quarta-feira, 14 de abril de 2021

Tentativa de justificar a vagabundagem

 “Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros. No entanto, o Vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais que eles?”

(Matheus 6-26)

 

Antes da pandemia fui a uma festa e conheci um senhor deveras peculiar; senhor Carlos Gustavo Jovem, psicanalista; teria ele uns sessenta anos, cabelo grisalho e óculos redondo sugerindo sabedoria, e um belo bigode estilo Leminski. Em determinado momento da festa,  após alguns comes, me servi de alguns bebes e fui ao jardim fumar um cigarro; e lá o encontrei. Ele estava fumando um cachimbo e pedi seu isqueiro emprestado para acender o meu. A sintonia foi boa; começamos conversando sobre os anfitriões, amigos em comum; depois futebol, religião e finalmente política; e digo finalmente, porque foi neste assunto que a coisa ficou realmente curiosa. Concordamos que a situação do Brasil estava deprimente; ele me disse que não conseguia entender por que o cidadão no poder ainda conseguia ter apoio de parte da população. Então aproveitei para citar o argumento das falanges do cidadão de que o mito estava no poder para evitar o comunismo; senhor Carlos riu alto! E continuou:

-É verdade meu amigo! Como diz minha neta: Isso é bizarro demais!

-Pois não é, seu Carlos?!

O clima, a festa, a barriga forrada com os comes e agora os bebes e o tabaco, ajudaram a nos deixar relaxados e a conversa fluiu:

- A propósito, atendi um homem em meu consultório há pouco tempo; na verdade ainda o atendo; mas essa nossa conversa de agora me fez recordar de nossas sessões.

- Sou todo ouvidos, seu Carlos!

Seu Carlos não me disse o nome do paciente por questão ética, é claro; mas vamos chamá-lo de Marx.

E segundo seu Carlos, Marx disse:

- Trabalhei com carteira assinada até meus trinta e poucos anos; hoje com cinqüenta; não trabalho há vinte anos!

Seu Carlos disse que na hora pensou: “Mais um vagabundo!” E Marx continuou:

- Mas por que parei de trabalhar? Vários fatores; vou resumir alguns e se conseguir confiar no senhor, me aprofundarei. Aos trinta entrei numas de buscar respostas sobre quem sou e por que determinadas coisas aconteciam, tanto a mim quanto à humanidade; enfim, sem saber, me tornei um peregrino na vida. Estudei bastante e depois de um tempo buscando e sem encontrar nada, entrei em depressão; me afastei das pessoas, dos amigos e do mundo! Mas continuei estudando; até meditação eu fazia! E pra não enlouquecer, não estudava somente coisas espirituais; estudava também sobre política e economia; estudei sobre o capitalismo, sobre o comunismo e até sobre o anarquismo; e algumas variantes: Neoliberalismo, democracia socialista, etc. Descobri que sou comunista! Me disseram certa vez que não se nasce comunista, mas torna-se comunista! Eu discordo! Acho que sou comunista desde que nasci! Só que fui descobrindo isso aos poucos; então é aí que eu quero chegar: Se eu trabalhar como escravo assalariado, serei conivente com a exploração do sistema capitalista que tanto abomino! Então, o que o senhor deve ter pensado sobre mim, que sou só mais um vagabundo, eu discordo disso também! Eu simplesmente estou fazendo greve; estou protestando; estou me manifestando! Tudo bem, parece egoísmo, mas se eu conseguir algum resultado positivo em favor do povo trabalhador com essa minha utopia, estarei satisfeito! Um vagabundo egoísta faz isso?! Um vagabundo egoísta faz isso?! Um vagabundo egoísta faz isso?! Justamente para não ser ainda mais julgado, não me casei e não tenho filhos; moro com meus pais; e prefiro milhões de vezes depender de meus pais que eu sei que me amam, do que depender de um burguês que só quer me explorar e ficar mais rico enquanto eu e meus colegas vivemos na pobreza perene.

Devo dizer que me identifiquei com o Marx; e acho que o doutor Carlos foi com a minha lata, porque pedi licença para ir buscar outro drink e ele ficou ali no jardim me esperando e pitando... porém quando voltei o assunto mudou; falamos sobre literatura; Seu Carlos me fez sentir importante.

Nenhum comentário: