Havia no reino um homem cego. Um não, vários, mas esse era
diferente. Mas no reino habitava também muita gente sã, ou quase isso. O rei,
um bom líder. A rainha magnífica, a princesa obediente, o príncipe rebelde e o
bobo da corte. Enfim, o reino estava completo. Não fosse justamente por causa
desse cego que era diferente dos outros. Mas por que ele era diferente? Porque
ele queria enxergar. Queria não! Na verdade, era uma grande obsessão. Os outros
deficientes, trabalhavam quase normalmente. De alguma forma, na maioria das vezes
limitada, ajudavam na produção de alimentos, roupas e armas. Já o cego do conto
só rezava e pedia esmolas, não queria trabalhar. Muito menos casar e ter
filhos. Se recusava a ter uma vida normal, enquanto não enxergasse. E isso causava muitos problemas pra ele próprio. Os militares do reino
não o suportavam, pois achavam que todos deveriam trabalhar de algum jeito ou
de outro, independendo das condições. Por isso, não podiam ver o tal cego
tranquilo, que já partiam pra cima, com xingamentos, presepadas, armadilhas,
torturas e quando estavam de bom humor, enchiam os ouvidos do cego com lição de
moral mais barata do que as encontradas nas piores tabernas da região. Mas o
que o cego fazia para tentar conseguir a visão? Nada! Ele não tinha a menor
ideia do que fazer! Sim, às vezes tentava conversar com as pessoas à procura de
bons conselhos ou de possíveis soluções. Só encontrava silêncio e palavras avulsas.
Até que um dia, cansado de tanto sofrer nas mãos dos
soldados e dos moleques, resolveu ir ter com o mago. E pensou:
Como não pensei nisso antes?! Claro, o mago pode quebrar o
feitiço!
Saiu da esquina com sua bolsa de esmolas e foi feliz e cheio
de esperanças tentar mais essa. Chegando ao barracão do velho sábio, foi
atendido com simpatia. Foi direto ao assunto:
Sr., por favor me dê a visão! Eu sei que só o senhor pode me
ajudar!
Primeiro: Como você conseguiu chegar até aqui sozinho?
A casa do mago ficava no meio da floresta.
Cheguei porque vim. E vim porque saí de onde eu estava. E
saí de onde estava para lhe implorar auxílio!
Isso não responde minha pergunta!
Ah, sei lá! Acho que foi minha intuição!
Exatamente isso! Você não enxerga já há algum tempo, não é
mesmo?
Sim! Muito mais do que posso suportar!
Você desenvolveu uma forte intuição pra compensar a cegueira
física!
Pensando bem, acho que é isso mesmo! E pensando um pouco
mais, o senhor acabou de me ajudar a descobrir o porquê dessa minha obsessão em
enxergar novamente!
Por quê?
Justo por causa da minha intuição! Ela grita nos meus
ouvidos que essa cegueira não precisa ser permanente, como é o caso de muitos
dos meus colegas de deficiência! Eu sinto que algo pode ser feito para que essa
condição possa ser desfeita!
Bem pensado. Mas entre, vamos continuar a conversa lá dentro
com um cálice de vinho.
Entraram, se sentaram, o mago encheu dois cálices e deu um
ao cego. Ele bebeu e após alguns instantes de silêncio, perguntou:
O que o senhor está fazendo?
Estou abrindo as cartas... Aqui diz que você cometeu muitos
erros em vidas passadas, e sua atual cegueira é o pagamento por essas dívidas.
Oh! Faz sentido pra mim... Mas as cartas dizem se já paguei
tudo?
Sim. Diz que você deveria passar essa vida inteira
pagando...
Oh! Então eu não devo ter esperanças?
Não deveria! Mas os Deuses são bons! Você tem uma
alternativa...
Oh! E qual é?
O mago se levantou e foi até um baú num canto da cabana.
Pegou uma pequena caixa e voltou até a mesa. Sentou-se novamente, abriu a caixa
e tirou duas sementes que mais pareciam comprimidos. Uma era azul, e a outra
vermelha. E disse:
Temos aqui duas sementes encantadas. Se você beber a semente
azul, continua sendo cego. Porém, vai se esquecer de tudo o que já passou,
inclusive este momento e viverá em paz junto aos seus amigos cegos. Mas se
tomar a semente vermelha, vai enxergar o mundo como ele realmente é!
Sem pensar duas vezes, o cego disse:
Quero tomar a semente vermelha!
Mas veja bem - disse o velho mago -, há consequências!
Tudo bem! Eu as aceito! Seja o que Deus quiser!
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