sábado, 15 de abril de 2023

Alegoria

 Mas agora uma pequena pausa nesse lance de morte e carta de despedida, pra escrever sobre a vida:

Cristiano tinha oito bilhões, digo, três filhos e desde seus primeiros meses de vida, ele já sabia como era a personalidade ou temperamento de cada um deles. O primeiro seria obediente; o segundo seria independente; e o mais novo, o terceiro, seria louco (num bom sentido).

A vida de Cristiano era dura! Trabalhava pra prefeitura da cidade como lixeiro. E quando os filhos começaram a ter consciência do trabalho do pai: O primeiro sentiu orgulho; o segundo, repulsa; e o terceiro confusão. O terceiro sentiu confusão porque ele amava muito seu pai, mas se sentia culpado por sentir vergonha do trabalho do velho.

Desde cedo Cristiano tentava explicar aos filhos a nobreza de seu trabalho: sem coletor de lixo, o mundo ficaria podre! E a vida na Terra seria impossível para os seres humanos. O primeiro filho acreditava sem ressalvas, pois seu pai apesar de realizar um trabalho humilde, lia muito. Cristiano nunca foi à escola! Mas sempre gostou de ler e lia muito – como já disse -, sobre muitos assuntos. O segundo filho achava um desperdício o pai ter tanto conhecimento e trabalhar de lixeiro! Ele achava que o pai deveria estar rico fazendo qualquer coisa, menos isso. Já o terceiro não pensava em nada, só se sentia perdido e não merecedor de nada; nem do pai que tinha e nem da vida relativamente confortável que levava.

Cristiano sempre dizia desde cedo aos três: Se você me seguir, você conseguirá algo na vida! Caso contrário, perecerá! (?)

O primeiro nasceu com Fé; seguia o pai, feliz só pelo fato de estar vivo e agradecido pelas pequenas coisas. O segundo cresceu, fez faculdade e se tornou empresário de sucesso. O terceiro trabalhava como peão em uma firma e ao fim de cada mês gastava o salário em prostíbulos.

Quando os filhos alcançaram a maioridade, Cristiano fez uma reunião com os três: Bom, tenho muito dinheiro guardado! O primeiro não se surpreendeu; O segundo: Como pode?! Um lixeiro?! O terceiro ficou confuso, pra variar. E Cristiano disse: Quando criança, eu sei que era difícil pra vocês me seguirem, ou acreditar no que eu dizia! Mas agora já são homens feitos; E aí, vai me seguir ou não?

O primeiro filho, que também era lixeiro ficou calado, pois sabia que a pergunta na verdade, era para os outros dois irmãos. O segundo negou, pois era rico e bem sucedido, pensou: Por que eu deixaria uma vida de empresário bem sucedido pra ser lixeiro nessa altura do campeonato? O terceiro sofreu tanto na vida que aceitou o trato com o pai. Porém, o terceiro era um torto irremediável; Faltava no trabalho, e quando ia, chegava atrasado. Mas estava decidido do seu jeito; aos trancos e barrancos, seguiu o pai, apesar de estar se sentindo velho e fraco.

Cristiano completou cem anos de idade e fez sua última reunião com os filhos:

E aí, vai me seguir ou não? Eu sou o caminho, a verdade e a vida!

O primeiro sorriu.

O segundo tinha perdido tudo o que conquistou na vida por causa da traição de um “amigo”.

O terceiro ficou confuso.

Cristiano: Qual seu sonho de infância?

O primeiro filho: Sempre quis ser professor! Acho tão lindo! Assim foi feito; Cristiano mexeu os pauzinhos e fez do primeiro um grande professor.

O segundo filho: Eu só queria ser rico! Independente de como! Assim não foi feito; Cristiano abandonou o segundo que morreu na miséria.

O terceiro filho: Desde que minha professora da quarta série me deu um livro da Cecília Meireles – com dedicatória -, sempre quis ser um escritor! De preferência famoso e aclamado pelo público e pela crítica! Assim foi feito.

Cristiano: To deixando uma herança; A cada filho meu, conforme sua fé e boa vontade.

A vida desses fulanos não existiria sem a esposa de Cristiano e mãe dos três! Mas deixo essa história para uma outra oportunidade.

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