Todos eram amigos. O jumento casou com a jumenta; O burro
casou com a mula e o asno, primo pobre do jumento, casou-se com um jegue
(fêmea). Todos a chamavam de jeguinha pois não havia em seu idioma, designação
para esse tipo de asinino. Pareciam amigos quando adolescentes. Já adultos, o
jumento traiu a jumenta com uma égua barranqueira e pariram uma besta, tanto na
raça quanto no intelecto. Então a jumenta pra se vingar, transou com o asno
parindo assim um lindo animal alto e orelhudo que justo por essas características
se achava tão nobre e sábio quanto um cavalo árabe. Vivem os dois, próximo à BR
163 no estado do Pará. Asno e Árabe como são conhecidos na fazenda, são amigos
apesar das rusgas de família. O dono da fazenda é um latifundiário, senhor do
agronegócio que adquiriu as terras por grilagem. E o que é grilagem? Acho que é
mais ou menos assim: Antes o cara invadia as terras, conseguia documentos
falsos e os colocava numa gaveta cheia de grilos que faziam o trabalho de fazer
parecer que os documentos eram antigos e verdadeiros. Hoje, nem se dão mais ao
trabalho! Falsificam e contam com a cooperação de políticos e afins. Coisa
comum nas terras da Amazônia, onde aliás estão botando fogo hoje na intenção de
grilar com o aval do senhor presidente.
Neste exato momento por exemplo, o Árabe está sendo
cavalgado por um Sinhozinho que o escolhe ao invés dos equinos, justamente por
sua postura altiva. O Sinhozinho por sua vez, está comandando uma tropa que
ateia fogo numa região inóspita do Pará. Enquanto o Asno está em casa
conversando com um ancião sobre sua ancestralidade, sobre a vida e sobre a
sapiência. Diga-se de passagem, que o Asno tem fama de preguiçoso e já apanhou
bastante de capataz por se recusar a fazer o trabalho sujo.
Uma semana antes Asno e Árabe estavam juntos pastando e
ruminando próximo à Casa Grande, quando Árabe disse irônico:
“Como você consegue viver essa vida?!”
“Como assim?!” Questionou Asno.
“Você não faz nada de útil o dia inteiro!”
“Em que sentido?”
“Você não ara a terra e ninguém cavalga em ti por tu seres
preguiçoso!”
“Eu faço várias coisas! Todo dia! A principal é conversar
com nossos parentes e tentar conhecer um pouco de nossa tradição!”
“Isso não basta! Se você quiser ser rico como eu, tem que
trabalhar!”
“Mas quem disse que eu quero ser rico?!”
“Foi pra isso que Deus nos criou! Mas acho que sei o porquê
de tu não buscar isso!”
“E o que seria?”
“Acho que você não acredita em Deus!”
“Você já leu as escrituras?”
“Não só li como também pratico toda sua sabedoria!”
“De que forma?”
“Trabalhando e servindo ao meu senhor!”
“Pena, só sei um trecho.”
“E qual é?”
“Olhem os pássaros do céu; eles não semeiam, não colhem, nem
ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que
vocês não valem mais do que os pássaros?”
“Bela passagem! Mas o que você quer dizer com isso?”
“Que a Sabedoria vale mais que o dinheiro!”
“Hum, mas só mais uma coisa: Como você consegue ter saúda
sem trabalhar?”
“Respondo como uma pergunta: Quantas horas você dorme por
dia?”
“Quatro horas! Sou trabalhador!”
“Pois é, eu durmo nove horas, o suficiente pra mim e sou
saudável.”
Árabe ficou calado e continuaram sua pastagem, ruminando
cada um sua fração.
Nenhum comentário:
Postar um comentário