Joãozinho sente uma angústia, seu peito apertado não o deixa
pensar direito. Será que o vizinho nos ajuda? Acho que se eu levar o Marrom no
veterinário, ele ajuda a pagar a conta! Só não posso deixar o bichinho assim
sofrendo!
Marrom é um cachorro que mora na rua. Na rua não, no bairro.
Todo mundo conhece ele, e todos gostam do bicho, porque ele é sociável. Aceita
carinho de qualquer um, não importa se honesto ou não; Se boa pessoa ou nem
tanto; Rico ou pobre; De esquerda ou de direita; Palmeirense ou corintiano ou
torcedor de qualquer time, até da Portuguesa!
Marrom está doente! Seu pênis está inchado e pinga sangue.
Há algum tempo a mãe de Joãozinho encontrou um pingo de sangue na cozinha e
ficou se perguntando de onde teria vindo. Até que um dia na rua, viram o Marrom
deitado numa calçada. Chegaram perto pra falar com ele e viram seu pintinho
pingando sangue. Foram ao veterinário e o atendente disse que podia ser muita
coisa: Desde uma simples inflamação ou pedra e até mesmo uma doença venérea.
Não ficaram surpresos, pois o Marrom é danadinho! Não pode ver ou sentir o
cheirinho de uma cadela no cio, que fica maluco! Disposto até a dormir na
frente da casa da fêmea, passando frio e fome. Mesmo que não role nada! Só o
fato de estar tomando conta dela, pra ele já ta bom! Enquanto não passa o cio,
ele não desgruda. Mas é verdade que às vezes, ele dá sorte e consegue cruzar.
Joãozinho, triste, pensa:
Pode ser doença venérea! Mas também pode não ser!
Foram num pet shop e explicaram a situação, dizendo que
tentaram levar o bicho no veterinário, mas não conseguiram. No dia em que iam
levá-lo, ele fugiu. A atendente receitou um antibiótico e deram a ele durante
sete dias. O Marrom ficou bom, parecia curado. Parou de pingar sangue e ele estava
alegre e espoleta como nunca. Ilusão! Passou o efeito do remédio, voltou a
pingar e agora, o Marrom está deitado desde cedo no quintal de Joãozinho, sem
querer se levantar pra nada! Os pensamentos de Joãozinho estão confusos:
Não quero vê-lo sofrendo! Minha mãe até sugeriu que pode ser
câncer de próstata! Se for, a gente vai ter que sacrificá-lo! Mas eu acredito
em milagres! Ontem mesmo, quando ele à noite deu uma disparada no quintal para
latir no portão, achei, achei não, quase acreditei plenamente que ele estava
curado pelo Poder do Espírito Santo! Achei que Deus havia curado ele!
Joãozinho achou umas moedas e decidiu jogar na loteria, na
esperança de ganhar um dinheiro e poder levar o Marrom no veterinário e curá-lo
de uma vez por todas! Chegou na lotérica, e estava fechada. Na volta pra casa
Joãozinho veio olhando atento todas as placas dos carros pra tentar saber qual
a melhor milhar para jogar no bicho pelo menos, já que a lotérica estava
fechada. Não achou nenhuma convincente e decidiu jogar qualquer coisa,
confiando na Providência. Porém, chegando na barraquinha do bicho, soube que
não estava sendo feito jogo naquele dia. Por quê? Porque é feriado! E se a
gente fizer uma vaquinha na vizinhança?! Afinal, todos gostam dele!
Mas Joãozinho é tímido, ou orgulhoso, como preferir. Ou os
dois! E hoje é sábado, feriado e o veterinário está fechado. Agora só
segunda-feira! Joãozinho tentou bloquear um pensamento que insistia em martelar
em sua mente: Segunda pode ser tarde!
Será possível que todo mundo que eu Amo tem que morrer?! Ou
sofrer?! O que eu tenho que aprender com isso?! Não é à toa que eu já perdi
tanta oportunidade de Amar! Lá no fundo, no inconsciente, eu sabia que a mulher
amada ia acabar morrendo! Ou sofrendo! (Joãozinho tem só treze anos de idade,
mas já se acha o garanhão experiente).
Por favor Marronzinho, aprenda a ser um cachorro doméstico!
Toma conta do nosso quintal e esquece a rua! A gente te arruma umas cadelinhas
no cio!
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