“Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros. No entanto, o Vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais que eles?”
(Matheus 6-26)
Antes da pandemia fui a
uma festa e conheci um senhor deveras peculiar; senhor Carlos Gustavo Jovem,
psicanalista; teria ele uns sessenta anos, cabelo grisalho e óculos redondo
sugerindo sabedoria, e um belo bigode estilo Leminski. Em determinado momento
da festa, após alguns comes, me servi de
alguns bebes e fui ao jardim fumar um cigarro; e lá o encontrei. Ele estava
fumando um cachimbo e pedi seu isqueiro emprestado para acender o meu. A
sintonia foi boa; começamos conversando sobre os anfitriões, amigos em comum;
depois futebol, religião e finalmente política; e digo finalmente, porque foi
neste assunto que a coisa ficou realmente curiosa. Concordamos que a situação
do Brasil estava deprimente; ele me disse que não conseguia entender por que o
cidadão no poder ainda conseguia ter apoio de parte da população. Então
aproveitei para citar o argumento das falanges do cidadão de que o mito estava
no poder para evitar o comunismo; senhor Carlos riu alto! E continuou:
-É verdade meu amigo!
Como diz minha neta: Isso é bizarro demais!
-Pois não é, seu
Carlos?!
O clima, a festa, a
barriga forrada com os comes e agora os bebes e o tabaco, ajudaram a nos deixar
relaxados e a conversa fluiu:
- A propósito, atendi
um homem em meu consultório há pouco tempo; na verdade ainda o atendo; mas essa
nossa conversa de agora me fez recordar de nossas sessões.
- Sou todo ouvidos, seu
Carlos!
Seu Carlos não me disse
o nome do paciente por questão ética, é claro; mas vamos chamá-lo de Marx.
E segundo seu Carlos,
Marx disse:
- Trabalhei com carteira
assinada até meus trinta e poucos anos; hoje com cinqüenta; não trabalho há
vinte anos!
Seu Carlos disse que na
hora pensou: “Mais um vagabundo!” E Marx continuou:
- Mas por que parei de
trabalhar? Vários fatores; vou resumir alguns e se conseguir confiar no senhor,
me aprofundarei. Aos trinta entrei numas de buscar respostas sobre quem sou e
por que determinadas coisas aconteciam, tanto a mim quanto à humanidade; enfim,
sem saber, me tornei um peregrino na vida. Estudei bastante e depois de um
tempo buscando e sem encontrar nada, entrei em depressão; me afastei das
pessoas, dos amigos e do mundo! Mas continuei estudando; até meditação eu
fazia! E pra não enlouquecer, não estudava somente coisas espirituais; estudava
também sobre política e economia; estudei sobre o capitalismo, sobre o
comunismo e até sobre o anarquismo; e algumas variantes: Neoliberalismo,
democracia socialista, etc. Descobri que sou comunista! Me disseram certa vez
que não se nasce comunista, mas torna-se comunista! Eu discordo! Acho que sou
comunista desde que nasci! Só que fui descobrindo isso aos poucos; então é aí
que eu quero chegar: Se eu trabalhar como escravo assalariado, serei conivente
com a exploração do sistema capitalista que tanto abomino! Então, o que o
senhor deve ter pensado sobre mim, que sou só mais um vagabundo, eu discordo
disso também! Eu simplesmente estou fazendo greve; estou protestando; estou me
manifestando! Tudo bem, parece egoísmo, mas se eu conseguir algum resultado
positivo em favor do povo trabalhador com essa minha utopia, estarei
satisfeito! Um vagabundo egoísta faz isso?! Um vagabundo egoísta faz isso?! Um
vagabundo egoísta faz isso?! Justamente para não ser ainda mais julgado, não me
casei e não tenho filhos; moro com meus pais; e prefiro milhões de vezes
depender de meus pais que eu sei que me amam, do que depender de um burguês que
só quer me explorar e ficar mais rico enquanto eu e meus colegas vivemos na
pobreza perene.
Devo dizer que me
identifiquei com o Marx; e acho que o doutor Carlos foi com a minha lata,
porque pedi licença para ir buscar outro drink e ele ficou ali no jardim me
esperando e pitando... porém quando voltei o assunto mudou; falamos sobre
literatura; Seu Carlos me fez sentir importante.
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