quarta-feira, 26 de julho de 2023

O professor

Quando eu tinha uns 12 anos de idade, comecei a trabalhar nos verões pra poder comprar meu material escolar. Montava cortinas de madeira pra loja de um vizinho nosso.

Aos 15 comecei a trabalhar formalmente, em firma; sempre trabalho braçal. Eu simplesmente odiava! Mas não por ser braçal, e sim porque atrapalhava os estudos. Pouquíssimo tempo pra estudar. E o pior (pra mim pelo menos): Pouco tempo pra dormir! Uma boa noite de sono pode salvar uma vida! Eu dormia em todo lugar! Na rua, na chuva, na fazenda... Condição essa, compartilhada pela maioria das pessoas pobres que pensam em uma vida mais confortável e livre quando adultas.

Aos 18, após camelar muito; dormir pelos cantos e tirar minhas primeiras notas vermelhas; tive um professor de literatura que me tirou do marasmo! As aulas desse professor me tiravam o sono! Ele lia trechos de romances, contos e poemas, que me encantavam! Mas não era só isso! Ele também explicava e nos ajudava a analisar os trechos escritos pelos gênios! Foi na bucha! Comecei a ter vontade de escrever e escrevi. Depois de um tempo, quando eu já tinha escrito algumas porcarias, fiquei com vontade de mostrar os escritos ao meu ídolo: Meu professor de literatura.

Mas eu era tímido; não tinha coragem de mostrar; mas tive coragem de perguntar a ele sobre o que a gente precisava ler pra tentar ser um escritor. Ele indicou, mas não sem um adendo:

To indicando pra você Guimarães Rosa e Machado de Assis, mas não pense que só lendo isso, você também vai ser um escritor genial. Talvez um escritor medíocre! E pior, talvez nem consiga!

Eu respondi:

Mestre: Não tenho a mínima pretensão de escrever como Guimarães Rosa ou Machado de Assis! Mas tipo um Paulo Coelho e Stephen King da vida, com metade do sucesso deles! (risos) Pra nunca mais precisar trabalhar!

Pra quê?! O mestre ficou furioso! E disse imprecações ao meu respeito.

Não entendi nada e disse: Calma professor! Desculpa!

Não teve desculpa; ele me colocou um chapéu escrito asno e me fez ajoelhar no milho no canto da sala. Mas daí eu disse:

Eu não tive intenção de ofender ninguém! Só quis dizer que quem faz o que ama, é como se não trabalhasse! Só isso! Pra quem faz o que gosta, o trabalho se torna diversão! Tipo um quebra cabeças; que pode ser problemático, divertido e prazeroso ao mesmo tempo!   

Ele entendeu e pediu perdão.

Eu: Porra nenhuma! Vai ter que me indenizar!

Quanto você quer?

Me dá três conto pra comprar um corote!

No futuro eu entendi a postura do meu professor de literatura; porque ele me contou que tinha um ídolo também: Seu tio. E quando ele disse ao tio ídolo que queria ser professor, o tio disse que trabalho de verdade era trabalho braçal; e que esse lance de querer ser professor era coisa de vagabundo.

Meu professor ficou indignado, se sentiu um asno e tentou fazer uma macumba pra tentar gostar de ser peão.

Colocou tudo na mochila: Velas, incensos, champanhes e orações. E tinha a intenção de ir pra encruzilhada fazer a quizumba. Porém quando estava pra sair de casa, a champa estourou dentro da mochila e ele ficou sem saber o que fazer. E decidiu dormir. Deixa essa porra pra lá!

O que você acha? Foi coincidência? Ou será que Deus age realmente em nossas vidas?

Nosso ego é como uma semente; Se a semente se entrega, se torna planta ou árvore (Espírito de Deus). Mas se a semente é teimosa e não quer morrer, vira pó.


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