sábado, 23 de novembro de 2019

Biografia da ilusão


Branco Rico nasceu no dia tal, do mês tal de tal ano. Ou seja, não importa. Só sei que foi, ou é, ou será no futuro. Parto normal num hospital de primeiro mundo. Quando veio ao mundo, não chorou, gargalhou! Como se ouvindo piada de português nos anos 1980. Sua mãe na época desse futuro tinha ou tem ou terá 25 anos de idade, formada em direito, com uma agência que gerencia os direitos do grupo Silvio Santos. Sim, o patrão ainda está vivo! Seu pai tem 26 e é governador de uma cidade artificial criada onde antes era uma floresta exuberante. Em sua campanha pregava que era necessário que a evolução humana chegasse a tal lugar. Mas o que foi feito dos nativos, da fauna e da flora? Pergunte ao Jornal Nacional. Eles sabem, mas duvido que contem.
Cresceu em meio a computadores, máquinas e robôs. Porém, seu pai se dizia progressista e não quis privar seu primogênito de convivência orgânica. Por isso Branco tinha seus servidores pretos e rubros que é claro, não tinham direito nenhum, a não ser servir seu amo. Os amarelos ainda traumatizados com a última guerra, não se metiam nessa treta. Os negros, fortes, porém minoria, nos raros momentos de rebelião, eram chibatados. Os rubros tinham fama de vagabundos. Na verdade, preferiam a morte do que serem privados da liberdade. Eram utilizados nas artes, contando histórias e fazendo palhaçadas. Assim seguia a vida feliz de Branco, que cresceu em uma escola militar. Aprendeu toda filosofia, psicologia, alquimia, misoginia, etc... Mas não se sabe o porquê; ficou impregnado em sua mente, justo as aulas de educação física, onde o professor capitão, ensinava a formar filas e colunas de pirralhos. Direita volver! Esquerda volver! Descansar! Branco é mestre nas direções! Só não peça pra apontar o Norte! Seria pedir demais.
Perdeu a virgindade aos quinze anos com uma criada Cafuza. Pois é, os criados também se reproduziam entre eles. E só eram tolerados e criados, porque o patriarca os viam como mão de obra futura. Não teve a mesma sorte, sua irmã mais nova que só casou aos quarenta anos com um pastor da igreja onde a família frequentava. Mas a história de Morena, é outra.
Rico casou com uma linda virgem de vinte de cinco anos de idade. Só conseguiu essa façanha porque a menina era filha de um deputado amigo de seu pai. Nas reuniões de família, Rico ria de todas as piadas dos patriarcas. Aliás, ele ria à toa! Que vida maravilhosa! Tinha orgulho de ser alienado. Seus amigos todos o eram! Pra que saber sobre política, luta de classes, miséria, barbárie, guerras, injustiças?! Tudo o que ele queria, ele tinha! Enfim, Rico era muito feliz.
Não se formou em nada, odiava estudar! Mas seu pai lhe concedeu a embaixada do país mais rico daquele momento! Era só festa, jantares e mordomias! No cargo, viajava somente para países ricos, e quando pobres, não saía do hotel cinco estrelas. Pra que arranjar problemas?! Ele dizia na piscina do hotel para sua esposa: “Tá vendo como a vida pode ser boa?!"
Até que um dia, uma vereadora negra e lésbica, peitou seu pai na assembleia, dizendo que seu povo não suportaria mais sua ditadura! Rico estava presente. Ela deu o seguinte discurso:
"Boa tarde à todas e todos,
O Brasil  (país imaginário) é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.
Os números são assustadores: em 2096, foi registrada uma violência contra mulher a cada 5 horas no Estado do Rio de Janeiro (cidade imaginária).
Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres que conseguiram, de algum modo, buscar auxílio e denunciar.
E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade de gênero? Até quando?
O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no município do Rio de Janeiro!
Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso avanço civilizatório.
Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar pela vida daquelas que não puderam ainda se defender da violência. E são muito mais das 50.377 registradas em 2096, aqui, no Rio.
Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em Casas Legislativas, como esta, não somos a minoria. Somos a maior parte da população, ainda que sejamos pouco representadas na política.
Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjugadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!
No Brasil, segundo o IPEA (2096). As mulheres negras brasileiras ainda não conseguiram alcançar nem 40% do rendimento total recebido por homens brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos violências diariamente.
Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e o racismo estrutural. Quem acha que isso não merece ser debatido na nossa educação é porque se beneficia das desigualdades.
Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos “gênero”, “sexualidade” e “geração”, fortalece a continuidade de desigualdades e violências dos mais diversos tipos.
Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso município: o Plano Municipal de Educação. Este plano merece que tenhamos compromisso e responsabilidade.
O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a partir de 1970 com o objetivo de dar visibilidade às desigualdades entre homens e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso corrente em debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como finalidade promover a devida atenção e crítica das discriminações sofridas pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e todos possamos juntos enfrentar este cenário.
Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar sobre alguma doutrinação?
Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade de gênero. E só se promove igualdade através de uma educação consciente e do debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.
Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos dessa cidade, devemos defender o debate na educação!

Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o combate à violência e a desigualdade!
É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são interrompidas dia-a-dia neste Município.
Falar de igualdade de gênero é defender a vida!"

Resultado: Branco Rico se doeu e mandou assassinar a Vereadora. A polícia descobriu o crime. Mas nada fez! E pasmem! Branco Rico viveu até os oitenta anos sem culpa e quando morreu, foi para o céu.
Marielle Vive!!


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