Acho que sei a razão de todo meu asco por trabalhar. Sempre desconfiei; mas nunca externei pra ninguém; vou escrever aqui, agora, sobre o assunto. Talvez isso ajude a resolver o problema! Apesar de que eu acho que é só por Deus mesmo!
Pra variar, acho que foi um trauma de infância! Pois é! São
vários! Criança já é mais suscetível a esse tipo de coisa, e quando a criança é
hipersensível, a coisa fica realmente séria! Na verdade são dois episódios com
meus pais. Sei, é chato ficar remoendo essas coisas; culpando os pais e tals. Mas
não to culpando ninguém! Já culpei, mas hoje já está tudo resolvido dentro de
mim. Digo, resolvido a raiva que eu sentia deles. Só ficou o Amor! Mas assim
mesmo ainda não gosto de trabalhar! Já foi pior! Se eu ficasse mais de dois
anos em um único lugar, já começava a ficar deprimido! Vocês vão ver; parece
que não é nada de mais. Mas marcou muito!
Eu era um menino saudável e feliz; meus pais sempre fizeram o
máximo pra mim e minha irmã mais nova (que sempre pareceu mais velha; não pela
aparência física, mas pela maturidade). Já disse e repito: Esse episódio parece
não ser nada de mais! Mas após o acontecido, passei a viver como um zumbi; meu
ser espírito e verdadeiro morreu; então pra viver no mundo e não morrer
fisicamente, comecei a usar máscaras. Mas veja bem, só sei disso hoje após anos
de terapia! E talvez minhas terapias tenham demorado tanto pra dar algum
resultado porque elas pareciam com as terapias do Charlie Harper. Enfim, cá
estou eu falando disso! Sinal que ainda não morri.
Quando eu tinha entre oito e dez anos de idade (idade
aproximada; impossível eu lembrar exatamente minha idade naquela época, após
tanto tempo), todo verão minha mãe fazia geladinhos (os melhores da cidade) e
eu colocava num isopor e ia vender pelas ruas da ZL. Andava quase inteira a
Avenida Mateo Bei, em São Matheus. Só não andava ela inteira, porque os geladinhos
acabavam antes e tinha que voltar pra reabastecer. E mano, eu curtia pra caraio
essa parada!
Um dia, estava eu perto de casa brincando, quando um vizinho
amigo me chamou pra ir com ele. Fomos até a quitanda, lugar onde se vende
hortifruti, em que ele trabalhava. Sem dizer palavra, começamos a trabalhar;
separar frutas e legumes; carregar caixas; carregar o caminhão. No final do
dia, o chefe nos pagou com uma dúzia de bananas (achei justo). Começou a chover
e ficamos – eu e o meu vizinho – embaixo da cobertura de uma loja fechada perto
de nossas casas. O mano era mais velho; então conversamos do jeito que deu;
comemos as bananas sem prestar atenção em mais nada. E quando acabou, fui pra
casa felizão! Mano, eu trabalhei e fui recompensado pelo suor do meu trabalho!
Chegando em casa, o choque: Meu pai abriu a porta e me disse:
Tá satisfeito?
Minha mãe estava chorando! E disse:
Eu não criei filho pra ser mendigo!
Não entendi porra nenhuma! Mas é lógico que fiquei triste pra
caraio! Porra mano, minha mãe chorando de tristeza por minha causa! Eu, criança
inocente, pensei: Nossa, acho que trabalhar é errado!
Não sei como fiquei sabendo, mas fiquei sabendo:
A irmã da nossa vizinha – que odiava nosso cachorro – passou quando
a gente tava comendo as bananas e foi correndo dizer pra minha mãe:
Seu filho ta ali no prédio vizinho comendo bananas como um
mendigo!
Depois disso veio aquela surra que levei do meu pai, que todo
mundo já sabe.
Morri.
Perdão mamãe!
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