Ela é grega e vive na Turquia; ele é brasileiro, sempre viveu no Brasil e sempre viverá, porque o dólar ta sempre nas alturas. Mas mesmo assim se conheceram; graças à internet. Ela tem dezoito anos de idade; ele tem cinqüenta, mas diferente do que você pode ter imaginado, ele não é um pedófilo; afinal de contas, ela já é de maior e ele aparenta no máximo quarenta e nove; ou trinta, dependendo do espelho que tu o mira. E só não listo mais diferenças porque os conheço há pouco tempo! Deve haver muitas diferenças, mas ao contrário de Eduardo e Mônica, têm muito em comum também! O principal é que os dois amam o rock e são intermediários no inglês; essa última habilidade em comum os ajudou na comunicação além mares. Porém, ele quase não usou suas habilidades lingüísticas durante o assédio! No início, só mandava pra ela trechos de letras de músicas do Nirvana, que ele sabia que ela curtia por causa das fotos no instagram vestida com a camiseta da banda. E mesmo com quase tudo diferente, veio mesmo de repente uma vontade de se ver. (plágio?) (Não, homenagem)
Ele quebrou seu cofrinho, contou as moedinhas, comprou uma
casa e com o troco, comprou também dois ingressos pro Rock in Rio e uma
passagem pro Rio de Janeiro. (ele costumava comprar tudo com moedas do cofrinho
porque ele era amigo da familícia Bolsonaro). Já ela, como ele havia percebido
pelas fotos no insta, tinha grana e foi da Turquia ao Rio de Janeiro só com a
roupa do corpo e o cartão de crédito ilimitado. Se encontraram no Galeão e como
os dois já tinham fantasiado tudo e mais um pouco, um sobre o outro, pareciam
marido e mulher casados há vinte anos! Pela limitação dos idiomas e pela
fantasia compartilhada, só falavam o trivial; nenhum dos dois filosofava na
intenção de impressionar. Só quando o taxista que os levaram do aeroporto até o
local do show, puxou conversa dizendo que era do Nordeste do país, que votaria
no Lula nas eleições e perguntou pra quem eles votariam. Pra quê?! O que ele
não filosofou com a menina, filosofou com o taxista! E antes de dizer que
também votaria no Lula, contou um monte de vantagens; inclusive que sua
namorada era uma Deusa Grega que o protegia dos Cíclopes do mundo. O taxista
engoliu tudo o que ele disse, assim como ele engoliu tudo o que o taxista disse
sobre ser primo do Graciliano Ramos e que o escritor escreveu Vidas Secas
inspirado na história do pai do taxista.
Conseguiram ficar na grade e quando olhavam pra trás, só viam
a multidão. Começou o show do Iron Maiden e após a primeira música terminar e a
galera ir à loucura, ele ficou excitado tentando entender tanta maravilha!
Acordou quando ela sentiu o volume em sua bundinha e encheu a mão em seu pau.
Passou um maluco vendendo cerveja e ele comprou uma pra ela, que tava morrendo
de sede. Depois passou outro maluco vendendo cachaça; ele comprou só uma
garrafa. E depois passou mais um maluco vendendo maconha: “Olha a maconha, olha
a maconha! Quem vai querer?” Eles se olharam e riram; pra eles, não era hora
ainda de despirocar. No meio do show, abriu-se uma roda bem atrás deles. Essa
roda deve ter um nome! Os caras dão nome a tudo! Inclusive pra quem invade o
palco e se joga na galera! Não sei o nome de nenhuma das duas coisas porque sou
um humilde narrador do sertanejo. Mas sertanejo raiz! Os sertanejos atuais nem
imaginam o que é o Sertão!
Quando o Iron Maiden tocou a última e ele estava achando que
era um cara sortudo por ter vivido tudo aquilo na paz de Deus, um grupo de
malfeitores começou a varejar ao redor de sua ninfeta; os caras se revezavam no
esfregamento na raba da menina! Mas é claro que depois de ter sentido o Paraíso,
ele jamais deixaria o Inferno tomar conta da situação! Afastou os meliantes com
o braço, segurou a menina pela cintura e sem olhar pra trás, achou que sua
estatura e sua idade fariam o serviço de intimidar a malta! Ilusão! Tomou um
pombo sem asas na orelha e caiu desmaiado. Ficou uns dez segundos nessa
condição lastimável e quando acordou, sentiu o joelho de um polícia no seu
pescoço e uma muvuca ao seu redor; desmaiou de novo!
Acordou numa sala iluminada com a menina ao seu lado:
Tudo bem amor? (em inglês)
Tudo querida! (em inglês também)
Então vamos sair daqui! Ainda tem show rolando nos outros
palcos!
Vamos sim! Mas peraí, como foi que eu saí daquela situação
precária?
Esquece! Vamos curtir!
Deram uma rapidinha na roda gigante avistando o pão de
açúcar! Nove meses depois nasceu Hermes. Foi uma vida boa! Um casamento supimpa
pra ele, e magnífico pra ela que não curtia gírias! Nem brega, nem moderna. No
leito de morte, ele fez a pergunta que sempre fazia e ela nunca respondia:
Quem ou que me salvou naquele dia?
E enfim ela respondeu:
Fui eu seu bobo, eu sou uma deusa grega encarnada de verdade!
Ele sorriu, espirou, expirou, sucumbiu e pereceu.
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