sábado, 4 de janeiro de 2020

Uma fábula moderna


Todos eram amigos. O jumento casou com a jumenta; O burro casou com a mula e o asno, primo pobre do jumento, casou-se com um jegue (fêmea). Todos a chamavam de jeguinha pois não havia em seu idioma, designação para esse tipo de asinino. Pareciam amigos quando adolescentes. Já adultos, o jumento traiu a jumenta com uma égua barranqueira e pariram uma besta, tanto na raça quanto no intelecto. Então a jumenta pra se vingar, transou com o asno parindo assim um lindo animal alto e orelhudo que justo por essas características se achava tão nobre e sábio quanto um cavalo árabe. Vivem os dois, próximo à BR 163 no estado do Pará. Asno e Árabe como são conhecidos na fazenda, são amigos apesar das rusgas de família. O dono da fazenda é um latifundiário, senhor do agronegócio que adquiriu as terras por grilagem. E o que é grilagem? Acho que é mais ou menos assim: Antes o cara invadia as terras, conseguia documentos falsos e os colocava numa gaveta cheia de grilos que faziam o trabalho de fazer parecer que os documentos eram antigos e verdadeiros. Hoje, nem se dão mais ao trabalho! Falsificam e contam com a cooperação de políticos e afins. Coisa comum nas terras da Amazônia, onde aliás estão botando fogo hoje na intenção de grilar com o aval do senhor presidente.
Neste exato momento por exemplo, o Árabe está sendo cavalgado por um Sinhozinho que o escolhe ao invés dos equinos, justamente por sua postura altiva. O Sinhozinho por sua vez, está comandando uma tropa que ateia fogo numa região inóspita do Pará. Enquanto o Asno está em casa conversando com um ancião sobre sua ancestralidade, sobre a vida e sobre a sapiência. Diga-se de passagem, que o Asno tem fama de preguiçoso e já apanhou bastante de capataz por se recusar a fazer o trabalho sujo.
Uma semana antes Asno e Árabe estavam juntos pastando e ruminando próximo à Casa Grande, quando Árabe disse irônico:
“Como você consegue viver essa vida?!”
“Como assim?!” Questionou Asno.
“Você não faz nada de útil o dia inteiro!”
“Em que sentido?”
“Você não ara a terra e ninguém cavalga em ti por tu seres preguiçoso!”
“Eu faço várias coisas! Todo dia! A principal é conversar com nossos parentes e tentar conhecer um pouco de nossa tradição!”
“Isso não basta! Se você quiser ser rico como eu, tem que trabalhar!”
“Mas quem disse que eu quero ser rico?!”
“Foi pra isso que Deus nos criou! Mas acho que sei o porquê de tu não buscar isso!”
“E o que seria?”
“Acho que você não acredita em Deus!”
“Você já leu as escrituras?”
“Não só li como também pratico toda sua sabedoria!”
“De que forma?”
“Trabalhando e servindo ao meu senhor!”
“Pena, só sei um trecho.”
“E qual é?”
“Olhem os pássaros do céu; eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros?”
“Bela passagem! Mas o que você quer dizer com isso?”
“Que a Sabedoria vale mais que o dinheiro!”
“Hum, mas só mais uma coisa: Como você consegue ter saúda sem trabalhar?”
“Respondo como uma pergunta: Quantas horas você dorme por dia?”
“Quatro horas! Sou trabalhador!”
“Pois é, eu durmo nove horas, o suficiente pra mim e sou saudável.”
Árabe ficou calado e continuaram sua pastagem, ruminando cada um sua fração.


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