terça-feira, 30 de julho de 2019

Só pedimos o básico


A rua estreita de paralelepípedos separa duas fileiras de casas coloridas. Mas só fisicamente, nos corações estão todos unidos pela pobreza. Em uma das pontas descansa um coreto e a igreja. Juan está sentado na varanda de um bar com seu filho Tito. No bar tocando Buena Vista Social Club na rádio América Latina, deixa no ar um cheiro da Cuba revolucionária. Mas a pátria de Juan e seu filho adolescente é o Chile de Salvador Allende e Pablo Neruda. Juan se lembra das lutas, das perdas e de algumas vitórias. Porém o gosto da derrota para o regime ditatorial, insiste em não sair de sua boca, apesar da cerveja quente que beberica enquanto se recorda do passado, buscando a melhor forma de passar isso a seu filho, sem tentar impor nada. Afinal, no final das contas, nossos filhos vão fazer sempre o que querem, principalmente quando têm um espírito forte. Mas só de falar, Juan já se sente com o dever cumprido. Lembrando das aulas de literatura, ele se lamenta: Infelizmente não tem como eu mostrar pro meu filho as atrocidades da ditadura. Só posso contar.
_ Filho, tem muita coisa que você precisa saber sobre Che Guevara, sobre Fidel Castro, Carlos Marighella, Frei Tito, Emiliano Zapata e tantos nativos que lutaram com honra pra defender nosso país e toda américa latina dos regimes totalitários que gritam em nossos ouvidos que apesar da pobreza, da repressão e da censura, vivemos em uma democracia.
Tito ouvia seu pai e ao mesmo tempo curtia a música do bar. Sem saber que esse momento marcaria pra sempre sua vida. Às vezes um momento aparentemente simples, pode tatuar fundo na alma coisas que apesar de tudo, permanecem pra sempre gravadas. Tito não é mais um menino inocente. Já perdeu a virgindade, já fuma, já bebe, já sabe respeitar as mulheres a exemplo do respeito que seu pai demonstra com sua mãe e já leu muita coisa. Ainda não entende porque tantos odeiam o socialismo. Não entende o por que algumas pessoas podem ser contra o direito de todos, principalmente contra os direitos dos mais pobres, de ter um mínimo de dignidade na vida. Como tudo o que as maiorias das constituições pregam. Igualdade de tratamento, trabalho, saúde e educação a todos. Enfim, o básico para que uma pessoa possa viver com um mínimo de dignidade.
_ Tito, o que posso te dizer é que a política em si, não pode explicar a natureza humana e nem a psicologia e nem a psiquiatria. Talvez a religião. Mas devo te dizer também que se você for buscar respostas na religião, escolha uma e siga em frente. Porque se você começar a comparar as religiões e as ações de fiéis dessas diferentes religiões, só vai encontrar contradição e ficará mais perdido do que nunca!
_ Mas pai, porque você ta me dizendo isso? Você não me parece uma pessoa religiosa!
_ Sim filho, teve uma época em que eu negava que a tivesse, sempre que alguém me questionava sobre isso. O que posso te dizer é que o único lugar onde tive um pequeno vislumbre da Verdade, foi a religião. Como meus pais eram católicos e eu fui batizado na igreja, hoje digo que sou católico. Mas estou te dizendo isso porque eu presenciei torturas na ditadura. Aliás, eu mesmo fui uma vítima. Tive sorte porque tinha um tio general e quando os torturadores descobriram, me prendiam já dizendo aos outros que eu tinha costa quente. Filho, como explicar que perante Deus, os torturadores e os torturados são irmãos?! E tem mais. Muitos torturadores, após sessões extenuantes de sadismo contra pessoas que só estavam lutando ou às vezes implorando por bons tratos, chegavam em casa e beijavam suas esposas e brincavam com seus filhos como uma pessoa boa. Até hoje não consigo entender tamanha dicotomia.
_ Meu nome tem alguma coisa a ver com esse Frei Tito?
_ Sim! É uma homenagem! Frei Tito era brasileiro, viveu as atrocidades da ditadura em seu país e o final de sua Via Crúcis, viveu no exílio! Foi torturado covardemente apesar de ser um Frei, Cristão, foi torturado sem piedade! E quando tentou tirar a própria vida na prisão, seu algoz disse que ele não ia morrer tão fácil. Pois eles sabiam como matar por dentro! Sem deixar marcas visíveis e óbvias. Frei Tito se matou na França, no exílio após estar no limiar da loucura completa! Mas como ele mesmo disse: “Mais vale morrer, do que perder a Vida”.
Não sabemos se foi destino, rebeldia inconsciente ou apenas coincidência, mas Tito seguiu a carreira militar. Mas Juan tem muito orgulho disso! Porque Tito é um homem honesto, justo e não conseguiu fugir da influência de seu pai. Ainda hoje, como militar, luta com hombridade pela liberdade, democracia e dignidade do povo que mais necessita. Juan sabe hoje, pelo seu filho, que a maioria dos militares são honestos! Graças a Deus, os déspotas são minoria! O problema é que eles fazem muito barulho! Juan deu um cartão a Tito e disse:
_ Filho, não tenho certeza de quem disse isso foi o Che ou o Pablo Neruda, mas guarda isso no seu coração!

 BIBLIOGRAFIA: Google. A Internet é uma Mãe.

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