Querido diário,
Ontem foi um lindo domingo chuvoso! Acordei às dez horas,
tomei meu café reforçado, fiz meus exercícios matinais e liguei a TV. Como
sempre faço há anos, sintonizei o canal que fala da realidade da vida:
Assaltos, assassinatos, crimes e mortes. Ao meio-dia almocei uma suave cabidela
e tirei uma pestana. Quando acordei, assisti a um filme educativo na Netflix: A
ressurreição do demônio. Até gostei do filme, pois tinha um enredo inteligente.
Mas o protagonista era um psicopata! Merecia morrer! Após o filme coloquei na
globo e tava passando o jogo da seleção brasileira na copa do mundo. Perdemos
da Argentina. E apesar de não gostar de futebol, fiquei feliz pelos Hermanos. Há
muito tempo não assistia a um jogo inteiro! Foi estranho, mas prazeroso. Apesar
da friaca, depois do jogo tomei um banho gelado, me arrumei e fui pro mundo.
Leia-se: Praça da Igreja da Matriz.
Já na praça da Igreja da Matriz, dei um role pelos botecos ao
redor e parei no Havana Rock Club. Pedi uma PCL (Pinga com limão) e fiquei
manjando a galera. Tinha um casal lindo cheio de sorrisos numa mesa e um doidão
fumando maconha num canto, que dividiram minha atenção. Mas optei pelo casal,
só pra variar um pouco. Cheio de vontade de chegar junto e travar um diálogo
filosófico onde tudo é relativo, inclusive a felicidade. Não tive coragem e
travei o tal diálogo na minha imaginação:
E aí bro, qual é?
Nada de mais! Só curtindo.
Parabéns hein?! Sua minha é show! Uhu!
Valeu maluco! Mas qual é a sua?
Relaxa mano! Foi só um elogio! Sem maldade!
De boas.
Pensei sobre o meu pensamento: Mano, esse cara é um psicopata
enrustido!
E ainda na minha imaginação, o psicopata foi ao banheiro e eu
sentei em sua cadeira. Ousadamente conversei com a “mina magia” enquanto o
babaca estava no quartinho.
E aí gata, o que ta pegando?
Nada “seu” doidão!
Você acha que eu sou doidão mesmo?
Lógico né?! Meu namorado é bandido! Se ele te pega aqui, te
faz acordar com a boca cheia de formiga!
Não brinca! Mor cara de Panguão!
Caramba, foi exatamente o que eu pensei no nosso primeiro
encontro! Eu e você temos algo em comum!
Era justamente isso que eu estava tentando fazer! Achar algo
em comum entre você – a princesa – e eu o sapo!
Ela me olhou meio estranho; meio de lado; já tentando
escapar; mas querendo ficar.
Eu meti um olhar 43 e minha vida inteira ficou exposta pra
ela. Ela tremeu.
Mas nisso o panguão chegou e a salvou da maldição. E como
tava tudo em silêncio, ainda não teve vontade de matar o outro. Só sentou e
disse ao outro: Qual é borboleto?
Kkk, você também curte tirar uma onda?
Sempre!
É nóis.
Trocamos algumas idéias e não sei o porquê, a gente tava
falando de cachorro. Eu disse que o meu cachorro me mordeu. E ele disse que se
o cachorro dele o mordesse, ele matava! Eu disse:
Não tenho coragem! Se fosse um cara, eu matava!
O maluco deu uma gargalhada e mudamos de assunto.
Pensei no meu pensamento: Com certeza esse casal e o maluco
no canto do bar fumando um baseado, todos são psicopatas! Vou cair fora daqui
enquanto é tempo!
Quando cheguei em casa, tranquei o portão, fechei a janela,
apaguei a luz e disse à minha mulher imaginária: Eu te amo! E tudo isso
enquanto admirava como se nunca tivesse visto na vida: Na parede escrito:
Helter Slelter. E vários riscos na vertical de cinco em cinco pra facilitar a
contagem.
Por que um deus tem que ter só uma face nesse mundo
multifacetado?!
Querido diário:
Mais um dia faminto tentando me encaixar na realidade da
sociedade.
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