quarta-feira, 26 de abril de 2023

Maldita vizinha fofoqueira

 Acho que sei a razão de todo meu asco por trabalhar. Sempre desconfiei; mas nunca externei pra ninguém; vou escrever aqui, agora, sobre o assunto. Talvez isso ajude a resolver o problema! Apesar de que eu acho que é só por Deus mesmo!

Pra variar, acho que foi um trauma de infância! Pois é! São vários! Criança já é mais suscetível a esse tipo de coisa, e quando a criança é hipersensível, a coisa fica realmente séria! Na verdade são dois episódios com meus pais. Sei, é chato ficar remoendo essas coisas; culpando os pais e tals. Mas não to culpando ninguém! Já culpei, mas hoje já está tudo resolvido dentro de mim. Digo, resolvido a raiva que eu sentia deles. Só ficou o Amor! Mas assim mesmo ainda não gosto de trabalhar! Já foi pior! Se eu ficasse mais de dois anos em um único lugar, já começava a ficar deprimido! Vocês vão ver; parece que não é nada de mais. Mas marcou muito!

Eu era um menino saudável e feliz; meus pais sempre fizeram o máximo pra mim e minha irmã mais nova (que sempre pareceu mais velha; não pela aparência física, mas pela maturidade). Já disse e repito: Esse episódio parece não ser nada de mais! Mas após o acontecido, passei a viver como um zumbi; meu ser espírito e verdadeiro morreu; então pra viver no mundo e não morrer fisicamente, comecei a usar máscaras. Mas veja bem, só sei disso hoje após anos de terapia! E talvez minhas terapias tenham demorado tanto pra dar algum resultado porque elas pareciam com as terapias do Charlie Harper. Enfim, cá estou eu falando disso! Sinal que ainda não morri.

Quando eu tinha entre oito e dez anos de idade (idade aproximada; impossível eu lembrar exatamente minha idade naquela época, após tanto tempo), todo verão minha mãe fazia geladinhos (os melhores da cidade) e eu colocava num isopor e ia vender pelas ruas da ZL. Andava quase inteira a Avenida Mateo Bei, em São Matheus. Só não andava ela inteira, porque os geladinhos acabavam antes e tinha que voltar pra reabastecer. E mano, eu curtia pra caraio essa parada!

Um dia, estava eu perto de casa brincando, quando um vizinho amigo me chamou pra ir com ele. Fomos até a quitanda, lugar onde se vende hortifruti, em que ele trabalhava. Sem dizer palavra, começamos a trabalhar; separar frutas e legumes; carregar caixas; carregar o caminhão. No final do dia, o chefe nos pagou com uma dúzia de bananas (achei justo). Começou a chover e ficamos – eu e o meu vizinho – embaixo da cobertura de uma loja fechada perto de nossas casas. O mano era mais velho; então conversamos do jeito que deu; comemos as bananas sem prestar atenção em mais nada. E quando acabou, fui pra casa felizão! Mano, eu trabalhei e fui recompensado pelo suor do meu trabalho!

Chegando em casa, o choque: Meu pai abriu a porta e me disse: Tá satisfeito?

Minha mãe estava chorando! E disse:

Eu não criei filho pra ser mendigo!

Não entendi porra nenhuma! Mas é lógico que fiquei triste pra caraio! Porra mano, minha mãe chorando de tristeza por minha causa! Eu, criança inocente, pensei: Nossa, acho que trabalhar é errado!

Não sei como fiquei sabendo, mas fiquei sabendo:

A irmã da nossa vizinha – que odiava nosso cachorro – passou quando a gente tava comendo as bananas e foi correndo dizer pra minha mãe:

Seu filho ta ali no prédio vizinho comendo bananas como um mendigo!

Depois disso veio aquela surra que levei do meu pai, que todo mundo já sabe.

Morri.

Perdão mamãe!

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