quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Carta a um amigo


Saudações,
Prezado amigo, há quanto tempo! Como vão as coisas? Aqui tudo na mesma. O presidente do país é quem você sabe, a ditadura com a maior cara de pau, está batendo em nossas portas de novo, o desemprego só aumenta, a carestia, os arrochos nos mais necessitados, a ignorância e a intolerância querem fazer morada. O que eu quero te dizer é que a coisa aqui ta preta! Sem a cachaça, ninguém segura esse rojão! Mas deixemos de choramingos! Afinal já vi gente em condições bem piores que a nossa, com um sorriso aparentemente verdadeiro no rosto! Se o sistema não ajuda, paciência! Porém, nós temos a escolha de aceitar a exploração, ou lutar! Um espírito feliz, se exalta em ambas as missões.
Mas antes de recorrer ao verdadeiro motivo do contato, gostaria de te deixar a par do que aconteceu por último em minha vidinha deveras agitada; Fui promovido no trabalho! Agora ao invés de alimentar a máquina de dejetos, alimento a máquina de cacarecos. Não sei o motivo, mas às vezes eu e a máquina somos um. Será que eu alimento a máquina ou será que a máquina me alimenta? Se você escolher a segunda opção, devo dizer-te que estou faminto como se comesse apenas ração (desculpe a rima). Mas olha eu de novo com meus choramingos! Antes de pular ao que interessa, continuo mais um pedaço: Além de ser agraciado em ser o membro de uma nova máquina, agora também posso fazer hora extra! Trabalho de doze a dezesseis horas ao dia! O salário aumenta um pouco no fim do mês e posso transmitir o soldo aos meus filhos adolescentes! Isso tem suas vantagens e desvantagens, vejamos: Com os filhos crescidos e ainda não trabalhando, como deveria ser, tenho que abastecê-los com meus minguados, batalhados a duras penas! Porém, o lado bom é que como eles não são mais crianças, não preciso mais tomar conta nem trocar fraldas! E também cansei de me preocupar com seus instintos suicidas! Lembrei de que já fui quase parecido, lembra? Pode parecer pouco, mas com o tempinho livre, posso ler! É justo dizer que além de querer saber sobre como vais, escrevo-lhe para contar de meu novo passatempo: Estou lendo! Comecei com revistas, assinei uma e pude perceber que conseguia ler e assimilar mais rápido do que todos de minha família! Descobri até uma parte minha que desconhecia: O abusado. Me enveredei pelos caminhos da literatura e entrei de sola! Li “Os Lusíadas” de Camões! Não entendi nada! Mas não desisti. Ao contrário! Isso me deu combustível para tentar ler outras formas e outros estilos! No início, um pouco mais fáceis e agora leio até Machado de Assis! No Machado não entendo algumas (muitas) palavras, talvez pela distância no tempo, mas diferente dos Lusíadas, isso eu entendo! Principalmente sua ironia! Hoje sei que ele é gênio por conseguir escrever Alta Literatura de forma irônica!
Nas horas vagas leio o que posso. E quais são essas horas vagas? Respondo: quatro horas de sono das quais dizem que tenho direito oito! Durmo as outras quatro, acordo sonolento e passo o resto do dia da mesma forma! Mas pensei que isso pode valer a pena, pagando o preço de que ao invés de morrer aos oitenta, posso muito bem bater as botas aos sessenta (se tiver sorte). E isso despertou meus dedos e minhas mãos! Tão acostumadas a alimentar máquinas de dejetos e cacarecos, agora não sei bem a razão, sinto vontade de escrever!
E agora vem a principal razão desta: Gostaria de escrever sobre vossa vida! Ainda estou indeciso se deveria escrever uma biografia completa ou apenas (como se fosse pouco), sua vida a partir desse momento. Por quê? Por que sua vida me fascina! Digamos assim: Minha vida material é agitada, apesar da monotonia. E minha vida espiritual é nula! Nem sei o que é isso! Já sua vida material parece monótona, mas percebo que é ilusão! Porque sua vida espiritual é plena! Pelo que você me contou na última vez que nos vimos, acho que muita coisa acontece no seu espírito! Na época não percebi! Achava até que minha vida fosse mais emocionante! Mas hoje sei, através da literatura, que minha vida de máquina não se compara à sua vida puramente organicamente espiritual! Desculpe os advérbios.
Gostaria de me encontrar contigo para uma breve ou não, entrevista! Sua vida de alguma forma me fascina! (já disse isso). Mas não só pelo fato de que você tem uma vasta experiência espiritual, mas também ou principalmente, porque hoje você não mais pertence a nenhuma instituição humana! Ainda me lembro de algumas fatias de nossa última conversa. A principal: Você disse que apesar de não se achar merecedor, ainda buscava a iluminação espiritual. Você já conseguiu? Se não, tenho fé de que consigas! E tenho paciência o suficiente para esperar que os deuses te abençoem! Quero escrever a história completa! Peraí que minha esposa acabou de entrar no quarto com cara de poucos amigos...
Amigo, acabei de descobrir que serei pai de nosso quinto filho! Deve ser o “super-zóide”! Será que ainda vou conseguir escrever?
Emoções a parte, termino com um axioma (seja lá o que isso for):
Espero que todos estejam com saúde e lhe desejo um belo nervão pra mastigar! (piada interna! Quis dizer no churrasco).
Abraços!
Saudades!
Rogério Rodrigues.

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