco, fila do pão na padaria, fila do INSS, fila do cinema, fila para entrar em algum show (nessa levam até barracas para acampar dias antes do show), etc.
Mas essa fila de que vou falar é uma fila diferente. Acho que já foi uma fila tradicional algum dia, alguma época; mas hoje se não é rara, já não existe mesmo. É a fila do Realejo. Sei que muitos nem sabem do que se trata. O Realejo é um instrumento musical, se não me engano, parente da sanfona. Emite o som ao ser girada sua manivela. Podiam-se ver muitos desses nos antigos parques de diversões ou circos. O consulente chegava até o instrumento, que era manipulado por um senhor que recebia o dinheiro e girava a manivela, tocando a música. Enquanto um periquito tirava com o bico, um pedaço de papel de dentro de uma caixa/arquivo. E nesse pedaço de papel estaria escrito a sorte do consulente.
Bom, não falarei especificamente da fila, mas das pessoas que nela se encontram, não por serem viciadas em filas, mas porque precisavam de uma orientação e não sabiam mais onde procurar. São sete pessoas. O Realejo está em um parque de diversões, no interior do Brasil, em uma Sociedade Alternativa.

Faixa 1
João é o primeiro da fila. Paga ao senhor e diz as palavras mágicas “ Toca Raul! ”, para que o periquito faça seu trabalho. O senhor gira a manivela e o Realejo começa a tocar uma versão instrumental de “Metamorfose Ambulante”.
João é um jovem recém-casado, que assim como muitos, se casou muito cedo e sentia que havia atropelado fases da vida. Após o casamento começou a perceber algo estranho. Ouvia vozes dentro de sua cabeça, tinha a impressão de que as pessoas ouviam seus pensamentos e às vezes sentia presenças espirituais por perto. Não tem religião e não pretende ter. Tem até certa curiosidade a respeito do plano espiritual. Mas é pobre, precisa trabalhar muito para pagar as contas e acredita não ter tempo a perder com bobagens. Acha que isso é só uma fase e decidiu mergulhar ainda mais no trabalho. Porém há coisas de que não se pode escapar. Sente muito a pressão e como ganha muito pouco, tem dificuldades para pagar as contas. Só se matar de trabalhar não estava resolvendo nada. Então começou a beber aos fins de semana para tentar relaxar um pouco. Só conseguiu arranjar briga com sua esposa. Ela odiava que ele bebesse porque tinha más recordações de seu padrasto alcoólatra. Ele dizia que precisava daquilo pelo menos aos finais de semana, senão explodiria. Ela estava intransigente e como sabia da existência de Universos paralelos (não por ser sábia, mas porque os “vê” desde que nasceu), sabia também do trabalho espiritual que João deveria buscar para acabar com a ansiedade. Mas ela não podia falar nada a respeito e mesmo se pudesse falar sobre o assunto, não saberia como. Só sabia que sabia naturalmente que o homem completo é espírito e matéria.
João pegou o papel tirado pelo periquito e leu:
Música: Eu também vou reclamar
Dois problemas se misturam
A verdade do Universo
A prestação que vai vencer
Entro com a garrafa
De bebida enrustida
Porque minha mulher
Não pode ver
João decidiu pedir ajuda espiritual a uma curandeira da vila. Continuava trabalhando bastante e bebendo aos finais de semana (escondido da esposa), as duas coisas com moderação. Viva Raul!

Faixa 2
José é o segundo da fila.
José, ao contrário de João, era um homem resolvido e que se dava bem com todo mundo. Em casa, no bar ou em qualquer lugar que frequentava, era o centro das atenções. Sempre simpático com todos, sabia como fazer amizades e mantê-las. O que o levou àquela fila foi uma coisa que aconteceu há muito tempo atrás.
Ele estava no trabalho quando chegou um menino avisando que dois bandidos haviam invadido sua casa e faziam sua esposa e filhos de refém. Saiu desesperado do trabalho e chegou na sua casa a tempo de ver os policiais escoltando os bandidos que levavam junto sua esposa. Ficou uma semana angustiado com aquela situação, até que a polícia conseguiu localizar sua esposa sã e salva. Os bandidos conseguiram escapar.
José, apesar de aliviado com o retorno de sua esposa, estava revoltado. Não podia admitir que ninguém invadisse sua própria casa e fizesse aquilo com sua família. Foi então que com a ajuda de alguns amigos, conseguiu descobrir a identidade dos bandidos. Os buscou, os localizou e os matou. Porém, a raiva deu lugar à culpa. Não conseguia viver com aquelas mortes nas costas.
José disse as palavras mágicas ao periquito e a ave tirou o pedaço de papel, enquanto seu senhor girava a manivela do Realejo. Antes de pegar o pedaço de papel, José sentiu que pisou em alguma coisa e se abaixou para ver o que era. Era uma chave e nela estava gravado a palavra AMOR. José perguntou ao senhor do Realejo se a chave era dele, e o velho disse que não, que tinha certeza que aquela chave era dele, José. Agradeceu, guardou a chave no bolso e abriu o pedaço de papel com sua sorte.
Música: Que luz é essa?
É a chave que abre a porta
Lá do quarto dos segredos
Vem mostrar que nunca é tarde
Vem provar que é sempre cedo
E que pra todo pecado sempre existe um perdão
Não tem certo nem errado
Todo mundo tem razão
E que o ponto de vista
É que é o ponto da questão

Faixa 3
Maria é a terceira da fila. Como todo ser humano, Maria tem suas preocupações. Mas está ali apenas porque estava passeando pelo parque e achou bonita a música do Realejo. Enquanto esperava sua vez de tirar a sorte, avistou um fiel da igreja que frequentava e se lembrou de uma conversa que teve com o pastor da mesma igreja:
_ Pastor, espero que Deus me perdoe, mas não aguento mais sofrer! Como o senhor sabe, perdi entes queridos e descobri que eles eram o meu chão. Estou completamente perdida, e não sei mais o que fazer!
_ Maria, Deus sempre perdoa seus filhos. Mas você não pode se entregar para a tristeza. Seus entes queridos estão agora com Deus. Sentir dor é coisa do inimigo. Deus quer nos ver sempre felizes. Você acha que não tem mais nada na vida, nem amigos, nem amores, nem dinheiro, mas na verdade, você precisa permanecer alegre assim mesmo só pelo fato de estar viva.
_ Mas pastor, se Deus criou tudo, Ele também deve ter criado a dor. E ela deve ter algum motivo!
_ De jeito nenhum, minha filha, a dor vem do inferno, Deus é só alegria!
Maria ficou para assistir o culto e deixar todo seu mísero dinheiro para o dízimo.
Despertou com o senhor do Realejo pegando em seu ombro com um grande sorriso enquanto girava a manivela. Ela voltou a si e pegou o pedaço de papel com sua sorte.
Música: Sim
A dor é uma coisa real
Que a gente está aprendendo a abraçar
E não temer
A velha história do mal
Tão conhecida
Que já nem pode mais nos assustar
Maria guardou aquele pedaço de papel para o resto de sua vida e sempre que estava se sentido mal, lia, respirava fundo e adquiria a paciência necessária para atravessar momentos difíceis, sabendo que tudo passa; os maus e os bons momentos. Viva Raul!

Faixa 4
Lucas é o quarto da fila. Antes de entrar na fila do Realejo para tirar a sorte, Lucas estava dando uma volta pelo parque, tropeçou em um rapaz que estava na barraca da pescaria e pediu desculpas. O rapaz o mandou para aquele lugar, Lucas baixou a cabeça e continuou andando. Mais à frente, ele ouviu o que uma mulher estava dizendo ao seu filho que acabara de apanhar de um coleguinha:
_ Seu pamonha! Você precisa aprender a se defender! Que menino mole!
Lucas agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele e se sentiu muito mal com sua covardia.
Continuou andando, deu uma volta inteira no parque e quando chegou na mesma barraca da pescaria, tropeçou novamente no mesmo rapaz que estava jogando. Pediu desculpas novamente, o rapaz o mandou praquele lugar de novo. Lucas se lembrou do momento anterior e achando que se ficasse quieto seria chamado de pamonha, deu um soco no rapaz, que fugiu correndo e chorando. Lucas ficou orgulhoso de si mesmo e foi em direção à saída do parque, quando passou por ele um vendedor de cordel que gritava o seguinte:
_ Olha o Cordel! Quem vai querer?! Não seja apenas mais um ignorante! A Paz e o Amor devem reinar! Como dizia o Pai, “Se lhe baterem na face, dê a outra”! Lucas ainda agarrado em sua neurose, pegou aquilo pra ele também, sentiu-se mal de novo, e pensou confuso como poderia saber qual seria o momento de ficar quieto e qual era o momento de reagir. Quando viu o Realejo e decidiu entrar na fila. Enquanto estava na fila, começou a sentir uma dor aguda no peito. Há algumas semanas vinha sentindo aquela dor estranha, mas não falava sobre o assunto com ninguém pois tinha pavor de hospitais e igrejas. Sentia a dor calado. E como costumava fazer nesses momentos, divagou: Será que as plantas sentem dor? Algo me diz que essa dor que sinto no peito é um processo de amadurecimento. Acho que sim! Que as plantas sentem dor. Quando ela começa a quebrar a casca da semente e buscar a luz do sol. Mas até alcançar seu tamanho maior e pleno, deve haver fases. Acho que ela não cresce o tempo todo. Devem haver momentos de prazer para contrastar com a dor. Esses momentos podem ser quando ela está sendo regada, e quando está recebendo o carinho de seu criador, ou de um pássaro, ou de uma borboleta, ou uma abelha. E após o pequeno momento de alívio, se inicia novamente a busca pela iluminação do sol e das estrelas. Enquanto divagava, levou um esbarrão de um homem e ficou em dúvida, se ficava quieto ou se brigava. Na dúvida, como chegou sua vez de pegar o papel da sorte no Realejo, ficou quieto e disse as palavras mágicas: “Toca Raul”!
Música: O segredo do Universo
Você está no mundo, só tem uma opção
O caminho é longo, homem
Ser feliz ou não
Queimando a consciência e a sequência que ela traz
Momentos diferentes que confundem a tua paz

Faixa 5
Sofia é a quinta da fila. Naquela tarde, antes de ir ao parque, Sofia foi ao psiquiatra:
_ Sofia, você precisa tomar esse remédio! Senão você não vai melhorar!
_ Mas doutor, eu odeio tomar remédios! Eu já tomo um e a depressão está controlada! Essas dores que sinto são esporádicas e não creio que seja necessário tomar esse remédio! Ele é muito forte! Eu pesquisei sobre ele! Não quero ficar andando por aí como uma morta-viva!
_ Tudo bem então Sofia, eu só quero que você tenha uma vida normal. Você precisa arrumar um emprego e namorar, essas coisas normais como eu disse.
_ Mas doutor, emprego está difícil!
_ Eu sei, mas você tem que pegar aquilo que aparece! Não dá pra fazer só o que a gente gosta!
_ Eu discordo doutor! Acho que é perfeitamente possível viver fazendo o que se gosta pra não precisar trabalhar. Como já dizia o querido Dalai Lama, eu acho. Só quero ser feliz doutor!
_ Tudo bem, é você quem escolhe! Depois não diga que eu não avisei!
Sofia saiu do consultório pensativa como sempre. Aquela não era a primeira vez que eles tinham aquele tipo de conversa. Na verdade, ela não entendia por que o psiquiatra sempre saía pela tangente quando ela puxava o assunto para temas mais profundos, como sentido da vida, por que morremos; por que existe a dor; por que todos são obrigados a ter um emprego de dez horar diárias enquanto poderiam aproveitar mais o tempo estudando, praticando alguma atividade física, namorando, enfim, vivendo plenamente.
Sofia disse as palavras mágicas e tirou sua sorte:
Música: É fim de mês
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é que você vive alegremente
Acomodado e conformado de pagar tudo calado
Ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer
Ele só quer, só pensa em adaptar
Na profissão seu dever é adaptar

Faixa 6
Jacinto é o sexto da fila. Jacinto estava com a família no parque. É um homem que se considera justo. Sempre faz de tudo para viver de acordo com os preceitos cristãos. Jacinto é um bom homem, honesto e trabalhador. Mas não foi sempre assim, quando jovem fez muita coisa que hoje considera muito errado. Apanhou muito de seu pai, mesmo depois de adulto. E só entrou na linha quando conheceu a mulher que viria a ser sua esposa. Jacinto ama muito sua família e faz de tudo para fazê-los felizes. Enquanto Jacinto esperava na fila do Realejo, sua esposa chegou trazendo seus dois filhos pelos braços. Eles haviam brigado e um deles estava com a camiseta rasgada. Jacinto perguntou o que havia acontecido e sua esposa contou que o mais velho havia batido no mais novo por causa de algodão doce. Jacinto não pensou duas vezes e deu uma surra no menino ali mesmo na frente de todo mundo. Ainda batia no menino quando chegou sua vez de dizer as palavras mágicas para tirar sua sorte. O velho senhor do Realejo olhando sério para Jacinto, disse enquanto dava a ele seu pedaço de papel:
_ Às vezes a resposta é imediata.
Música: Novo Aeon
Já não há mais culpado, nem inocente
Cada pessoa ou coisa é diferente
Já que é assim, baseado em que
Você pune quem não é você?

Faixa 7
Frederico é o sétimo da fila. Frederico tem uma vida no mínimo exótica. Passou dez anos nas montanhas do agreste nordestino, jejuando e contemplando a natureza. Ele é um espírito amante da liberdade, mas talvez por carma, veio a esse mundo preso; destinado a ter uma vida comum. Deveria crescer, casar, ter filhos, trabalhar e morrer como um espírito aprisionado nos grilhões de seu carma. Mas como amante da Liberdade, falhou em aceitar esse destino, mesmo inconscientemente. Com a ajuda de espíritos de Luz, iniciou sua busca por uma vida Livre e Plena. O caminho foi longo, tortuoso e cheio de dor. Até o dia em que decidiu ir para as montanhas. Foram dez anos de uma vida livre da prisão da sociedade. Mas após dez anos sem conseguir a sonhada Iluminação, desistiu de sua missão e então voltou para casa. Não encontrou amigos nem família. Procurou emprego e também não conseguiu nada. Já estava começando a questionar se a decisão de ir para as montanhas havia sido a melhor coisa a ser feita. Agora estava morando nas ruas, pois estranhos estavam em sua antiga casa.
Estava um dia andando pelas ruas quando um menino lhe deu um panfleto fazendo propaganda do parque de diversões que estava na cidade. Frederico foi ao parque, por que apesar de ter perdido tudo, inclusive a esperança, uma das coisas que aprendeu nas montanhas, foi acreditar nos sinais que a vida dá.
Chegou sua vez de tirar a sorte. O velho senhor do Realejo olhou para Frederico com os olhos brilhantes e sorrindo disse:
_ Como vai a sua banda?
_ Como disse? Questionou Frederico.
_ Sua banda de rock.
_ Senhor, eu adoro rock. Mas infelizmente não tenho nenhuma banda.
_ Ainda não. Disse o senhor. Quais são as palavras mágicas?
_ Toca Raul!
O periquito pegou um dos papéis e passou ao senhor que por sua vez, passou a Frederico que leu:
Música: Loteria da Babilônia
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo
Que você está certo
Você aprendeu tudo
Enquanto estava mudo
Agora é necessário
Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema da vida
E os macetes do xadrez!

Faixa bônus
Cinquenta anos após esse episódio no parque de diversões, a pequena cidade falhou no seu desejo de lutar contra todo tipo de progresso, e inaugurava sua primeira linha férrea. A linha atravessava toda a cidade. O trem percorreu todo o percurso completamente lotado, mas quando chegou na penúltima estação, quase todos desceram, ficando apenas sete passageiros velhinhos, que desceriam na última estação. Eram sete horas da noite e os sete passageiros eram os sete da fila do Realejo: João, José, Maria, Lucas, Sofia, Jacinto e Frederico. O trem fechou as portas e continuou sua viagem em direção à última estação. No meio do percurso Frederico pôde avistar as montanhas que um dia passara dez anos de sua vida procurando a liberdade, e sorriu. João e José estavam sentados lado a lado. Se conheceram em uma festa há alguns anos atrás e se tornaram grandes amigos. Lucas e Sofia também estavam sentados juntos. Se conheceram na escola, e veio nessa sequência: amizade, amor, casamento e filhos. Maria lia um livro, distraída e feliz por ter escolhido a profissão de terapeuta. E Jacinto como se estivesse liderando o grupo, estava de pé na frente do vagão apoiado em sua bengala, admirando a bela paisagem.
De repente o trem parou de fazer barulho e começou a decolar. Os sete passageiros se olharam, mas não se assustaram. Sabiam exatamente o que estava acontecendo. Olharam para o céu o viram uma luz muito forte que iluminava todo o interior do vagão. Se extasiaram quando viram Deus deslizando no céu entre brumas de mil megatons. E viram o mal, vindo de braços e abraços com o bem, num Romance Astral.

Toca Raul!

Nenhum comentário: